«Valentim Loureiro assinou um contrato comigo num guardanapo de papel»

19 mai, 09:19
Hélder Batista

O Maisfutebol parte ao encontro de Hélder Batista, médio defensivo que jogou no PSG ao lado de Jay-Jay Okocha, Marco Simone e Patrice Loko, e que nos tempos do Boavista era visita de casa do Major

DESTINOS é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias de décadas passadas e marcantes no nosso futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINOS.

Hélder Batista, ou simplesmente Hélder como era conhecido, foi um dos melhores médios defensivos do futebol português nos anos noventa. Chegou a fazer parte da geração de ouro, com Figo, Rui Costa e João Pinto, que foi à final do Euro sub-21, deu nas vistas no Boavista, transferiu-se para o PSG onde jogou com Okocha e estabeleceu-se no Rayo Vallecano ao lado de Lopetegui.

Acabou a carreira aos 34 anos no Torrense, ainda foi adjunto de Pedro Caixinha, mas hoje está de volta a casa para aproveitar a família. Nesta conversa com o Maisfutebol recorda as melhores histórias da carreira, fala sobre o Major Valentim Loureiro a cortar presunto lá em casa, sobre as loucuras de Okocha e a excentricidade da presidente do Rayo Vallecano.

Começou a sua carreira no Torreense, que é o clube da sua terra, e a partir daí foi sempre a subir, não é?

Olhe, eu era júnior e já treinava com os seniores. Depois o clube subiu à Primeira Divisão, em 91-92, e eu fiquei no plantel. A minha estreia foi num jogo contra o FC Porto, empatámos 0-0, o prof. Carlos Queiroz estava na bancada, gostou de mim e comecei a ir à seleção sub-21.

Então fez parte daquela fantástica seleção que foi à final do Euro sub-21?

Eu depois deixei de ser chamado e não estive na fase final, porque voltei para o Torreense, que estava na II Divisão, e deixei de ter visibilidade. Mas naqueles dois anos em que estive na Primeira Divisão, no Torreense e no Farense, fiz parte desse grupo.

Era a Geração de Ouro do futebol português.

Sim, o Rui Costa, o João Pinto, o Figo, o Gil, o Toni, o Jorge Costa, o Nélson a lateral direito.

É essa seleção que perde a final do Euro sub-21 frente à Itália, com um golo de Orlandini no prolongamento.

Sim. Eu deixei de jogar na Primeira Divisão e eles olharam para outros jogadores. Para a minha posição havia o Peixe, o Cao, o Bino...

Então e fez a estreia na Primeira Divisão frente ao grande FC Porto, que foi até campeão?

Sim senhor, Jaime Magalhães, João Pinto, Vítor Baía, Kostadinov, André, Fernando Couto, Domingos. Estavam lá as feras todas.

Ficou com alguma memória que nunca tenha esquecido desse jogo?

Lembro-me que quem andava mais pelos meus terrenos era o Jaime Magalhães. Eu tinha os cromos daqueles jogadores todos e para mim, um miúdo de 19 anos, era um sonho estar ali ao lado deles.

Não levou nenhuma porradinha do André?

Eles batiam, mas era na sombra. [risos] A verdade é que eram jogadores à Porto e eram referências. Sentiam a camisola que vestiam e deixavam tudo em campo. Eu também gostava de sair de campo a sentir que fui ao meu limite, por isso eles eram uma referência. Apesar de empatarmos com o campeão, no final desse ano descemos de divisão e então o Farense surgiu como um dos clubes interessados. Em troca de dois jogadores, fui para o Farense e fiquei um ano emprestado. Foi uma época que correu muito bem, ficámos em sexto e fomos à Taça UEFA.

Esse era o grande Farense do Paco Fortes, não era? Com Hassan, Djukic, Jorge Soares...

Hajry, Miguel Serôdio, Pitico, Sérgio Duarte... Exatamente, exatamente. Nessa temporada não perdemos um único jogo em casa. O São Luís era um inferno para as outras equipas. Fiz um grande ano, o Farense queria ficar comigo, mas os clubes não chegaram a acordo e tive de voltar para o Torreense, que estava na II Divisão.

O que é que lhe ficou mais na memória desse Farense?

Recordo-me que nos jogos em casa não havia lugar nem para mais um espectador. Era realmente uma coisa fantástica, o ambiente que se criava na cidade em torno do Farense, o convívio entre adeptos e a forma como eles viviam o clube num clima de festa. Começava antes do almoço e ia até ao jantar. O São Luís estava sempre cheio.  Fantástico. As bancadas em cima do campo, aquilo criava alguma intimidação para o adversário. Sentia-se isso na cara deles.

O degrau a seguir foi o Sp. Braga.

Antes disso ainda voltei para o Torreense. Fiquei um ano e na época seguinte fui para o Sp. Braga. O Manuel Cajuda já me tinha treinado no Torreense e levou-me. Aí conheci o Litos que, jogou no Sporting e diziam que era melhor do que o Futre. Apanhei-o em fim de carreira, mas com a bola nos pés era fantástico. Foi mais um ano espetacular, joguei os joguinhos todos e... Boavista.

