"A recuperação transformou-se numa disciplina científica por direito próprio". Há cada vez mais atletas no topo aos 40 anos

18 jul, 21:00
Mundial 2026: Portugal-Espanha (FOTO: Ashley Landis/AP)
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Cristiano Ronaldo não foi o único. Este Mundial teve um recorde de oito jogadores com 40 ou mais anos. Os atletas não deixaram de envelhecer, apenas aprenderam a envelhecer melhor

Dois dias depois de marcar um golo decisivo no jogo contra a Áustria, Lionel Messi celebrou o seu 39.º aniversário. O argentino está a jogar o seu sexto campeonato do mundo e prepara-se para jogar a sua terceira final - se vencer, será campeão pela segunda vez. E, pelo que se tem visto, não parece ter motivos para considerar arrumar as chuteiras.

Com 41 anos, Cristiano Ronaldo também já disputou seis campeonatos do mundo e foi o jogador mais velho a entrar em campo no Mundial. Craig Gordon, de 43 anos, era o mais velho entre todos os convocados, mas o guarda-redes escocês não chegou a sair do banco de suplentes. Aliás, na lista de jogadores mais velhos que pisaram o relvado numa fase final de um Mundial, os guarda-redes estão em maioria. Entre as honrosas exceções, além do português, destacam-se Roger Mila, antigo avançado dos Camarões, e Luka Modric, médio croata de 40 anos que este ano jogou o seu quinto Mundial.

São cada vez mais os atletas que chegam a esta idade a conseguir competir ao mais alto nível, e isso ficou claro neste Mundial, que fica para história como aquele que teve mais jogadores com 40 ou mais anos: oito.

Mas este "envelhecimento" dos atletas não acontece apenas no futebol. O basquetebolista LeBron James, de 41 anos, pretende jogar pelo menos mais uma época. Lewis Hamilton continua a competir na Fórmula 1 aos 41 anos. O torneio de ténis de Wimbledon concedeu um "wildcard" a Serena Williams para que regressasse aos courts aos 44 anos. E se Serena não conseguiu ir mais longe do que a primeira ronda de Wimbledon, o tenista Novak Djokovic, de 39 anos, só perdeu na meia-final contra o número 1.

De acordo com um relatório do Centro de Excelência em Investigação sobre o Envelhecimento da População, os atletas de elite estão, de facto, a envelhecer. Desde 1992, a idade média dos atletas olímpicos aumentou cerca de dois anos, passando de 25 para 27. No futebol, a idade média dos melhores jogadores masculinos aumentou de 26 em 1990 para 27 em 2018.

No entanto, isto não significa necessariamente que os atletas estejam a atingir o auge mais tarde. Pode simplesmente significar que se mantêm competitivos durante mais tempo. 

"Existem limites biológicos que, obviamente, condicionam a performance humana, e a longevidade das carreiras não significa que os atletas deixem de envelhecer", explica à CNN Portugal Daniel Moreira Gonçalves, professor auxiliar da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e coordenador do Laboratório de Fisiologia do Desporto. "A longevidade dos atletas modernos não resulta de terem vencido o envelhecimento, mas de terem aprendido a gerir melhor o desgaste físico ao longo da carreira." O que acontece, na realidade, é que estão a envelhecer "com muito menos desgaste acumulado do que os atletas de há duas ou três décadas. Parece uma distinção subtil, mas é provavelmente a ideia mais importante para compreender este fenómeno", diz o especialista. "A grande transformação não acontece hoje, aconteceu nos 15 ou 20 anos anteriores. A biologia não mudou. O que mudou foi a forma como gerimos o corpo do atleta ao longo de toda a carreira e é essa gestão, feita ano após ano, que acaba por se traduzir numa carreira mais longa no topo."

