Nos municípios do interior a habitação é geralmente mais acessível e menos sobrelotada. Estas regiões oferecem condições de bem-estar acima da média nacional, com mais creches e melhor rede de apoio aos idosos. Mas não é suficiente. No final, o que conta é o trabalho e o pagamento desse trabalho. O valor máximo de densidade populacional regista-se na Amadora, com 7.492,4 habitantes por quilómetro quadrado. No conjunto do continente o valor médio é de 309,9 habitantes por quilómetro quadrado
(CNN Autárquicas 2025) - "As pessoas mudam-se à procura de trabalho e de mais oportunidades para a sua carreira. É o trabalho que as faz mudarem-se para outra cidade, para outra região, para outro país." O trabalho é a principal fonte de rendimento e, como tal, é o motor de muitas decisões, afirma a socióloga Rosário Mauritti, investigadora do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. E é sobretudo por causa do trabalho que os portugueses deixam o interior do país e se mudam para as grandes cidades, localizadas tendencialmente no litoral.
Depois, existem uma série de outros fatores que influenciam a decisão, mas esta é a principal. Se se tiver um bom trabalho e, além disso, se conseguir ter uma casa boa, uma escola perto de casa, dispensar o uso do automóvel diariamente, são fatores que podem contribuir para a mudança. Mas se tiverem a casa e a escola e não tiverem um bom trabalho dificilmente darão esse passo. "As pessoas progridem nos estudos e têm a expectativa de ter trabalhos qualificados, que não existem nas terras pequenas, ou de progredirem nas suas carreiras. Tem havido algum investimento disperso em áreas específicas no interior, mas são nichos. Na maioria das terras, o trabalho é escasso e ligado às autarquias", explica a socióloga à CNN Portugal.
O estudo "Territórios de bem-estar: assimetrias nos municípios portugueses” realizado em 2022 por uma equipa de investigadores, sob coordenação de Rosário Mauritti, para a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), encontrou “um país profundamente assimétrico nas condições de vida e de bem‑estar das populações nas diferentes configurações de territórios” e “uma competitividade territorial que tende a beneficiar, sobretudo, as dinâmicas económicas das áreas metropolitanas”.
Os municípios com baixa densidade populacional correspondem àquilo a que geralmente se designa como o Interior - seja no Norte, Centro ou Sul do país. Para que se perceba melhor do que estamos a falar: o valor máximo de densidade populacional ocorre no município da Amadora, com 7.492,4 habitantes/km2, enquanto no conjunto do continente o valor médio é de 309,9 habitantes/km2; já nos Territórios de Baixa Densidade populacional, temos 29 pessoas por quilómetro quadrado.
São, segundo os investigadores, "territórios que intensificam traços de empobrecimento, ligados a tendências intensas de despovoamento e envelhecimento da sua população (entre 2001 e 2011, a taxa de variação da população por quilómetro quadrado é de −18%) e ao estrangulamento das atividades económicas e sociais".
Nestas regiões, perto de 31% da população tem mais de 65 anos, enquanto o segmento até 25 anos, em decréscimo, representa pouco mais de um quinto da população (a taxa de variação de crianças até 14 anos é de −38%, entre 2001 e 2011). A população com idades entre 25 e os 64 anos corresponde a menos de 50% do total.
Os perfis de escolarização da população são muito incidentes no limiar básico (76%), registando‑se uma presença significativa de pessoas sem qualquer grau de escolaridade (7%), lê-se no documento. Os rendimentos brutos médios anuais rondam os 8.990 euros por ano - muito abaixo das outras regiões.
“A falta de oportunidades de trabalho dita a permanência de fluxos de saída dos territórios da população jovem e adulta em procura de outras oportunidades, enquanto esvazia a economia e a sociedade local de recursos humanos imprescindíveis para qualquer indústria que ali se pretenda instalar. Ficam no território os mais velhos (que representam mais de um terço da população) e os segmentos de adultos com qualificações baixas e muito baixas", concluem os investigadores.
História de um despovoamento: fugir da pobreza
Nada disto é novo, sublinha a geógrafa Fernanda Cravidão, professora catedrática jubilada da Universidade de Coimbra. "O interior do país desde há muito que perde população. Há concelhos no Alentejo que tiveram os máximos demográficos nos anos 20 do século XX, ou seja, há cem anos. A partir daí foi sempre a perder" - nos anos 40, a população das zonas mais pobres começou a sair para a cintura industrial de Lisboa, e depois disso, nos anos 60, para o estrangeiro. "Saíam sempre dos mesmos sítios, das regiões mais depauperadas, com elevados índices de analfabetismo, com uma economia frágil, uma agricultura de subsistência." E saíam - há 100 anos, como há 50 anos, como hoje - à procura de melhores condições de vida, sobretudo os jovens, a população em idade fértil, destaca Fernanda Cravidão. "Os territórios do interior vão ficando não só esvaziados como envelhecidos."
O 25 de Abril e depois a entrada na União Europeia vieram trazer desenvolvimento económico a todo o país, incluindo ao Interior, mas ao mesmo tempo abriram os horizontes. Com mais instrução, os jovens aproveitaram as novas vias de comunicação para se fazerem à estrada e procurarem mudar o seu destino: e quem os pode censurar?
"Portugal não teve uma verdadeira revolução industrial, mas onde isso aconteceu foi no litoral. É no litoral que estão os portos, que está o poder político, o poder administrativo, o poder económico. E esta é uma polarização que se vai acentuando progressivamente", afirma Fernanda Cravidão.
