Durante mais de 60 anos, a identidade desta rapariga permaneceu um mistério. Agora, a "Pequena Desconhecida" tem um nome

CNN , Alisha Ebrahimji
27 mar, 22:00
A 31 de julho de 1960, o cadáver decomposto de uma criança pequena foi encontrado nos arredores de Congress, Arizona, no condado de Yavapai. Denominada "Pequena Desconhecida", nunca foi formalmente identificada. Esta reconstrução facial é a interpretação de um artista de como poderia ter sido o seu rosto.

Há 62 anos, uma professora à procura de pedras no deserto do Arizona fez uma terrível descoberta: os restos mortais carbonizados de uma menina. A sua identidade era um mistério e os investigadores chamaram-lhe "Pequena Desconhecida".

Durante décadas, o Gabinete do Xerife do condado de Yavapai, em Prescott, no Arizona, juntamente com o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, o Sistema Nacional de Pessoas Por Identificar e uma longa lista de outros parceiros, têm trabalhado para identificar a menina. Mas apesar de inúmeras pistas na altura, o caso continuava por resolver.

Essa menina tem agora um nome, graças à tecnologia avançada de ADN.

As autoridades identificaram-na como Sharon Lee Gallegos, durante uma conferência de imprensa na semana passada. É o caso em aberto mais antigo que o Gabinete do Xerife do condado de Yavapai já resolveu.

Gallegos, de quatro anos, foi raptada enquanto brincava no quintal da avó, em Alamagordo, no Novo México, a 21 de julho de 1960, segundo as autoridades. Foi levada por um "casal que andava a persegui-la", segundo o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas.

Apesar de a "Pequena Desconhecida" ter sido identificada, ainda há mais trabalho a fazer no processo, enquanto as autoridades trabalham para saber quem a raptou, o que aconteceu nos dias a seguir ao rapto e o que provocou a morte da menina. Os investigadores têm algumas pistas dos primos de Gallegos, que estavam com ela na altura do rapto, afirmou o Xerife David Rhodes, na terça-feira.

"Queremos agradecer-vos, enquanto família," afirmou Rey Chavez, sobrinho de Gallegos, durante a conferência de imprensa. "Obrigado pelo que fizeram por nós, obrigado por nunca se terem esquecido dela. Ainda estamos a absorver tudo."

Chavez disse que a família descrevia Gallegos como uma menina muito aguerrida, feliz e despreocupada que adorava brincar com os primos. A sua morte e desaparecimento causaram um impacto duradouro nos membros da família e, como consequência, consideram-se excessivamente protetores em relação às crianças da família.

Os restos mortais de Gallegos foram descobertos a 31 de julho de 1960, em Sand Creek Wash perto de Congress, no Arizona, disse a Polícia numa publicação do Instagram, em janeiro. O local fica a 800 quilómetros de onde Gallegos tinha sido raptada.

Na altura, os investigadores determinaram que os restos mortais de Gallegos tinham sido queimados entre uma a duas semanas antes. Como não havia vestígios de mais danos, era difícil determinar a causa da morte e, devido à natureza suspeita do caso, a morte de Gallegos foi considerada homicídio, segundo a Polícia.

Quando foi encontrada, Gallegos tinha aproximadamente um metro de altura e o peso estimado era de 25 quilos, segundo o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas. Tinha cabelo castanho e foi encontrada com uma blusa de xadrez, calções brancos e sandálias de tamanho adulto, que tinham sido cortadas para que lhe servissem. As unhas das mãos e dos pés estavam pintadas, segundo o Centro.

No seguimento da descoberta do corpo, a comunidade local angariou dinheiro para comprar um caixão e fazer um funeral adequado para a menina, disse o Centro. Na lápide, lia-se "Pequena Desconhecida" juntamente com as palavras "Abençoados os puros de coração."

A testagem avançada de ADN faz surgir as respostas

Em 2021, o Gabinete do Xerife do condado de Yavapai juntou-se ao Othram, um laboratório sediado no Texas que trabalha exclusivamente com as forças da lei, para ver se a testagem avançada de ADN poderia ajudar a resolver o mistério da "Pequena Desconhecida".

O Othram recebeu o caso a 21 de dezembro e divulgou a identidade às autoridades em fevereiro de 2022, disse à CNN Kristen Mittelman, diretora de Desenvolvimento de Negócios do Othram.

Os vestígios não são sempre suficientemente sólidos para reconstrução e criação de um perfil de ADN, afirmou Mittelman. Mas a tecnologia melhorada significa que o laboratório pode criar perfis de ADN que poderiam não ser possíveis no passado.

O Sistema de Indexação de ADN Combinado do FBI, também conhecido como CODIS, é a tecnologia padrão utilizada na testagem forense, neste momento, afirmou Mittelman. O CODIS analisa 20 marcadores de ADN e compara uma pessoa com uma base de dados com milhares de perfis de ADN de cadastrados.

Mas essa tecnologia, que só foi introduzida nos anos 90, é limitada porque uma criança como a "Pequena Desconhecida" não constaria na base de dados, visto que não é uma criminosa, afirmou Mittelman.

"O que a nossa tecnologia faz é olhar para centenas de milhares de marcadores e conseguir determinar a identidade sem que a pessoa esteja presente em alguma base de dados," afirmou.

Os peritos podem resolver muitos casos em poucas semanas por 5 mil dólares, ou menos, afirmou Mittelman. Para ajudar a cobrir os custos, o Othram criou uma rede de pessoas que se interessam por crimes por resolver e fazem um crowdfunding para cada caso quando não há outro financiamento disponível.

O caso da "Pequena Desconhecida" angariou os fundos necessários num dia, afirmou.

"Mostra o interesse que as pessoas têm em descobrir as respostas para isto, e em descobrir quem era aquela menina," disse Mittelman.

Claudia Dominguez e Amanda Musa, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

E.U.A.

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