«Darwin ao nível de Suárez e Cavani», num «mundo que precisa de mais Ugartes»

16 abr, 12:01

Darwin e Ugarte cresceram em mundos muito diferentes no Uruguai e encontraram-se em Portugal na busca pelo mesmo sonho. De lados opostos da Segunda Circular, um no Benfica outro no Sporting, crescem ombro a ombro e são vistos no Uruguai como parte do futuro da seleção

Há muito mais a separar Darwin e Ugarte do que apenas a Segunda Circular e os clubes rivais que representam.

Os dois jovens uruguaios, em quem o país sul-americano deposita muitas esperanças, vêm de mundos completamente opostos.

Ainda que tenham na paixão ao futebol um ponto de contacto. Tal como a improbabilidade com que lidaram para chegar ao mais alto nível. Por razões distintas.

O avançado do Benfica cresceu num meio pobre e teve de deixar a família na adolescência para lhes tentar garantir um futuro melhor. Está a conseguir.

Já o médio do Sporting é oriundo de um meio mais abastado e com uma formação que tende a... afastar-se do mundo do futebol. Mas ele prova cada vez mais pertencer-lhe.

E essas diferenças que separam os jogadores de águias e leões é outra forma de olhar para um dérbi que é eterno, mas cujas histórias estão sempre em mutação.

Desportivamente, Fabián Coito não conseguiu tirar o rendimento que todos reconheciam em Darwin Nuñez, que desde cedo se destacou na formação do Peñarol.

Mas o papel do antigo selecionador de sub-20 do Uruguai foi muito importante no trajeto do avançado do Benfica.

A prova disso surgiu sob a forma de um abraço apertado que Darwin fez questão de ir dar ao seu antigo treinador quando se encontraram em Lima, já Coito era selecionador das Honduras.

«Ele sempre foi muito tímido e aí eu percebi que o tinha marcado um pouco. Tanto pelo abraço que me deu como pelo que conversámos. Ele fez questão de ir ao balneário das Honduras procurar-me para falar. E esse vinculo para mim é o mais importante. Vai além do lado desportivo», relata o treinador de 55 anos, em conversa com o Maisfutebol.

O simples facto de esse encontro ter acontecido, com Darwin ao serviço da seleção principal do Uruguai, era a prova de que tudo tinha valido a pena.

Para trás ficava aquele Sul-americano de 2019 em que o avançado do Benfica não marcara qualquer golo, numa fase em que tentava ultrapassar os traumas de uma lesão no joelho que quase lhe roubava o sonho do futebol.

«Dois anos antes, ele estava para ser convocado para o torneio Sul-americano que vencemos, apesar de ser dois anos mais novo do que aquela geração. Só que foi quando surgiu a lesão», recorda o treinador.

«Isso fez com que eu convivesse com ele na fase da recuperação. Foi uma etapa muito dura em que ele ainda estava inseguro e a procurar a confiança. Por isso, não posso dizer que partilhei com ele um grande momento desportivo, mas acho que o ajudei numa fase muito importante do regresso à competição», orgulha-se.

Diferente foi a experiência de Fabián Coito viveu com Manuel Ugarte, que também treinou nos sub-20 do Uruguai. Um rapaz que o marcou logo no primeiro momento.

«O Manuel é um apaixonado pelo futebol. Ele nem era para ser convocado porque era mais novo, mas um impedimento de outro jogador fez com que o chamássemos. E na primeira viagem que fez connosco, foi o primeiro a chegar para a viagem. Chegou até antes até de mim. Quando eu cheguei, ele já estava com toda a felicidade dele. E esse gesto já me deixou logo uma ótima impressão que fui confirmando com o tempo», assegura.

«É um rapaz que saiu de um clube pequeno do Uruguai [Fénix] e que provém de uma origem pouco normal no futebol sul-americano: é um rapaz com estudos, de uma família bem sustentada. Normalmente, o futebol não entra muito nesses setores da sociedade do Uruguai, mas a paixão dele pelo futebol superou tudo», elogia.

É à boleia da experiência de Fabián Coito que iniciamos a viagem por um dérbi de Lisboa que terá bastantes olhos atentos em Montevideo e em todo o Uruguai.

Afinal, no relvado do estádio de Alvalade vão estar três jogadores que estão em boa posição de marcar presença no Mundial do Qatar no final do ano, e no qual o Uruguai vai ser adversário de Portugal.

«Nas notícias do Uruguai, Darwin já está ao nível de Suárez e Cavani»

Longe vão os tempos em que Darwin fazia a primeira competição internacional e que, apesar de muito ter tentado não conseguiu marcar qualquer golo sob o comando de Fabián Coito.

Hoje, o atual jogador do Benfica é o melhor marcador destacado do campeonato português e brilhou na Liga dos Campeões tornando-se o melhor marcador do Benfica numa só edição da prova, com seis golos.

