"Que se olhem nos olhos como adversários. Não como inimigos". Manuel Cajuda dá o mote para o dérbi

CNN Portugal , MMC
10 mai 2025, 09:00
Cajuda

O presidente do Sporting Clube Olhanense, com passagens pelo Sporting Clube de Braga, Marítimo e Vitória Sport Clube como técnico principal, antevê o embate que opõe Sport Lisboa e Benfica e Sporting Clube de Portugal

Sport Lisboa e Benfica (SLB) e Sporting Clube de Portugal (SCP) encontram-se este sábado num dérbi sem precedentes onde qualquer um dos conjuntos pode sair da Luz como campeão nacional: o Benfica, se ganhar por um mínimo de dois golos de diferença; o SCP, se vencer a partida.

Uma luta até ao fim entre os dois eternos rivais, com contornos que o futebol português nunca tinha visto. Algo que, de certa forma, contrasta com os sobressaltos e respetivos 'tropeções' que ambas as equipas têm sofrido ao longo da temporada. No caso de SLB, Rui Costa manteve Roger Schmidt no banco dos encarnados até à 4.ª jornada, depois de um empate em Moreira de Cónegos, o que ditou o 'adeus' do técnico alemão e o regresso de Bruno Lage a uma casa onde já foi feliz. Do lado do Sporting, quando tudo parecia estável, Ruben Amorim foi contratado pelo Manchester United, subindo João Pereira à liderança do plantel principal, mas por pouco tempo. Ao conquistar apenas quatro pontos em quatro jogos, João Pereira foi dispensado por Frederico Varandas. Seguiu-se Rui Borges como o terceiro treinador da temporada do SCP, depois de ter começado a época no Vitória Sport Clube.

Foi, aliás, no Vitória que o ex-técnico Manuel Cajuda esteve de 2006 a 2009 e onde, na época de estreia, operou o regresso dos vimaranenses ao principal escalão do futebol português. 

Habituado à pressão que o futebol e os resultados exercem sobre um treinador, Manuel Cajuda não duvida da qualidade dos técnicos de águias e leões, independentemente do resultado deste dérbi, sem deixar de reconhecer a experiência que Lage tem para estes duelos, face a Rui Borges. "Qualquer que seja o resultado, nenhum deles vai deixar de ser um bom treinador e nenhum deles vai deixar de ter um futuro promissor. Agora, é evidente que Bruno Lage parte com mais experiência, porque é maior o número de jogos e de competições em que jogou. Não quer dizer que seja uma vantagem, mas parte, seguramente, mais habituado a este tipo de jogos", sublinha.

O aspeto psicológico nestes encontros não é algo mensurável e é sempre elevado para um cenário mais transcendente: a motivação, a inspiração, a confiança, a desconfiança. E o primeiro 'espetador' dessas variáveis é o balneário, onde o ex-treinador de 73 anos é perentório sobre as palavras que um treinador deve empregar para nortear os seus jogadores, na antecâmara de um encontro com esta exigência. "Acima de tudo, que sejam fortes e determinados naquilo que foi estudado e combinado para o jogo e depois que o consigam fazer tudo aquilo que foi determinado, que foi estudado que foi planeado para o jogo”, salienta Manuel Cajuda, adiantando que é importante que os jogadores “entrem em campo e que se divirtam porque este é um jogo que dá mesmo vontade de se divertir".

No mesmo âmbito, o antigo treinador descreve a semana que antecede um confronto desta magnitude, lembrando que também se joga o acesso direto para a Liga dos Campeões. "É uma semana diferente. Não pelo conteúdo, mas é diferente por toda a envolvência do jogo. É um jogo que pode decidir o título. E, por isso, é o jogo do ano. Depois, em termos motivacionais, a envolvência do próprio jogo em si e tudo aquilo que o resultado do jogo pode proporcionar aumenta a responsabilidade, mas aumenta também a motivação onde os treinadores procuram, acima de tudo, cortar as expectativas criadas à volta do jogo do que, propriamente, aumentá-las ainda mais. Depois, o jogo é importante. É importante em termos económicos e financeiros para os clubes. É importante em relação ao futuro".

Manuel Cajuda, aproveita ainda para deixar um conselho a ambas as partes. "Se o fizerem com limpeza e com perfume, seguramente o futebol português sai muito dignificado e que não provoquem nestes dois/três dias antes do jogo animosidades entre as equipas, que sejam coerentes, sérios e que se olhem nos olhos como adversários. Não como inimigos."

