Di Maria foi um dos jogadores mais espetaculares que passou nas últimas décadas no futebol português. A sua criatividade ofereceu aos adeptos momentos mágicos de fintas, passes e golos. Chegou ao Benfica com 19 anos e daí seguiu para os melhores clubes do mundo (Real Madrid, Manchester United, Juventus e PSG), onde conquistou campeonatos (2 em Portugal, 2 em Espanha e 5 em França) e uma Liga dos Campeões. Pela sua Argentina, sagrou-se campeão do mundo (AA e sub-20), e conquistou duas copas américa e um torneio olímpico. Por tudo isto, foi com muito entusiasmo que se deu o seu regresso ao Benfica em 2023, sendo idolatrado pelos sócios e, por conseguinte, pelos dirigentes. Em mais clube nenhum do mundo, Di Maria seria hoje acarinhado como é no Benfica, até porque foi companheiro de equipa do seu atual presidente. Contudo, o Di Maria que foi não é o mesmo Di Maria que voltou.
Do ponto de vista social, Di Maria tem de ser liderado com cuidados permanentes. Sobretudo em ano de eleições no clube da luz, é impensável para qualquer treinador do Benfica ter Di Maria no plantel e não o colocar a jogar (a titular). A pressão que iria sofrer de fora (na comunicação social e nas redes sociais) e de dentro (por parte de alguns dirigentes) determinaria, seguramente, o fim precoce do contrato de trabalho do treinador. Lembrem-se o que aconteceu a Fernando Santos e a Carlos Queiroz no dia em que não defenderam unilateralmente os interesses de Cristiano Ronaldo. Schimdt aprendeu depressa: só substituiu Di Maria aos 56 minutos no seu primeiro jogo no Benfica...
Do ponto de vista fisiológico, como todos os atletas de 36 anos, Di Maria vive hoje uma natural redução da: i) massa muscular e força, afetando a sua explosão e potência; ii) capacidade aeróbica, diminuindo a sua resistência; e iii) a elasticidade muscular e agilidade, aumentando o risco de lesões.
Do ponto de vista técnico-individual, Di Maria já não tem velocidade para ganhar a linha de fundo ao seu adversário direto, e por isso tem de jogar na direita. A sua menor potência faz com que ataque mais atrás e defenda mais à frente, sempre longe das zonas de duelos e confronto.
Esta nova realidade faz com que o(s) treinador(es) do Benfica sejam forçados a adaptar a dinâmica coletiva de jogo da sua equipa para colocar Di Maria a jogar (e ainda assim garantir algum equilíbrio). Por exemplo: i) para Di Maria jogar na esquerda, Akturkoglu teve de passar para a direita; ii) o Benfica passou a afunilar o jogo ofensivo e a perder a profundidade nos corredores; iii) os pontas-de-lança passaram a receber cruzamentos de costas, e os defesas centrais adversários de frente; iv) tanto Artur Cabral como Pavlidis que marcavam muitos golos antes de vir para o Benfica, passaram a marcar muito poucos; v) Bah tem de atacar à frente e defender atrás de Di Maria, tendo lesões como nunca antes teve, e sofrendo situações de 2x1 como nunca antes sofreu; e vi) os jogadores do meio-campo são escolhidos pela sua capacidade física de fechar o corredor direito.
Além de tudo isto, Di Maria arrisca hoje mais do que antes. Dados estatísticos médios demonstram-nos que um extremo toca na bola cerca de 57 vezes por jogo, entre 2 a 4 segundos de cada vez, tendo a sua posse entre 1 minuto e 30 segundos, e 2 minutos durante o jogo. Considerando que a liga portuguesa tem uma média de tempo útil de jogo de 55 minutos, Di Maria não contribui com a sua qualidade sobre a bola em 96% do tempo. No que concerne aos restantes 4%: i) no último jogo com o Sporting, Di Maria foi o jogador que perdeu mais vezes a bola (22); e ii) em março de 2024 foi notícia internacional por ser o 3º jogador na europa com maior média de bolas perdidas por jogo (21.9) e por perder 39% dos duelos 1x1 que enfrenta.
Parece-me, pois, adequado analisar-se o impacto da presença de Di Maria no plantel do SL Benfica, e discutir-se a sua influência no rendimento da equipa de forma objetiva, mais abrangente e isenta de emoção. Com todo o peso do seu currículo e a admiração da massa adepta, partilho da opinião que Di Maria não deveria estar no plantel do Benfica e que o clube deveria ter um modelo de recrutamento e valorização dos seus ativos mais ajustada a uma estratégia de gestão que deu bons resultados no passado. Fazer regressar hoje Di Maria não é repetir a fórmula de sucesso de outros tempos. Isso seria identificar em 2024 um jogador igual ao Di Maria de 2007, dar-lhe tempo de jogo para fazer crescer a sua equipa (e a ele próprio por inerência), e gerar mais valias financeiras com a sua transferência para grandes clubes europeus, tão importante hoje para o SL Benfica.