Perito apela a quem faz obras de remodelação para consultar um engenheiro especializado, em particular se for deitar paredes abaixo
A demolição de paredes mestras e escavações mal planeadas estão entre as principais causas de derrocadas acidentais de prédios, fenómeno frequente em Lisboa. O alerta é de João Appleton, engenheiro civil e antigo investigador-coordenador do LNEC, que já reabilitou muitas centenas de edifícios na capital.
O problema não se limita aos prédios mais antigos. O engenheiro recorda que até meados dos anos 80 o conhecimento técnico e os materiais utilizados no betão não garantiam a fiabilidade atual. No reforço estrutural do edifício onde hoje funciona o Museu do Oriente — antigo edifício da Comissão Reguladora do Comércio de Bacalhau — foi necessário intervir em pilares de grandes dimensões que “praticamente não tinham armadura”.
Há uma exceção legal que permite evitar a burocracia e os atrasos camarários em obras de reabilitação: se forem apenas de interiores, não é necessário submeter o projeto a aprovação municipal. O problema é que isso está a ser aproveitado por muitas famílias para avançarem para renovações sem qualquer projeto, muitas vezes executadas por “mestres de obras” sem qualificações.
Risco aumentado em caso de sismo
“Muitos projetistas, construtores e empreiteiros, muitas vezes oriundos do Porto, de Braga e outros sítios com características do edificado muito diferentes, não têm ideia do que encontram em Lisboa”, alerta João Appleton. E andam por aí, a deitar paredes abaixo, a torto e a direito, “umas sem importância, outras paredes estruturais”.
Muitos edifícios erguidos entre as décadas de 30 e 50 — os chamados “edifícios de placa” — têm paredes interiores resistentes em alvenaria, funcionando como apoio das lajes de betão. A retirada de uma dessas paredes pode provocar vibrações excessivas e, no limite, o colapso parcial de uma laje sobre o piso inferior. Acidentes desses ocorrem regularmente em Lisboa, vários deles com mortos a lamentar.
No entanto, as obras de remodelação sem cálculo da segurança estrutural criam uma exposição ao risco de vidas humanas ainda maior. Isto porque degradam a capacidade de resposta dos edifícios a um futuro grande terramoto, muitas vezes de forma irremediável. João Appleton, perito em reabilitação antissísmica — responsável pela conceção e execução de um projeto dessa natureza aplicado no Palácio de São Bento, onde está instalada a Assembleia da República — faz por isso um apelo à sociedade: “Antes de reabilitarem edifícios antigos, consultem sempre um engenheiro especializado”.