Como anteriormente descrito, as contas ditam que, por via do critério de confronto direto, pode haver campeão no próximo sábado. Ainda assim, além dos resultados que entregam o título a um dos conjuntos, também o empate pode interessar ao Sporting, que levaria, assim, a decisão para Alvalade, frente ao antigo clube de Rui Borges e Manuel Cajuda: o Vitória.

Tranquilidade precisa-se

Nesse sentido, Cajuda propõe a 'receita' sobre o que cada um dos treinadores poderá fazer antes e durante o dérbi: "Tem de haver, naturalmente, não diria cautelas, em relação à forma como o jogo vai correr, mas acima de tudo tranquilidade, sabendo que ‘não há jogos de vida ou de morte. Este é muito pior do que isso’”. Para Manuel Cajuda, durante a semana os treinadores devem transmitir tranquilidade à equipa, e nunca podem “mostrar qualquer tipo de intranquilidade para os seus liderados”. A partir daí, prossegue o antigo técnico, “é estudar e trabalhar as lições durante a semana. Depois, como se costuma dizer, por muito que as pessoas não queiram concordar com isso, a bola é mesmo redonda e por vezes bastam dois passes errados e algum nervosismo para estragar um sistema tático".

Entre as várias antevisões sobre os 22 atletas que iniciarão a partida no próximo sábado, há nomes que se destacam como o de Viktor Gyökeres ou o de Vangelis Pavlidis. O avançado sueco continua a liderar o 'pelotão' da Bota de Ouro, com 38 golos apontados para o campeonato, até à data, à frente de Mohamed Salah e Robert Lewandowski. Quanto ao ponta de lança grego, conta com oito golos e duas assistências nos seus últimos seis jogos para o campeonato, com destaque especial para o hat trick no 'Dragão'.

No campo das individualidades, o dirigente algarvio não adianta muito e remete essa responsabilidade para os técnicos. "Provavelmente haverá muitas opiniões de que ‘deverá jogar A ou B’, mas, aí, quem trabalha com os jogadores, quem sabe do estado anímico, motivacional, físico, técnico, tático e de como conjugar as peças, do seu individualismo para que o coletivo venha a funcionar, é o treinador, portanto não é fácil arriscar”, explica. Ainda assim, prossegue Cajuda, sabemos que 80% das duas equipas, estão perfeitamente consolidados, e a única coisa que pode haver é uma alteração pontual. “Ninguém tem dúvidas de que Gyökeres vai jogar e muita gente hoje tem dúvidas de se Di María joga, senão joga, se seria melhor jogar ou não". 

Na antevisão de mais um confronto Lage-Borges - o primeiro, ganho por Rui Borges por 1-0, na sua estreia como treinador dos leões; o segundo, ganho por Lage, na final da Taça da Liga - olhamos, no sábado, para um verdadeiro tira-teimas entre os dois técnicos, antes, ainda, de um quarto embate, a contar para a final da Taça de Portugal.

Sobre a comparação entre os dois primeiros encontros e o do próximo sábado, Cajuda entende que "cada jogo é uma arte nova, em função da panóplia de interesses que cada jogo tem" e expõe as opções que os dois treinadores têm na sua abordagem ao jogo: "Cada jogo é uma arte nova, porque o pintor não pinta sempre o mesmo quadro, não utiliza sempre as mesmos cores, não utiliza sempre o mesmo painel, umas vezes pinta um pouco do sol, outras vezes no amanhecer, mas não deixa de ser pintor e de ter a sua arte. Caberá a cada treinador fazer a sua escolha. E só no final do jogo, é que se poderá ver se resultou".

Com largos anos de experiência no futebol português como técnico principal, nomeadamente na primeira Liga, Manuel Cajuda acredita que a 'chave' deste jogo não está na forma, mas no conteúdo: "Aquilo que fiz durante muitos anos, da forma mais simpática possível, tentar enganar o adversário. E não se engana o adversário mudando o sistema de jogo, porque esses estão, de tal maneira explorados que, aquilo que pode surpreender, aquilo que considero extremamente importante, são as missões de cada jogador que podem ser alteradas dentro do mesmo sistema de jogo".

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