Nem tudo é mau no Interior, mas muitas vezes não é suficiente
Nos municípios do interior a habitação é geralmente mais acessível e menos sobrelotada, afirma-se no estudo da FFSM. Embora as oportunidades profissionais sejam mais escassas, a estabilidade laboral é maior. No equilíbrio trabalho‑família, os Territórios de Baixa Densidade oferecem condições de bem‑estar acima da média nacional - por exemplo, com mais creches e menor duração dos movimentos pendulares (viagens de e para o trabalho). A rede de apoio aos idosos funciona melhor. As autarquias esforçam-se por criar programas de apoio aos jovens e de acesso à cultura. E os índices de participação cívica são, de uma maneira geral, superiores aos dos municípios mais urbanos onde mais facilmente se cai na apatia social.
E já nem estamos a falar de outros fatores mais dificilmente mensuráveis, como o baixo nível de stress, a possibilidade de estar perto de familiares, a proximidade com a natureza, poder levar uma vida mais saudável.
Mas, aparentemente, estes fatores positivos não parecem ser suficientes para fixar a população.
"As preocupações com as oportunidades de trabalho e de emprego, associadas a expetativas de mobilidade social e ancoradas no investimento educativo de indivíduos, famílias e entidades que intervêm nos territórios, ditam sobremaneira a procura por melhores opções de vida noutras paragens, mais ou menos distantes, no território nacional ou até fora de Portugal", conclui o estudo. "São os mais escolarizados e mais ativos civicamente que partem dos seus municípios à procura de melhores oportunidades de vida e de trabalho."
"É uma pescadinha de rabo na boca", diz Rosário Mauritti. As pessoas saem porque sentem que não têm condições para melhorar a sua vida. No entanto, o facto de estes locais terem cada vez menos pessoas contribui ainda mais para a sua desqualificação - fecham escolas, postos de saúde, agências bancárias, lojas.
Este movimento migratório "intensifica a dualidade entre o litoral e o interior e a polarização das condições de vida", explica a socióloga. "Temos um interior muito empobrecido, envelhecido e sem recursos que salvaguardem a qualidade de vida, como o acesso à saúde, à educação, aos serviços. Por outro lado, nas cidades esses recursos existem, mas há um enorme desequilíbrio entre a oferta e a procura, há uma grande saturação. Todos perdemos", conclui.
Rosário Mauritti recorda que o estudo concluiu que "onde se vive melhor é nas cidades intermédias - têm dimensão, atividade cultural, uma oferta mais diversificada de trabalho, mas não têm aquela densidade populacional que retira a qualidade de vida".
Como travar este movimento?
Fernanda Cravidão não acredita que seja possível travar o despovoamento do interior, mas defende que é possível minorar os seus efeitos, dando mais qualidade de vida a quem fica. "Temos que arranjar formas de lidar com isto e para isso é preciso conhecer o território, que não é homogéneo, é muito diversificado", diz a geógrafa. E esse movimento devia começar pelo poder político, que só se lembra que o país existe quando há atos eleitorais. "Temos de ter uma estratégia geral para o país e depois vários olhares para as diferentes regiões. Não se pode olhar para o interior de uma forma global, é diferente estar em Trás-os-Montes, na Beira Baixa, no Alentejo ou no Algarve".
"Só há uma maneira de fazer com que as pessoas vão para um sítio: dar lhes trabalho qualificado e bem pago", repete Rosário Mauritti. O maior investimento tem de ser feito, portanto, na economia regional e na fixação de empresas. Depois é preciso o resto: assegurar que as maternidades estão abertas, que as urgências dos hospitais estão a funcionar, que há médicos especialistas, creches e escolas de qualidade.
As investigadoras concordam no papel determinante que a criação de vários estabelecimentos de ensino - universidades e politécnicos - tiveram ao fomentar o dinamismo das cidades mais periféricas. "Esses centros urbanos ganharam alguma vitalidade económica, cultural, social e passaram a ser olhados de outra forma, o que também é relevante", diz Fernanda Cravidão. "São um centro de inovação e captação de alguma mobilidade", corrobora Rosário Mauritti, que se mostra preocupada com o facto de neste ano letivo essas instituições terem perdido alunos: "Recebiam alunos com um perfil menos competitivo e que poderiam ficar ali. Se morrem as instituições de ensino superior no interior estamos a condenar essas cidades".
A socióloga refere a importância das vias de comunicação e dos transportes acessíveis, elogiando medidas como a eliminação das portagens. "E ter acesso à internet é essencial", defende Rosário Mauritti. "O que se viu durante a covid-19 é que parte do país ainda não tinha acesso de qualidade à internet, penso que desde então tem sido feito um investimento nessa implementação. Mas também é preciso que as empresas aceitem o teletrabalho, o que nem sempre acontece."
Claro que existem muitas histórias de famílias e de jovens que optam por ir para o interior à procura de um determinado estilo de vida, mas são ainda casos excecionais, alerta Fernanda Cravidão: "Ainda é uma utopia, não se trata de um movimento relevante".
"Depois de algum fascínio inicial as pessoas precisam de mais", confirma Rosário Mauritti. "Querem ter os seus pares para ter uma vida social. Querem ter acesso a atividades lúdicas e culturais. Para uma classe média que gosta de ir ao cinema, ao teatro, ao ginásio, isto também pode ser um fator de constrangimento. Todos precisamos de espaços de evasão. As pessoas que aceitam ir para o interior estão, muitas vezes, a desistir de um conjunto muito relevante de elementos que dão cor à nossa vida."