O Boavistão, não é?

O Boavistão do Manuel José. Fiz três anos e fui vendido para o PSG.

Era um Boavista que dava muitos jogadores aos grandes.

O Major estruturava bem o clube, já andava a fazer as obras no estádio e procurava construir sempre grandes planteis. Tínhamos todas as épocas grandes jogadores. Nuno Gomes, Jimmy, Ayew, Sanchez, Timofte, Nelo, Tavares, Latapy, Douala, Jorge Couto, Pedro Emanuel, Litos, enfim. O Paulo Sousa, o Jaime Alves, o Bobó. Grandes, grandes jogadores. A mentalidade era sempre ganhar e foi de facto o clube que mais me marcou.

E como era a sua relação com Valentim Loureiro?

Eu sou suspeito, porque sempre gostei muito do Major. Ele convidava-me para ir lá a casa e para almoçar com a família.

A sério?

Sim, sim, sim. Eu tive a felicidade de fazer parte da família do Major. Sentava-me à mesa com os filhos e com os netos. Inclusivamente ia à casa de praia dele.

Mas ele fazia isso com muitos jogadores?

Não, não. Aliás, havia algum mal-estar em alguns jogadores quando sabiam que eu ia a casa dele, mas sempre me sentei com muito orgulho à mesa com a família dele. Aliás, quando estou com ele ainda é uma felicidade recordar estes momentos de apoio e de carinho que ele me dava.

E porque é que ele fazia isso consigo?

Não sei. A verdade é que não sei. Quando eu tinha um dia de folga ou tinha um domingo livre, ele fazia questão que eu fosse. Mesmo o João Loureiro, antes de ser presidente, também fazia questão que eu fosse. No início estava muito envergonhado, mas como o Major fazia tanta questão, eu acabava por ir. Por isso é que só tenho coisas boas a dizer dele. Lembro-me daqueles grandes almoços em que era ele que cortava o presunto e mal eu entrava em casa obrigava-me logo a ir comer presutno. Aquela maneira dele de falar alto, aquela palmadinha nas costas mais violenta, era fantástico e estou-lhe muito grato pelo que fez por mim. É uma pessoa à antiga. Só para ter uma ideia, eu renovei com o Boavista num guardanapo.

Como é que foi isso?

Ele convidou-me para almoçar, começámos a falar de condições e tal, ele escreveu tudo num guardanapo, assinámos e foi assim. Somos pessoas de palavra. Depois quando formalizámos o contrato estava direitinho tudo o que tinha ficado escrito naquele guardanapo.

E ainda ganhou uma taça.

Ganhei duas. Uma Taça de Portugal, contra o Benfica no Jamor, e uma Supertaça contra o FC Porto nas Antas.

Foi aquela final da Taça em que o Nuno Gomes já estava vendido para o Benfica e fez um jogo incrível?

Exatamente. Ele jogou um bocadinho de raiva pelo que se dizia. Mas nós quando vestimos a camisola deixámos essas coisas todas de parte. Enfim, o nosso treinador era o Mário Reis, dois terços do estádio eram adeptos do Benfica e sabe quem treinava o Benfica? O Manuel José.

Curioso.

Verdade. Depois ganhámos a Supertaça ao FC Porto e em dezembro eu saí para o PSG.

O PSG de Artur Jorge.

Sim, sim. Eu terminava contrato em junho, tinha clubes interessados, tanto em Portugal como no estrangeiro, e a partir de janeiro podia assinar a custo zero. Mas o Boavista sempre foi especial, a família Loureiro sempre me tratou bem, então fui falar com o Major, disse-lhe que gostava de dar algum dinheiro ao Boavista e ele vendeu-me para o PSG em dezembro.

E como é que correram as coisas em Paris?

Eu cheguei em dezembro e logo na primeira semana, no último treino antes da estreia, lesionei-me no joelho e fiquei três meses parado. Foi o período mais difícil da minha carreira. Tinha sido contratado para ser o joker, cheguei sem falar a língua, no inverno e lesionei-me logo. Foram três meses muito complicados. Só joguei no fim da época, fiz apenas sete jogos e no ano seguinte fui emprestado. Havia vários clubes interessados e eu escolhi o Rayo Vallecano, que era de Madrid.

E como era o balneário do PSG?

Incrível. Jay-Jay Okocha, Marco Simone, Bernard Lama, Patrice Loko. Grandes estrelas mundiais. Mas foi uma fase complicada também para o clube, numa fase económica não muito boa, com problemas no balneário entre os jogadores, não foi fácil.

E como é que o Artur Jorge lidava com isso tudo?

As pessoas diziam que ele não comunicava, que era muito distante. Comigo era o contrário. Talvez por ser o único português, falava comigo, chamava-me ao balneário dele e comunicávamos muito. Além disso era de uma cultura impressionante.