Com 44 anos, Serena Williams jogou em Wimbledon no mês passado (EPA)

"Atualmente, a idade cronológica não constitui o principal determinante do desempenho atlético", diz também à CNN Portugal a médica endocrinologista Adriana de Sousa Lages, que é também professora nas universidade do Minho e de Coimbra. "Hoje sabemos que o envelhecimento não é um processo uniforme nem inevitavelmente linear. Embora não consigamos impedir o envelhecimento fisiológico, conseguimos adaptar-nos a ele de forma muito mais eficaz do que no passado", explica. "Monitorizamos parâmetros que há duas ou três décadas raramente eram avaliados de forma sistemática, como a carga interna e externa de treino, a qualidade do sono, a composição corporal, a disponibilidade energética, os biomarcadores de recuperação e até alguns indicadores de saúde metabólica. Sabemos que o envelhecimento está associado a alterações progressivas da função neuromuscular, da recuperação, da capacidade aeróbia e da tolerância à carga de treino." Esta monitorização e gestão mais atenta permitem "individualizar as orientações e reduzir o desgaste acumulado ao longo da carreira". 

A genética como parte da explicação

A genética ajuda a explicar porque alguns atletas chegam mais longe, mas não explica tudo, diz a endocrinologista. "Se fosse apenas uma questão genética, veríamos todos os indivíduos geneticamente privilegiados a ter carreiras excecionais, e isso não acontece na prática. A longevidade da carreira resulta da interação entre predisposição genética, treino, nutrição, recuperação, prevenção de lesões, saúde mental e até gestão da carreira", assegura. O impacto de todos estes fatores, em conjunto, determina o resultado.

Ao longo dos anos, a investigação científica tentou caracterizar e compreender as manifestações do envelhecimento fisiológico. "Percebemos que a diminuição de performance era explicada por perda de massa e potência muscular, pela menor capacidade regenerativa, pelo declínio da aptidão cardiovascular e por uma recuperação mais lenta", aponta Daniel Gonçalves. "Também aprendemos que a velocidade a que isso acontece depende muito de fatores ambientais e comportamentais modificáveis, que a investigação científica no desporto revelou e ensinou a gerir."

Os atletas não deixaram de envelhecer, apenas aprenderam a envelhecer melhor. "O que mudou foi o entendimento sobre os fatores que permitem prolongar a carreira e devem ser otimizados neste contexto", explica Adriana Lages, referindo-se a fatores como a monitorização da carga de treino, a nutrição desportiva, uma recuperação mais eficiente.

Treinar mais vs. treinar melhor

"Provavelmente, uma das maiores mudanças das últimas décadas foi a revolução na monitorização da carga de treino dos atletas", afirma Daniel Gonçalves. "No passado, os treinadores trabalhavam sobretudo com observação empírica e os planos de treino assentavam em grandes volumes e em métodos de treino que resultavam, com frequência, em desgaste desnecessário. Hoje, monitoriza-se com grande rigor a relação dose-resposta, o que permite responder diariamente à pergunta 'quanta carga é que este atleta consegue absorver sem entrar em fadiga excessiva?' ou 'será que já recuperou da competição ou do treino anterior?'."

Tecnologias como GPS, cardiofrequencímetros, avaliação neuromuscular, avaliações bioquímicas e questionários de prontidão tornaram esta gestão muito mais fina do que era possível no passado, diz o especialista. 

Lionel Messi celebra a passagem da Argentina à final do Mundial (AP)

"Os atletas geram dados diariamente, que são analisados com o intuito de detetar precocemente qualquer sinal de fadiga ou de risco de lesão, de forma a alertar a equipa técnica, que é hoje mais multidisciplinar do que alguma vez foi, sobre a eventual necessidade de gerir a carga daquele atleta em particular. Tudo isto permite equilibrar estímulo e recuperação com uma precisão que simplesmente não existia antes. Na prática, este atleta chega aos 35 anos com muito menos 'quilómetros desnecessários' no corpo. Isto permite que hoje se treine sobretudo em qualidade, e não necessariamente em quantidade de estímulo", esclarece Daniel Gonçalves.

O segredo está na recuperação

"A recuperação transformou-se numa disciplina científica por direito próprio", naquela que é, na opinião de Daniel Gonçalves, "uma das maiores revoluções dos últimos anos". Uma boa recuperação permite um treino de alta intensidade mais sustentado, com menos lesões e com mais rendimento.

A recuperação inclui "monitorização e intervenção sobre o sono, estratégias nutricionais e de hidratação, controlo individualizado da carga de treino, crioterapia, fisioterapia preventiva", entre outras estratégias. "Em alguns contextos, nomeadamente quando é necessário competir com muita frequência, a recuperação chega a tornar-se o foco principal, para que o atleta chegue 'fresco' e disponível à competição seguinte", explica.

