"PortuBots". Rede de milhares de perfis falsos em português estão a espalhar desinformação russa e chinesa

3 fev 2025, 07:00
Redes Sociais
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Campanha de desinformação foi detetada por investigadores israelitas que, à CNN Portugal, dizem que está a atingir em larga escala o Bluesky, concorrente do X. A rede já conta com 2.158 contas falsas e promove conteúdos contra o apoio dos EUA à Ucrânia e narrativas a favor de Xi Jinping

Os perfis têm nomes portugueses como “António”, “Carla” ou “Bruna”, apresentam-se tendo idades entre os 20 e os 60 anos e dizem morar em locais que são “claramente uma alucinação de Inteligência Artificial (IA)”, como “Guilherme do Sul”. Foram quase todos criados no espaço de quatro dias e apenas servem para publicar mensagens contra o apoio à Ucrânia e a favor do regime chinês. Esta é a rede “Portubots” descoberta por uma equipa de cibersegurança israelita e que à CNN Portugal sugere que o objetivo é lançar uma “campanha de larga escala de desinformação” para poder “criar divisões na sociedade”. 

Ao todo, a rede já conta com 2.158 perfis falsos que atuam numa lógica de “criação e partilha de conteúdos coordenados” de forma estratégica para beneficiar a Rússia e a China. “A ideia é tentar convencer que a invasão ilegal da Rússia à Ucrânia não existiu ou promover narrativas de apoio ao Partido Comunista da China”, refere Tuvia Gering, analista da empresa Planet Nine e co-autor, juntamente com Noa Rozman, desta investigação, acrescentando que estes robôs das redes sociais estão a começar a propagar-se em massa no Bluesky, o concorrente do X de Elon Musk

O investigador afirma que os padrões de publicação por estes perfis falsos indicam que possam ter atores ligados ao estado russo ou chinês. “Há indicadores de que são atores estatais na origem destas contas com base nas narrativas que promovem e com os termos utilizados nas mensagens que propagam”. Um dos exemplos dados para justificar isso diz respeito a uma grande troca de prisioneiros efetuada em dezembro de 2024 entre a Rússia e a Ucrânia. 

Rede de desinformação partilhou uma notícia falsa sobre apoio de Washington a Kiev/ Planet Nine

Nesse caso, pelo menos “52 perfis pertencentes à rede em português” partilharam uma notícia falsa atribuída à Al Jazeera que alegava que o Pentágono tinha criticado Kiev por ter levado a cabo aquela troca. Mas estas contas não se ficam por aqui. “O foco da campanha não está apenas nos EUA, mas também na Europa, com mensagens sobre temas políticos específicos, como o direito ao aborto na Noruega e a crise política na França”, explica Tuvia Gering.

Segundo a equipa de cibersegurança israelita, as “citações falsas de agências noticiosas credíveis são uma tática consistente” em operações de influência russa descobertas no passado. Um exemplo disso foi a operação “Doppelganger”, que foi desmascarada em 2022 pela equipa anti desinformação da União Europeia. Nessa operação, o Kremlin utilizou uma vasta rede de falsos sites oficiais para promover narrativas para minar o apoio à Ucrânia no ocidente. 

A rede “Portubots” utiliza também algumas expressões comuns da linguagem e da cultura russa, mas em português. Particularmente, a rede de perfis falsos utilizou o termo ‘batalhões nacionalistas’, “uma expressão frequentemente empregue pelos meios de comunicação social estatais russos e por funcionários para retratar certas unidades militares ucranianas como extremistas ou neonazis, a fim de justificar a invasão ilegal da Rússia”.  

Contas falsas criam alicerces para futuras operações de influência

Em vários destes perfis, a idade com que se apresentam entra em conflito com a imagem de perfil/ Planet Nine

Embora parte da rede esteja ativamente a propagar conteúdos ligas à Rússia e à China, outra parte destas contas aparenta estar a criar “os alicerces para futuras operações de influência”. Os atores por detrás da “PortuBots” têm tido a preocupação de partilhar conteúdos que atraem visualizações, geram reações e seguidores. Em dezembro de 2024, 57 contas identificadas da rede começaram a partilhar conteúdos ligados a criptomoedas.