Como é que era o Jay-Jay Okocha?

Magia, magia. Magia pura. Era um mágico, autenticamente. Fisicamente era um superatleta, muito rápido, musculado, e depois tinha a paixão de andar sempre com a bola. Ele ia todos os dias meia hora mais cedo só para estar no relvado a fazer malabarismos. Notava-se que ele se divertia. Tudo o que fazia com a bola era para desfrutar.

E os colegas não tinha a tentação de lhe dizer para ser menos brinca-na-areia?

Não, pelo contrário. Juntávamo-nos sempre seis ou sete antes do treino, a ver as coisas novas que ele inventava com a bola, e ele lá estava no relvado, no meio de cones e bonecos, sempre a criar novas fintas e novas brincadeiras. Depois às vezes ainda dizia: ‘Tentem lá fazer isto’. Mas ninguém conseguia, claro. O Okocha era talento puro. Era um privilégio ver as coisas que fazia ali. Ele também tinha chegado como jogador mais caro da história do PSG, melhor jogador dos Jogos Olímpicos de 96, equipa ideal do Mundial 98, portanto estava à vontade, tinha moral ali dentro. Curiosamente fora de campo era o oposto: recatado, supertranquilo, sempre na dele.

E o Marco Simone como era?

O Simone era golo. Jogava fácil, decisivo dentro da área e fazia muitos golos. Já veio para o PSG numa fase final da carreira, depois de ter sido destaque no grande Milan dos anos noventa, mas ainda fez muitos golos. Lembro-me de uma situação curiosa com o Simone.

Então?

Havia uma regra dentro do clube, que todos tínhamos de cumprir: tínhamos de ir sempre para os treinos no Opel que o PSG nos dava. A Opel era patrocinadora, todos recebíamos um carro da marca e quem não cumprisse pagava uma multa. Se alguém fosse no carro particular, pagava multa. O Simone vivia em Paris, apanhava muito trânsito, era italiano, de maneira que aparecia todos os dias na sua Vespa. Quando o tempo estava bom, era certinho: aparecia sempre de fatinho na sua Vespa. Pagava todos os dias multa, mas ele não se importava.

Ia de fato para os treinos?

Ah, sim, sim. Isso era todos os dias. Mas o mais impressionante é que ia de fato e gravata, na Vespa. Mesmo italiano.

Voltando à história do Hélder, seguiram-se cinco anos no Rayo Vallecano, certo?

Exatamente, cinco anos.  O Rayo Vallecano era propriedade família Ruiz-Mateos, que se dizia que tinha mais dinheiro do que o próprio Estado e que foi expropriada pelo governo nos anos oitenta. Esse Ruiz-Mateos deu depois um murro no ministro da Economia e foi preso. Andou muito tempo em tribunal para tentar recuperar as empresas que o Estado lhe tinha tirado e, enquanto isso, começou a construir tudo de novo e voltou a ter várias empresas. O símbolo do grupo era uma abelha, por ser um animal trabalhador. Ele queria que se lembrassem que ele era trabalhador e que ia reconstruir tudo de novo. Então comprou o Rayo Vallecano para que toda a Espanha visse a abelha. Durante os cinco anos em que eu lá estive, o clube era propriedade dele, mas a presidente era a mulher, Teresa Rivero, que chegou a dar o nome ao estádio.

Dizia-se que ela nem sabia para que baliza o Rayo Vallecano atacava...

Era curioso que a senhora era da Opus Dei, era muito católica e gostava de tratar da família de manhã. Então adormecia durante os jogos. A televisão às vezes filmava-a na tribuna e estava a dormir. Ela própria dizia que nem sabia quem tinha marcado.

No Rayo Vallecano chegou a ser colega do Julen Lopetegui?

Exatamente. Os guarda-redes eram ele e o americano Kasey Keller. Eu estive lá quatro anos, acabava contrato no ano em que descemos e era para me vir embora, mas nessa altura ele deixou de ser jogador, passou a treinador e pediu-me para ficar. Eu era um dos capitães e ele disse-me: ‘Hélder, pá, gostava que ficasses mais um ano, és um dos capitães e podes ajudar-me a subir de divisão’. Só que as coisas não correram muito bem e passado quatro meses ele saiu.

Ele enquanto jogador já era durão como mostrava a imagem que deixou em Portugal?

Ele também era um dos capitães e estava sempre a questionar tudo o que fazíamos e a querer saber mais. Mesmo nos almoços e nos estágios só falava de futebol. E é curioso porque dizia que o sonho dele era um dia treinar o Real Madrid e a seleção espanhola.  Já conseguiu treinar ambos.

Agora olhando para trás na sua carreira, o que sente que faltou?

Fiquei muito contente pela carreira que fiz. Mas um dos sonhos que tinha era ser internacional AA, sei que estive perto, não o consegui. Dei tudo, nunca me chamaram e respeito a opção, claro.

 

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