Aos 22 anos, o avançado pode orgulhar-se de ter marcado na mesma época a quatro antigos campeões europeus: Barcelona, Bayern Munique, Ajax e Liverpool.

«Não ter conseguido marcar na prova baixou-lhe um pouco o ânimo. Mas ele era muito jovem e eu lembro-me de lhe ter dito: calma, nada dura para sempre. E agora ele é um jogador em destaque em todo o mundo pelos golos que marca», enaltece o técnico.

O sucesso que Darwin tem alcançado no Benfica não surpreende Coito. Mas o treinador que trabalhou mais de 20 anos nas seleções jovens do Uruguai sabe bem que a receita para brilhar no futebol europeu não é linear.

«O Darwin é um jogador que sempre teve estas qualidades. Mas o que determina o futuro dos jovens jogadores é a capacidade de adaptar-se a uma realidade maior, depois de sair de um país pequeno como Uruguai. Não é nada fácil, muitos com muita qualidade voltaram depois ao Uruguai porque não se adaptaram», defende.

«A partir do momento que se adaptou tão depressa, primeiro na segunda divisão espanhola e depois num clube tão grande como o Benfica, eu deixei de ter dúvidas. Ele tem um físico extraordinário, agora encontrou o golo e teve uma ascensão enorme», aponta.

Para uma adaptação tão rápida a um contexto muito diferente do que tinha no Uruguai, Fabián Coito acredita que a experiência pela qual passou Darwin ainda adolescente o preparou.

O jogador das águias cresceu numa favela em Artigas, uma pequena cidade do norte do Uruguai que faz fronteira com o Brasil.

A infância moldou-lhe o perfil tímido e humilde e deu-lhe a força maior que o guia no futebol: a vontade de ajudar a família a ter uma vida melhor.

E foi em busca disso que, aos 14 anos, Darwin se mudou sozinho para Montevidéu, a capital uruguaia, para representar o gigante Peñarol. Depois de uma primeira tentatva em que não se conseguiu adaptar-se, regressou um ano depois para se assumir no Peñarol.

«Ele viveu experiências muito importantes muito novo. E uma delas foi deixar a família muito cedo para mudar-se para um clube grande, onde a exigência é muito maior. Acredito que isso ajudou a prepará-lo para situações que veio a viver depois já adulto», defende Fabián Coito.

E a realidade atual mostra que além de ser destaque no Benfica, o camisola 9 das águias começa também a ganhar o seu espaço na seleção, onde tem sido opção para Diego Alonso, o novo selecionador, levando dois golos em nove internacionalizações.

Apenas o início de uma história que tem tudo para ser de sucesso, acredita Coito.

«Acredito que o Darwin é um dos avançados que vai ocupar os lugares de Cavani e Suárez, quando eles decidirem deixar a seleção. Ele tem muita qualidade para afirmar-se na seleção e, da nova geração, é o avançado que está em melhor momento», analisa, deixando um exemplo do quão elevadas estão as expectativas dos adeptos uruguaios em relação ao jogador do Benfica.

«No Uruguai, as notícias sobre o Darwin já estão ao nível das de Suárez e Cavani. E isso já diz muito. Até porque ninguém lhe deu nada, ele conquistou tudo o que está a viver», elogia.

«O mundo precisa de mais futebolistas como Ugarte»

Darwin e Ugarte são dois jogadores que dão seguimento à tradição da última década e meia de jogadores uruguaios nas grandes equipas de Portugal.

Coates já era também um desses exemplos ao qual podemos acrescentar Maxi Pereira, Cristian Rodríguez, Jorge Fucile, Álvaro Pereira ou Carlos Bueno.

E não se tem dado mal com essa ligação a seleção do Uruguai.

O último a chegar foi Manuel Ugarte que, em janeiro de 2021 trocou o Fénix pelo Famalicão, chegando-lhe meia época para convencer o Sporting a contratá-lo para satisfazer um desejo expresso de Ruben Amorim.

E se foi rápida a mudança para um grande do futebol português, o médio de 21 anos conseguiu um feito ainda mais assinalável nos primeiros meses de leão ao peito: fazer questionar o estatuto de «indiscutível» de João Palhinha.

Ugarte leva esta época os mesmos 33 jogos que o internacional português, ainda que menos como titular.

Algo que não surpreende o antigo selecionador sub-20 do Uruguai, que tece rasgados elogios ao antigo pupilo.

«O Manuel tem uma formação académica acima do que é normal num futebolista na América do Sul. É muito inteligente. E, mais até do que no campo, isso ajuda no mundo do futebol. Essa formação torna-se importante na tomada de decisões para a vida de um futebolista e ele tem mostrado isso», começa por dizer.

