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Destino Paris: Jorge Fonseca quer o ouro depois do bronze (ao som de um pimbazinho)

24 jul 2024, 09:00
Jorge Fonseca
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Tóquio mudou a vida de Jorge Fonseca, mas ele quer acabar o que não conseguiu no Japão. Foi por isso que foi buscar a medalha a casa da mãe e olha para ela quando acorda. O judoca que continua a escrever a sua história de superação conta que passou por algo novo neste ciclo olímpico, «mais difícil» do que o cancro que superou. Quer estar «um monstro» em Paris, nos seus terceiros Jogos, e acabar a dançar.

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A medalha de Tóquio estava guardada em casa da mãe, mas agora Jorge Fonseca levou-a para perto de si. «Quando faltava um ano para os Jogos Olímpicos decidi ir buscá-la para todos os dias olhar para ela e me servir de inspiração para fazer melhor. Então, está na minha casa e todos os dias eu acordo, olho para ela e penso, ‘Vou-te superar’.»

Aquela medalha de bronze na categoria de -100 kg mudou muito na sua vida. «Fiquei mais reconhecido, ganhei um peso completamente diferente», diz. Mas soube-lhe a pouco, ele queria mais. Nos Jogos de 2021, não conseguiu chegar ao combate pelo ouro, depois de uma cãibra na mão que o limitou na meia-final. Entrou, de qualquer forma, para a galeria muito exclusiva de atletas portugueses que subiram ao pódio em Jogos Olímpicos. Foram apenas 28 medalhas, em mais de 100 anos de história.

«Já esqueci o que Tóquio me deu»

«Tóquio podia ter sido muito melhor. Eu tinha a expectativa de ganhar, tinha possibilidade de ganhar e a cãibra destruiu esse sonho. Tóquio mudou a minha vida também porque continuei a sonhar e a acreditar que ainda tenho muito para dar. Agora já esqueci o que Tóquio me deu e quero lutar por um novo futuro, que é tentar buscar aquilo que não consegui», diz Jorge Fonseca ao Maisfutebol.

São ainda menos os portugueses que conseguiram mais de uma medalha olímpica. Se o conseguir, Jorge Fonseca junta-se uma lista onde só estão cinco nomes: o canoísta Fernando Pimenta, que tenta ser o primeiro a conseguir uma terceira em Paris, mais os atletas Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro e o cavaleiro Mena e Silva.

Jorge Fonseca vai para a sua terceira participação olímpica. Chega a Paris em sétimo lugar no ranking olímpico, com o estatuto de cabeça de série, depois de um ciclo de qualificação que foi particularmente difícil, conta. «Foi complicado no início, porque eu tive muitas lesões.» Elas abalaram-no muito, ele vai falar disso mais à frente.

Mas sentiu sempre que o apuramento estava ao alcance. «Nunca duvidei de mim, porque eu estive sempre bem relativamente ao ranking. Eu era número 1 do ranking mundial. Depois, fiquei um ano parado e acabei por ficar número 10, portanto não perdi assim muito a nível de pontuação. Quando voltei a competir, no início perdi algumas posições, mas acabei por estar dentro do ranking e consegui apurar-me para os Jogos.»

O que ele diria ao miúdo de 11 anos que chegou de São Tomé e Príncipe

Foi mais um obstáculo a ultrapassar para o atleta que, aos 31 anos, continua a escrever a sua história, feita de superação e de perseverança. Venceu um cancro, foi bicampeão do mundo, é medalhado olímpico. Chegou longe o miúdo que aos 11 anos deixou São Tomé e Príncipe para viver com a mãe em Portugal, e que descobriu o judo a assistir da janela aos treinos orientados por Pedro Soares, antigo atleta olímpico, numa escola da Damaia.

