Os EUA são o quarto maior mercado para as exportações portuguesas e várias indústrias têm um elevado grau de exposição às tarifas impostas por Donald Trump
A União Europeia nem foi o maior alvo das tarifas anunciadas pelo presidente norte-americano, Donald Trump. O bloco europeu foi alvo de uma taxa alfandegária de 20% por parte dos Estados Unidos da América, que arrisca sérias consequências para as empresas e negócios um pouco por todo o continente. E Portugal não está imune. Vários setores exportadores da economia portuguesa têm nos EUA o seu principal parceiro comercial e os economistas alertam que, ou estas empresas encontram novos mercados rapidamente, ou vão ter de começar a fazer despedimentos.
"É muito provável que haja quebras e as empresas que exportam vendam menos. Nesse cenário vão ser obrigadas a procurar mercados alternativos. E em última instância, se não conseguirem, poderão ter de despedir pessoas", alerta Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade.
E é difícil desvalorizar o impacto do mercado norte-americano para a economia portuguesa. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), os EUA tornaram-se o quarto maior mercado para as exportações nacionais. Em 2024, esta relação comercial representou 8% de todos os bens e serviços portugueses exportados, no valor de 9,9 mil milhões de euros.
De acordo com o Banco de Portugal, cerca de 12% das empresas exportadoras de "fabricação de têxteis e de fabricação de produtos minerais não metálicos (que inclui vidro, produtos cerâmicos e cimento)” estão fortemente expostas ao mercado norte-americano, vendendo mais de 10% da sua produção para este país. As indústrias das bebidas, equipamentos informáticos, comunicações, eletrónicos e ótica, também apresentam "uma relevante percentagem de empresas" com elevada exposição ao mercado americano.
"Há setores como os medicamentos, cortiça, mobiliário, pneus, vinho, têxteis, calçado e papel, que estão particularmente expostos às vendas para os EUA. E as quebras que vierem a ocorrer nestes setores vão significar que as pessoas têm menos poder de compra e, depois, todas as outras empresas em geral vendem menos porque os consumidores vão ter menos rendimentos", insiste Pedro Braz Teixeira.
Ainda antes de Donald Trump anunciar esta nova vaga de tarifas, o Banco de Portugal publicou um estudo onde estimava o impacto que a guerra de tarifas poderia provocar na economia portuguesa. No cenário previsto pela instituição liderada por Mário Centeno, em que os EUA aplicavam taxas alfandegárias de 25%, Portugal poderia ver uma redução cumulativa do sei Produto Interno Bruto (PIB) de 1,1% ao fim de três anos.
"Trump está a cumprir aquilo que prometeu e, nesse sentido, está a ser coerente. O primeiro impacto para a economia norte-americana será obter uma maior receita para pagar as suas promessas. Mas esta decisão pode ser uma bomba-relógio que vai afundar a economia mundial", defende Ricardo Ferraz, professor de Economia.
E perante um cenário de forte impacto na União Europeia, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já prometeu responder. Num discurso em resposta ao anúncio de Donald Trump, a líder europeia critica a "espiral de incerteza" lançada pela Casa Branca que vai levar a "mais protecionismo". Von der Leyen revelou que o bloco europeu está a finalizar um pacote de contramedidas para proteger os interesses europeus caso "as negociações falhem".
Neste cenário o impacto em países como Portugal pode ser ainda maior, uma vez que o presidente Donald Trump poderá retaliar com ainda mais medidas, o que poderá levar a um forte impacto para os consumidores portugueses, que poderão ver o seu custo de vida disparar.
"O problema é se há retaliação. Se houver retaliação e se lançarmos impostos sobre as importações dos EUA aí sim poderá haver uma série de serviços em que os preços possam subir. Tudo o que tem a ver com serviços de tecnologia, como os streamings, e depois a cloud e a inteligência artificial, isto significa que os custos das empresas vão ser mais caros", garante Pedro Braz Teixeira.