Na manhã desta segunda-feira, Dia Mundial da SIDA, a Direção-Geral da Saúde publicou no Instagram um cartaz com a frase “A SIDA não acabou” e, em baixo, três pessoas negras de punho erguido. Em poucos minutos, a caixa de comentários encheu-se de críticas a acusar a autoridade de saúde de reforçar estereótipos racistas. Poucas horas depois, a publicação desapareceu sem explicação. DGS garante que “rejeita discriminação seja por que motivo for”
“Desnecessário este cartaz”, escreveu um utilizador. “Inadmissível este cartaz!!!”, reforçou outra. “Neste ano vamos adicionar uma imagem que perpetue a ignorância e garanta a estigmatização”, ironizou um terceiro.
Houve quem perguntasse se “o botão noção está desligado aí no marketing?” e quem fosse mais directo: “Vocês são racistas apenas à segunda-feira ou toda a semana?”. Um dos comentários faz a ponte com a actualidade política, colando a escolha da DGS aos cartazes polémicos do partido de André Ventura: “Isto é inacreditável. A culpa não é só dos cartazes do Chega. Que estigma, que racismo, que preconceito”. Outro utilizador resumia a crítica de fundo: “Representar apenas pessoas negras num cartaz sobre SIDA reforça estigmas perigosos e completamente desajustados da realidade. A comunicação pública deveria ser exemplo de diversidade e combate ao preconceito”.
A imagem, uma composição gráfica em tons de vermelho e preto, foi usada para a Direção-Geral da Saúde (DGS) se associar ao lema da ONUSIDA (UNAIDS, na sigla em inglês) deste ano, “Ultrapassar as disrupções, transformando a resposta à SIDA”. No texto, a entidade portuguesa recordava que “a SIDA ainda não acabou” e que há caminho a fazer para atingir a meta de acabar com a doença como ameaça de saúde pública até 2030.
O foco do debate, porém, passou a ser a representação escolhida. Confrontada com as acusações de estigmatização, a DGS, que é um serviço central do Ministério da Saúde responsável por orientar a política de saúde pública e coordenar o Plano Nacional para o VIH, limitou-se a remover a publicação poucas horas depois, não divulgando qualquer esclarecimento.
A CNN Portugal também tentou, ao longo do dia, obter esclarecimentos da Direção-Geral da Saúde sobre a escolha da imagem e o apagão da publicação. Em resposta escrita às perguntas enviadas, a DGS diz ter só usado “uma imagem produzida e disponibilizada pela ONUSIDA” para o Dia Mundial da SIDA, traduzida e partilhada com parceiros comunitários, para lembrar que “a SIDA ainda não acabou” e que há um caminho global até 2030. Para reforçar “a perceção da mensagem e a sua origem”, repartilhou o post original da agência da ONU e garante rejeitar “discriminação seja por que motivo for, designadamente sexo, raça, cor, origem étnica ou social”.
[NOTA - As Nações Unidas assumem há décadas que não existem “raças” humanas em sentido biológico e que não há qualquer base científica para hierarquias entre povos. Nos documentos da UNESCO e nas convenções contra o racismo, o termo “raça” surge apenas como construção social, nunca como dado científico. Também na antropologia contemporânea, a ideia de “raça” é descartada como facto biológico e tratada como uma construção histórica e política usada para organizar e justificar racismo e desigualdades.]
O cartaz português é praticamente sobreponível a uma peça da campanha global da ONUSIDA, o Programa Conjunto das Nações Unidas para o VIH/SIDA, que junta 11 agências da ONU, da Organização Mundial da Saúde ao Alto Comissariado para os Refugiados. Na conta internacional da organização a imagem continua online, acompanhada da frase “AIDS is NOT over!” e de dados globais sobre a epidemia, sem registo de polémica comparável.
A diferença, notam vários comentários na publicação da DGS, está no contexto: a campanha global surge num mosaico de peças com pessoas de origens muito diversas, enquanto a versão portuguesa foi publicada isolada, num feed institucional onde nada contrabalança a associação visual entre “A SIDA não acabou” e rostos exclusivamente negros.
África com mais casos por causa da desigualdade no acesso à prevenção
Do ponto de vista epidemiológico, o vírus não tem cor de pele. Em 2024, segundo a ficha estatística mais recente da ONUSIDA, 40,8 milhões de pessoas viviam com VIH em todo o mundo, 1,3 milhões foram infetadas nesse ano e cerca de 630 mil morreram de doenças associadas à SIDA.
Quase dois terços das pessoas com VIH (cerca de 26,3 milhões) vivem na região africana da Organização Mundial da Saúde, não por qualquer predisposição biológica, mas porque ali se acumulam décadas de desigualdade no acesso à prevenção, ao teste e ao tratamento. É por isso que especialistas em saúde pública insistem, há anos, que ligar a infeção a um grupo étnico (ontem foram homens gays, hoje são pessoas negras, amanhã poderão ser migrantes) alimenta o estigma e afasta quem mais precisa dos serviços de saúde.
Em Portugal, os dados divulgados na semana passada no relatório “Infeção por VIH em Portugal 2025” mostram que a curva continua a descer, embora com sinais de alarme. Em 2024 foram notificados 997 novos casos de infeção por VIH, menos do que em 2023, mas mais de metade dos diagnósticos (cerca de 54%) continuam a ser tardios, sobretudo em pessoas com 50 ou mais anos.
Houve ainda 194 novos casos de SIDA e 108 mortes em pessoas que viviam com VIH. A maioria dos novos diagnósticos ocorreu em homens e a via sexual continua a ser responsável por cerca de 97% das infeções identificadas. Apesar da tendência de descida, Portugal mantém taxas de novos casos claramente acima da média da União Europeia.
É neste cenário que a DGS, que há anos pede “menos medo, menos estigma e mais teste”, se vê agora acusada, nos comentários, de fazer o contrário do que prega. Entre emojis de indignação e apelos a “fazer queixa disto”, o fio condutor é sempre o mesmo: o cartaz que pretendia lembrar que a SIDA não acabou acabou, ele próprio, a ser lido como um exemplo de como o preconceito continua vivo.