É possível que tenha muito mais a perder por não desistir do que imagina, dizem os especialistas

CNN , Megan Marples
25 set, 19:00
Sair porta fora (Seventyfour/Adobe Stock)

Desde o momento em que nascemos, é-nos dito para nunca desistirmos e para tentarmos vezes e vezes sem conta sempre que falhamos

Quando Rajagopal Raghunathan disse à família e amigos que iria correr a sua primeira maratona, não antecipou a dor que sentiu no pé quando estava a treinar alguns meses mais tarde. Raghunathan aguentou e superou a dor, continuando a correr para provar que era física e mentalmente forte. Mais tarde, soube que tinha fraturado o pé direito, o que o forçou a desistir da maratona.

Se esta história lhe soa familiar, isso deve-se ao facto desta ser uma situação recorrente para muitas pessoas.

Desde o momento em que nascemos, é-nos dito para nunca desistirmos e para tentarmos vezes e vezes sem conta sempre que falhamos.

Esta retórica está profundamente enraizada, portanto não é surpresa nenhuma que desistir seja visto como algo negativo, disse Raghunathan, professor de marketing da Universidade do Texas na Austin McCombs School of Business. Valorizamos muito o sucesso e a concretização de metas, e desistir tornou-se sinónimo de fracasso, disse ele.

Além disso, a sociedade coloca celebridades, atletas e líderes empresariais de sucesso num pedestal. Estes indivíduos contam os seus fracassos inúmeras vezes e que nunca desistiram até conseguirem o que tanto queriam. Consequentemente, os seus admiradores concluem então que, para serem bem-sucedidos, nunca devem desistir, afirmou. Mas esta é uma perceção errada, acrescentou Raghunathan.

“Se olharmos para todas as pessoas que falharam, também podemos concluir que elas nunca desistiram”, disse. Por conseguinte, ele não vê a recusa em desistir como a única chave para o sucesso.

As grandes consequências de não desistir

As pessoas que se recusam a desistir de um objetivo podem não se aperceber de que a sua decisão pode implicar prejuízos para a sua saúde e bem-estar, disse Raghunathan, e potencialmente a um custo superior ao de desistir.

As consequências foram físicas para Raghunathan. Mas quando o fracasso é consistente, as pessoas podem também ser confrontadas com tristeza crónica, impotência e depressão, disse Theo Tsaousides, um neuropsicólogo em Fort Lauderdale, Florida.

Por exemplo, um casal com problemas de infertilidade pode passar anos a fazer tratamentos médicos para engravidar, afirmou. No processo, a sua saúde mental pode deteriorar-se cada vez que não conseguem engravidar, e estas tentativas podem também comprometer as suas poupanças. Se o casal continuar a investir em tratamentos de fertilidade até à falência, ou em detrimento do seu bem-estar, estão a prejudicar-se a si próprios, disse Tsaousides.

É corajoso dizer: “estou disposto a desistir do meu objetivo para conseguir criar espaço no meu coração e na minha mente para algo mais significativo”, afirmou.

A recusa de desistir pode também levar à obsessão sobre o que se quer alcançar sem considerar a viabilidade, o que pode mantê-lo refém de sonhos ou objetivos que já não se alinham consigo, disse ele.

A sua motivação deve ter origem em fatores internos, tais como a vontade em se tornar numa pessoa melhor, em vez de fatores externos, tais como a necessidade de impressionar os outros, disse Tsaousides.

Ao longo do tempo, as circunstâncias e as prioridades inevitavelmente alteram-se, pelo que um objetivo que estabeleceu há anos pode já não corresponder ao que deseja da vida nos dias de hoje. Em vez de continuar a persegui-lo, mantenha-se recetivo a ir atrás de novos objetivos que se alinhem com o que quer agora, disse ele.

Como saber quando desistir?

“Não acho justo que alguém diga a outra pessoa que está na hora de parar”, disse Tsaousides.

Mas há algumas perguntas que pode fazer a si próprio para decidir quando é que é altura de seguir em frente.

Pergunte-se o que está a sacrificar ao não desistir de um objetivo de vida, disse Tsaousides. Se está a comprometer a sua saúde física e mental, pode estar na altura de abandonar este sonho.

Alguns exemplos podem incluir problemas de sono ou discussões com entes queridos, pois perseguir o seu objetivo está a torná-lo irritável com o passar do tempo, disse Raghunathan.

Também pode querer perguntar se o seu objetivo compensa o tempo, o dinheiro e o esforço que nele investe, e se esses recursos poderiam ser mais bem aproveitados em qualquer outra situação.

Mas não se tem de desistir dos seus sonhos e objetivos definitivamente, disse. Se Raghunathan tivesse abandonado os treinos quando sentiu a dor no pé pela primeira vez, poderia ter feito uma pausa e ter recuperado para estar suficientemente saudável para correr a maratona, reconheceu.

E se estiver preocupado com a forma como os outros o vão encarar se você desistir, não esteja, disse Raghunathan.

“Cada um tem os próprios problemas”, afirmou, “e a maioria das pessoas não está a prestar tanta atenção a si e à sua vida como pensa que estão”.

Quando partilhou com amigos corredores que tinha desistido da maratona por causa da sua lesão, Raghunathan lembra-se de se sentir envergonhado e de pensar que o veriam como um fracasso, mas aconteceu o contrário. Os seus amigos partilharam histórias dos seus próprios ferimentos e disseram-lhe que nunca teriam continuado a correr como ele o fez se estivessem feridos.

“E, ao que parece, nunca corri uma maratona”, disse Raghunathan. E ele não se importa com isso.

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