«O mundo precisa de mais futebolistas como o Manuel, que sabem a melhor decisão a tomar a cada momento, quer seja dentro do campo, quer seja na carreira. E isso ajuda a perceber porque se adaptou tão rapidamente na Europa», realça.

Para Fabián Coito tem sido, portanto, uma satisfação ver o que tem alcançado o médio de apenas 21 anos.

«Alegro-me muito por ver a evolução dele. É um jogador que se propõe a desafios e a superá-los. Nunca desistiu dos objetivos que traçou, por mais difíceis que pudessem parecer», remata.

Em busca do carimbo para o Mundial do Qatar

Aos 31 anos, e com perto de 50 internacionalizações, Sebastián Coates é um nome mais do que provável na convocatória para o Mundial que se disputa em dezembro no Qatar.

Darwin começa a sustentar também o seu lugar e Ugarte tem despertado a atenção do selecionador que já o convocou em duas ocasiões, ainda que tenha muita concorrência na posição.

«Não me posso meter nesse papel, porque o selecionador é que sabe. Mas é possível que possam ir ambos ao Mundial. Já foram convocados pelo novo selecionador, que os conhece e agora vai depender dos próximos meses. Mas estão em grandes clubes da Europa, num grande campeonato e jogaram competições europeias», diz Fabián Coito, colocando Darwin e Ugarte em posições distintas na corrida a uma vaga.

«O treinador parece gostar muito do Darwin, por isso nada faz pensar que não vá estar na equipa. O Manuel tem possibilidades de também estar, mas compete com grandes jogadores e não vai ser fácil», antevê.

«Gostaria muito que ele estivesse na convocatória para o Mundial porque temos uma relação bonita e tenho muito afeto por ele. Como com outros jogadores da mesma posição como o Fede Valverde [Real Madrid], ou o Bentancur [Tottenham], com quem também trabalhei. Ainda há também Torreira [Fiorentina] e Vecino [Inter Milão]. Acho que luta vai ser dura, mas ele está em condições de lutar», aposta.

«Vou estar a torcer pelo Benfica e que o Darwin volte a fazer a diferença»

Outro uruguaio que joga em Portugal, ainda que num nível inferior, é Juan San Martín, cuja incrível história de superação o Maisfutebol já contou.

O avançado de 28 anos do Cova da Piedade, que chegou a Portugal pela porta do Benfica, repete-nos praticamente com as mesmas palavras – mas em português! - análise de Fabián Coito quanto à possibilidade de Darwin e Ugarte irem ao Mundial.

«O Darwin está a preparar-se para substituir Cavani e Suárez, dos maiores jogadores uruguaios de sempre. Eles não vão conseguir ocupar esse espaço muito tempo e quando saírem, o Darwin vai fazer bem o papel. Acredito que já no Mundial», começa por dizer.

«Para o Ugarte vai ser difícil porque tem o Valverde e o Bentancur na mesma posição, mas mesmo que não seja já, acho que também se vai afirmar na seleção», acrescenta.

Com formação feita no Peñarol, tal como Darwin, San Martín, que também recuperou a alegria de jogar futebol, garante que não ficou surpreendido com o impacto do compatriota no ataque benfiquista.

«O Darwin está a evoluir cada vez mais. Surgiu no maior clube do Uruguai e não me surpreende o que está a fazer porque vem de uma escola que o preparou para isto», nota, comparando-o com Luis Suárez, do At, Madrid.

«Ele é o avançado típico do Uruguai: muito forte, não dá uma bola por perdida e tem classe a finalizar. Tem características muito semelhantes às do Suárez e acredito que vai crescer ainda mais com o tempo».

«É provavelmente o jogador uruguaio que está a dar mais nas vistas neste momento. Está a destacar-se muito a nível mundial e nota-se que está um patamar ou dois acima dos outros jogadores do Benfica», aponta.

E são muitos os elogios que o jogador do clube de Almada deixa também a Ugarte.

«Ele está a destacar-se muito no Sporting. A raça, a vontade e a qualidade dele têm sobressaído. Há um ano, o Palhinha era indiscutível, e agora o Ugarte está a fazer a posição de forma incrível e já não é a mesma coisa. Já foi chamado à seleção e é tudo mérito do trabalho que tem feito», enaltece.

Já sobre o dérbi que terá Coates e Ugarte de um lado e Darwin Nuñez do outro, Juan San Martín não hesita um segundo quando questionado sobre quem quer que saia vencedor.

«Vou estar a torcer pelo Benfica, claro», atira numa gargalhada.

«E que o Darwin consiga fazer a diferença como tem feito ultimamente. Ele representou o meu clube, o Peñarol, agora está no Benfica, com quem simpatizo muito, por isso vou estar a torcer por ele», remata.

A torcer por um ou por outro, no Uruguai, muitos olhos estarão atentos ao dérbi. Afinal, o presente e o futuro da seleção do Uruguai também vai a jogo em Alvalade.

 

 

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