Se dissessem a esse miúdo que iria chegar aqui, ele não acreditava, diz. Mas se ele o encontrasse hoje, tinha uma mensagem para lhe passar. «Eu ia dizer a esse miúdo para lutar pelo seu objetivo, para nunca desistir. Foi o que eu fiz. Se eu encontrasse esse miúdo de 11 anos dizia-lhe isso, pense positivo e nunca desista.»

Esse miúdo não imaginava que viria a tornar-se um grande desportista. «Não, não sonhava com isso», diz, ele que de início espreitava os treinos de judo, como já contou, para copiar umas manobras que davam jeito nas lutas a brincar no recreio da escola. Até que um dia Pedro Soares o convidou para experimentar uns treinos. E foi evoluindo. «Quando eu entrei para o judo o meu treinador disse que eu tinha capacidade para ser um grande judoca. Então, ao longo do tempo eu fui trabalhando para ser o melhor. Foi muito trabalho, muito suor, muita dedicação, muito foco.»

Pedro Soares levou-o para o judo e é «um pai» (com contas a acertar)

«Também tive um grande treinador que me mostrou um caminho, mostrou como eu podia ser melhor e explorar as minhas capacidades», continua, a constatar o óbvio. A influência no seu percurso de Pedro Soares, com quem seguiu mais tarde para o Sporting, que é ainda o seu treinador até hoje e é mais do que isso. «Ele foi sempre um exemplo. Foi uma figura paterna para mim, porque o meu pai não estava cá. Foi um pai para mim nestes 11 anos, foi a pessoa que me ensinou tudo que eu sei hoje. Eu via-o como um modelo da pessoa que eu queria ser.»

Fizeram todo o percurso juntos, nos momentos altos e baixos. «Foi ele que me levou para o judo e fez de mim o atleta que eu sou. Nós os dois lutamos pelo mesmo objetivo, temos o sonho de ser campeões olímpicos e estamos a trabalhar para isso.»

São os dois muito competitivos e também têm contas para acertar, sorri. «Eu ainda tenho uma disputa com ele, porque eu ainda não consegui ganhar uma das provas que ele ganhou, que foi o Grand Slam de Paris. Fiquei em terceiro. Quando ganhar aquela competição acredito que sou melhor que ele. Até lá, acho que estamos taco a taco.»

A outra referência de Jorge Fonseca é a mãe. Ele faz sempre questão de lhe dedicar as vitórias, de lhe entregar as medalhas e de lembrar as dificuldades que ela passou para criar os filhos. «Foi mãe e pai ao mesmo tempo. Esteve sempre presente. Trabalhava oito horas e tinha de tratar de tudo, meter comida em casa, sustentar-nos. Não era fácil. Foi uma inspiração para mim. Sou muito grato à minha mãe, por tudo o que ela fez e ultrapassou por nós. É a minha fã número 1, como ela diz sempre. É a pessoa a quem eu dedico as minhas maiores vitórias, as minhas conquistas», diz. E mãe é mãe, sempre. «Também me dá nas orelhas. Sempre que eu me porto mal a minha mãe está lá. É aquela mãe galinha.»

Os títulos mundiais depois do cancro, que «não foi o momento mais difícil»

No judo, Jorge Fonseca foi crescendo. Foi campeão europeu sub-23 em 2013 e estava lançado quando a doença o obrigou a parar. Estava nos Jogos Europeus de Baku, em 2015, quando surgiram os sinais de alerta, confirmados pelo diagnóstico de um tumor ósseo na perna. Fez quimioterapia e radioterapia e superou a doença. Voltou ao fim de seis meses e ainda foi a tempo de competir nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, onde ficou pela segunda ronda, terminando na 17ª posição.

E foi depois disso que viveu as maiores conquistas no judo. Foi campeão do mundo em 2019 e depois novamente em 2021, antes do bronze de Tóquio.

 

Agora, olhando para trás, diz que não foi o cancro o momento mais difícil deste percurso, mas as lesões que o obrigaram a parar no atual ciclo olímpico.