Uma investigação recente revelou uma “operação de informação com vários anos” que difundia propaganda da China no X, através de contas relacionadas com o mundo das criptomoedas. “Ao criarem esta rede que parece benigna ou não relacionada, estão a tentar aumentar a sua visibilidade e capacidade de influência, para que, quando precisarem de entrar em ação, o possam fazer de forma mais eficaz”, explica Tuvia Gering.

Outro exemplo desta tática aconteceu a 3 de dezembro de 2024, quando 52 contas desta rede começaram a partilhar publicações de um utilizador que escrevia acerca da lei aprovada pelo parlamento norueguês de aumentar o período em que é possível abortar das 12 para as 18 semanas. A publicação referia que a medida iria “permitir a 98-99% das mulheres norueguesas” abortar.  

A informação partilhada é factualmente correta, mas os investigadores acreditam que esta amplificação “pode ser parte de uma campanha de desinformação” com o objetivo de “suscitar reações fortes e exacerbar divisões sociais”.

A IA permitiu aumentar a dimensão destes fenómenos, no entanto, o sistema está longe de estar perfeito. Muitas das contas da rede “PortuBots” mostram sinais claros de que o sistema de IA utilizado “alucinou” e inventou locais que não existem. Mas este não é o único “ponto fraco” demonstrado por esta rede. Os investigadores observaram que uma grande parte destas contas se registaram no Bluesky num curto espaço de tempo, no mês de setembro de 2024. A atividade é de tal forma anómala que o próprio relatório do Bluesky destacou um aumento “anómalo” de registo no Brasil, com mais de 15 mil casos denunciados. Tudo isto indica de que se trata de uma rede coordenada e inorgânica. 

"Olhando para o futuro, a situação pode piorar significativamente"

Além disso, várias das publicações feitas por estas contas são diretamente em inglês e chinês, apesar de existir um esforço para criar a aparência de que estas contas pertencem a utilizadores de países lusófonos. Segundo a investigação, isto pode significar que parte da rede se destina a tentar esconder a origem da fonte de propaganda. “É mais uma indicação de que os atores podem estar ligados ao Kremlin ou a Pequim, porque uma das razões pelas quais um Estado utilizaria a língua portuguesa seria para ofuscar a origem e as intenções daquela publicação”, argumenta o investigador.

Ao longo dos últimos anos, várias redes de desinformação digital ligadas a Moscovo e a Pequim têm vindo a ser descobertas. O caso mais recente foi o da “Operação Matrioska”, revelado pelo grupo de jornalismo investigação Bellingcat. Nessa operação, um pouco mais sofisticada, uma rede de contas falsas partilhava vídeos adulterados por IA para passar mensagens favoráveis ao Kremlin. 

Os vídeos começam sempre com um vídeo real, de uma pessoa com credibilidade, muitas vezes académicos ou especialistas conhecidos, que começam por falar de um tópico não relacionado com a guerra na Ucrânia. De seguida, o vídeo começa a mostrar imagens ligadas à guerra na Ucrânia e a voz passada a ser gerada por IA para criticar Kiev e os seus parceiros.

Os investigadores apontam ainda que a utilização de IA tem a capacidade de segmentar a desinformação para públicos específicos e de aumentar a dimensão das operações de influência de forma exponencial. O Ocidente, dizem, está cada vez mais em risco de ver as suas eleições e políticas públicas vulneráveis a interferências externas.

“Olhando para o futuro, a situação pode piorar significativamente. O conteúdo gerado por IA, amplificado por redes sociais, já é considerado um dos dez maiores riscos globais. Hoje, a evolução da IA coloca a desinformação em uma escala completamente diferente, crescendo exponencialmente diante dos nossos olhos. Se não houver uma resposta coordenada, todos os processos democráticos – desde eleições até políticas públicas – estarão vulneráveis a interferências externas”, alerta Rami Ben Efraim CEO, da Planet Nine, à CNN Portugal.

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