As lesões são a grande ameaça à longevidade das carreiras, mas o que aconteceu foi que "a medicina desportiva evoluiu de um modelo reativo para um modelo preventivo, com programas de avaliação e intervenção específicos para mitigar o risco de lesão", diz Daniel Gonçalves, que destaca, entre os muitos avanços, a importância que o treino de força foi conquistando. "Há alguns anos os atletas faziam relativamente pouco trabalho de força, mas hoje sabemos que a força é um dos principais determinantes da longevidade desportiva, por reduzir o risco de lesão, preservar massa muscular e proteger as articulações. Em muitos atletas veteranos, a força torna-se uma prioridade ainda maior do que era em idades jovens."

E já que falamos da prevenção de lesões, cabe aqui referir a importância da evolução dos equipamentos e campos de treino. Superfícies de melhor qualidade exigem menos esforço físico e podem reduzir o risco de lesões. O mesmo se aplica aos avanços no calçado, roupa, bolas e outros equipamentos usados pelos atletas nos mais variados desportos.

Se, ainda assim, os atletas se lesionarem, a medicina desportiva e a reabilitação avançaram de forma espetacular. "Lesões que antigamente podiam encurtar uma carreira são hoje detetadas e tratadas mais cedo, mais rapidamente e de forma mais eficaz", afirma Daniel Gonçalves.

"Hoje sabemos muito mais sobre os mecanismos que condicionam lesão e conseguimos identificar fatores de risco antes que surja um problema clínico", acrescenta Adriana Lages. "Em simultâneo, os avanços na oferta de soluções terapêuticas permitem um prognóstico bastante mais favorável especialmente em lesões diagnosticadas e tratadas precocemente."

O que comemos faz a diferença

A alimentação do atleta é outro fator que melhorou muito. "Hoje trabalha-se com periodização nutricional individualizada, ajustando a ingestão de energia, proteína, hidratos de carbono e micronutrientes ao treino, à competição e à fase da época", explica o especialista em fisiologia. "Isto ajuda a preservar massa muscular, a recuperar mais depressa, a controlar a inflamação e a reduzir o risco de lesão."

Daniel Gonçalves acrescenta que, recentemente, entrou em cena uma variável que, há uma década, praticamente não fazia parte deste raciocínio, que é o microbioma intestinal. "Sabemos hoje que a composição das bactérias que vivem no nosso intestino influencia diretamente a forma como absorvemos nutrientes, como respondemos à inflamação provocada pelo exercício intenso e até como o sistema imunitário se comporta em períodos de carga elevada", explica.

LeBron James num jogo dos Lakers este ano (AP)

Alguns centros de alto rendimento já fazem análises ao microbioma dos atletas e usam essa informação para “afinar” ainda mais o plano nutricional, por exemplo, ajustando o tipo de fibra, os probióticos ou os alimentos fermentados que fazem mais sentido. "Este nível de avaliação permite desenhar um plano à medida daquele atleta específico, que tem em conta as necessidades impostas pela carga de treino, mas também as suas características particulares e as necessidades que o envelhecimento do organismo vai impondo", esclarece.

Equipas multidisciplinares

As equipas que gerem atletas de topo integram hoje profissionais das diferentes áreas consideradas relevantes e os recursos financeiros permitem o acesso a equipas multidisciplinares compostas não só pelo treinador e preparador físico, mas também por fisiologista, nutricionista, fisioterapeuta, médico, analista de desempenho, especialista em sono, entre outros. "Há 30 anos, praticamente nenhum atleta tinha acesso a uma estrutura assim", sublinha Daniel Gonçalves.

"A formação dos treinadores e dos demais profissionais que acompanham os atletas também evoluiu muito, com muitos a acumularem experiência prática e formação académica, o que lhes permite compreender, selecionar e integrar os contributos positivos que a investigação vai trazendo, atualizando e modernizando as práticas de gestão e otimização dos atletas", descreve o especialista em fisiologia. "A gestão organizacional também mudou e hoje vemos nos desportos coletivos maior rotação de jogadores, gestão de minutos, controlo da densidade competitiva e descanso estratégico, algo particularmente importante para os jogadores mais velhos e alguns clubes já o fazem."