«Eu estava muito bem, saí de Tóquio top, tinha ficado em terceiro nos Jogos Olímpicos, estava numa expectativa muito alta e de repente comecei a ter muitas lesões. O momento mais difícil para mim foi depois de Tóquio começar a lidar com lesões», diz.

«Não sabia lidar com as lesões»

«Com o cancro eu lutei. Quis vencer o cancro e venci. Tive sempre o meu médico, que é o doutor Passarinho, do meu lado a apoiar, a dizer ‘Jorge, vais ultrapassar isso, vais superar isso’. E conseguimos ultrapassar. Depois de vencer o cancro conquistei títulos, fui campeão do mundo», recorda. «Superei o cancro, mas as lesões foram umas atrás das outras e eu não sabia lidar com elas.»

«Ficava três meses parado, de repente voltava a lesionar-me de novo. Eu não sabia lidar com isso, porque tinha acabado de vir de anos de glórias e estava a ver os outros a ganhar e eu não. Levanta muitas frustrações. Eu não sabia como fazer, nunca tinha tido tantas lesões daquele nível», continua.

Com os problemas físicos vieram dúvidas e para lidar com elas e o acompanhamento psicológico que teve foi fundamental, reconhece. Tal como os conselhos que recebeu de Naide Gomes, também ela antiga atleta olímpica e que é hoje a sua fisioterapeuta. «A doutora Ana Ramires foi minha psicóloga durante muito tempo. Tive sempre um bom acompanhamento. O treinador, a psicóloga e a Naide Gomes estiveram sempre do meu lado e tornaram tudo mais fácil. A Naide também passou por isto, teve grandes lesões também, passava sempre boas dicas e isso tornou tudo mais fácil. Tive sempre apoio de grandes pessoas, acabei por superar isto e fazer as coisas como deve ser para poder voltar na máxima força.»

Jorge Fonseca tem o sonho de ser polícia. Em 2022 candidatou-se, não passou nos testes e já disse por várias vezes que gostava mesmo de poder ter um futuro em que pudesse ser útil a miúdos como ele foi, em bairros como aquele onde cresceu. Esse futuro está em aberto, até porque ele pretende fazer mais um ciclo olímpico e estar em Los Angeles, daqui por quatro anos. Mas antes disso, há Paris. É esse o foco total nesta altura.

«Afinar a máquina» a apontar ao ouro e talvez a dançar um pimbazinho

Nos últimos dias antes de entrar no tatami de Paris, a 1 de agosto, ele tem-se focado em «afinar a máquina». «Estou a concentrar-me em ficar mesmo em forma, para estar um monstro», diz. «Ainda não estou como gostaria de estar. Também estou um bocado cansado, os treinos são muito duros. Mas quando chegar a Paris e começar a viver o ambiente, a conviver com outros atletas, eu acredito que ali o Jorge vai despertar e vai dizer ‘É isso que eu quero, é esse jogo que eu quero, então vamos a isso’.»

Desta vez, aponta ao lugar mais alto do pódio, mas está preparado para ir combate a combate. «Eu quero ir buscar ouro. Mas independentemente do resultado que tiver, vou aceitar, porque também trabalhei muito para isso. Eu sonho com o ouro, mas se não conseguir e chegar ao pódio seria uma grande satisfação para mim», garante. «Não tenho medo do resultado que pode acontecer, mas estou lá para dar o meu melhor. Isso é que é o meu objetivo. Então, estou a trabalhar esse Jorge psicologicamente e fisicamente para poder chegar a Paris e estar pronto para a guerra.»

No final, espera estar a festejar. Com uma dança, como sempre. Provavelmente a piscar o olho à comunidade portuguesa em França. «Agora só penso em afinar a máquima. Depois, em Paris, penso na dança final. Mas tenho alguns toques ali para poder dar no final se ganhar a medalha. Vai ser bacano, porque vão estar os portugueses todos e espero dançar uma pimbazinha para animar a malta.»

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