Estas diferenças nas organizações são visíveis mesmo nas camadas infantis e juvenis. "As academias e os centros de alto rendimento profissionalizaram-se de forma notável, o que faz com que os atletas cheguem ao topo já mais bem preparados. Um jogador de futebol ou um tenista de 20 anos, hoje, já traz consigo conhecimentos sobre recuperação, alimentação e preparação física que, há duas décadas, eram raros mesmo entre profissionais experientes. Isto vai alimentando uma reserva que só se torna evidente anos mais tarde", garante.

Ser atleta é um estilo de vida

"Um atleta jovem que queira prolongar a sua carreira deve começar por encarar o corpo como um ativo que exige consistência e investimento a longo prazo", aconselha a médica endocrinologista. Não basta treinar. É preciso viver de acordo com as exigências da profissão de atleta. "Priorizar o sono e a saúde mental, otimizar a nutrição e hidratação, monitorizar a disponibilidade energética e a carga de treino, evitar o consumo de álcool e tabaco e beneficiar de um acompanhamento integrado por equipas multidisciplinares são fatores fundamentais para preservar o rendimento e prevenir lesões", diz Adriana Lages.

Sabemos que os atletas de elite utilizam rotineiramente ferramentas como banhos de gelo, saunas, vestuário de compressão e monitorização sanguínea para tentar otimizar a recuperação, entre outras técnicas, mais ou menos experimentais, que não são acessíveis para outros atletas com menos recursos. No entanto, a médica considera que este tipo de ferramentas poderá trazer apenas ganhos marginais, sublinhando que a tecnologia mais sofisticada não substitui aquilo que é o essencial: "A ciência continua a mostrar que dormir bem, alimentar-se adequadamente e gerir a carga de treino têm um impacto maior do que qualquer gadget ou moda", garante.

O guarda-redes cabo-verdiano Vozinha participou pela primeira vez num Mundial e tornou-se famoso aos 40 anos (AP)

A crescente profissionalização do desporto também pode ter contribuído para prolongar as carreiras dos jogadores. Os atletas profissionais treinam, recuperam, alimentam-se e dormem com um nível de disciplina que teria sido invulgar há apenas algumas décadas, quando muitos tinham de conjugar os treinos com outros empregos e horários complicados. 

Hoje, a situação é bastante diferente. Com a diversidade de fontes de rendimento - com publicidades, presença em eventos, merchandising, redes sociais, etc. -  um atleta de alta competição tem mais incentivos para continuar. Manter-se competitivo por mais dois ou três anos pode valer milhões.

A sabedoria que vem com a idade

Uma das qualidades físicas que mais se deteriora é a nossa explosividade, ou seja, a capacidade de um músculo produzir força rapidamente. O consumo máximo de oxigénio, a frequência cardíaca e o débito cardíaco também diminuem gradualmente. À medida que os anos passam, os atletas também perdem flexibilidade, a recuperação torna-se mais lenta e as lesões demoram mais tempo a sarar. Claro que a idade influencia o seu desempenho, é inegável. Cristiano Ronaldo já não consegue acelerar o jogo como antes fazia e Messi já não corre com a mesma frescura durante os 90 minutos. 

Mas têm outras qualidades. Depois de tantos anos de treinos e competições, os atletas mais experientes "desenvolvem competências que compensam parcialmente algumas limitações fisiológicas associadas à idade, mantendo-se competitivos porque aprendem a utilizar melhor os recursos disponíveis", considera Adriana Lages.

E, cada vez mais, a experiência dos atletas é como um "ativo", diz Daniel Gonçalves. "A experiência tem um valor competitivo elevado em modalidades como o futebol e o ténis, onde a leitura de jogo, a tomada de decisão e a gestão emocional compensam, em parte, o declínio físico natural", explica. É também por isso que continuam a conseguir manter-se no topo. "Estes atletas passam a fazer a diferença de outra forma. Já não têm aquela explosão ou espetacularidade de outros tempos, mas continuam decisivos, porque estão no sítio certo, tomam a decisão correta no momento certo e antecipam o comportamento do adversário antes de este acontecer."

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