Estado de depressão profunda atenuado com uma dose única deste 'cogumelo mágico'

CNN , Sandee LaMotte
5 nov, 11:00
Depressão (Pexels)

Um recente estudo revelou que uma só dose de uma versão sintética de psilocibina, a componente que altera a mente e que está presente nos cogumelos mágicos, melhora a depressão em pessoas com uma condição de resistência ao tratamento da doença.

O ensaio clínico aleatório, duplo-cego, que os autores designaram como “o maior deste tipo”, comparou os resultados de uma dose de 25 miligramas com uma dose de 10 miligramas e de 1 miligrama de uma psilocibina sintética, a COMP360, que foi administrada na presença de terapeutas treinados.

Os resultados do estudo, publicados quarta-feira no The New England Journal of Medicine, encontraram “uma resposta imediata, ágil, de ação rápida e sustentada a 25 miligramas (de COMP360)”, afirmou o autor do estudo, Guy Goodwin, professor emérito de psiquiatria na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Esta droga pode ser extraída de cogumelos mágicos, mas não é assim que o nosso composto é gerado. É sintetizado num processo puramente químico para produzir uma forma cristalina”, explicou Goodwin, que é o chefe médico da COMPASS Pathways, a empresa que fabrica o COMP360 e que realizou o estudo.

Os especialistas desta área consideraram os resultados do estudo promissores.

“Encontraram claramente um efeito de dose e uma melhoria clinicamente significativa em apenas três semanas”, afirmou Matthew Johnson, professor de psicadélicos e consciência na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, que não participou na recente pesquisa.

“Se os indivíduos estivessem no grupo dos 25 miligramas, teriam quase três vezes mais probabilidade de responder do que se estivessem no grupo do 1 miligrama”, afirmou Johnson, que foi coautor das diretrizes de segurança para a investigação psicadélica em 2008.

A resposta rápida ao tratamento também foi notável.

“O efeito máximo foi visto no dia a seguir a receber o tratamento. Isto contrasta com os antidepressivos padrão, que levam várias semanas a atingir o efeito máximo”, referiu Anthony Cleare, professor de psicofarmacologia e desordens afetivas no King's College de Londres, que também não esteve envolvido neste estudo.

No entanto, os especialistas afirmaram que existem uma série de questões que precisam de ser estudadas com maior rigor antes que este medicamento fique disponível para uso clínico.

“Os efeitos começaram a passar após três meses, e precisamos de saber como melhor prevenir o regresso da depressão”, afirmou Cleare, acrescentando que ainda não se sabe o suficiente sobre potenciais efeitos secundários.

“Embora o perfil de segurança pareça, no geral, ser favorável, é obviamente necessário muito cuidado ao consumir substâncias psicoativas, tais como a psilocibina. Estão em curso estudos mais abrangentes que esperamos que venham ajudar a dar resposta a estas questões”, disse.

Os benefícios foram-se desvanecendo

O ensaio clínico ocorreu em 22 locais nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e sete países da Europa. O estudo foi concebido para testar a segurança das diferentes dosagens da versão proprietária de psilocibina.

Os 233 participantes no estudo tinham um tipo de depressão que era resistente ao tratamento, que só pode ser diagnosticada depois de uma pessoa não responder a dois cursos de antidepressivos. Os estudos estimam que, dos 9 milhões de pessoas nos EUA com depressão medicamente tratada, 3 milhões de pacientes são resistentes ao tratamento. A nível mundial, cerca de 100 milhões de pessoas têm depressão resistente ao tratamento, afirmou Goodwin.

As pessoas com esta condição correm um risco elevado de doença física, incapacidade, hospitalização e suicídio, segundo o estudo.

Quaisquer participantes deste estudo sobre antidepressivos foram obrigados a fazer um desmame desses medicamentos antes do início do ensaio. O tratamento psicadélico não funciona em pessoas que tomam ativamente antidepressivos - porque os recetores onde os psicadélicos se fixam no cérebro já estão sobrecarregados com serotonina dos seus atuais medicamentos de alteração de humor.

“Foi solicitado aos participantes que parassem o tratamento antidepressivo durante as primeiras 3 semanas após a administração do medicamento em estudo; no entanto, se algum médico investigador considerasse que era clinicamente necessário, poderiam retomar a administração destes medicamentos a qualquer momento durante o ensaio”, referia o estudo.

A gravidade da depressão para cada pessoa foi avaliada na véspera do tratamento, utilizando uma escala psicológica amplamente utilizada pelos clínicos. Durante as viagens psicadélicas, que duraram entre seis e oito horas, estiveram presentes orientadores treinados para oferecer apoio psicológico. Os participantes tiveram também mais duas sessões de terapia na primeira semana, segundo o estudo.

Os níveis de depressão foram documentados no dia a seguir à “viagem psicadélica” e mais cinco vezes durante um período de 12 semanas. Cerca de 37% das pessoas que tomaram a dose de 25 miligramas mostraram uma melhoria. Na verdade, o estudo revelou que 29% foram considerados em estado de remissão na terceira semana.

Contudo, na 12.ª semana, a experiência constatou que o impacto positivo nos sintomas depressivos tinha diminuído e já não atingia um nível de significância estatística.

“A incidência de resposta sustentada na 12.ª semana foi de 20% no grupo dos 25 mg, 5% no grupo dos 10 mg, e 10% no grupo do 1 mg”, escreveu a psicobióloga Bertha Madras, diretora do laboratório de neurobiologia da dependência no Hospital McLean da Faculdade de Medicina de Harvard, em Belmont, Massachusetts, num editorial de acompanhamento - Madras não participou neste estudo.

“Esta não é uma taxa de resposta espetacular para um tratamento psiquiátrico... e só seria de esperar que os sintomas se agravassem após um período de seguimento mais longo”, afirmou Ravi Das, professor associado de métodos de investigação e estatística em psicologia educacional na University College London (também não esteve envolvido no estudo).

Além disso, “havia um número desigual de pacientes com um nível grave de depressão em cada grupo; com um número significativamente menor de pessoas severamente deprimidas no grupo de dose que aparentemente foi 'eficaz' (de 25mg)”, afirmou Das. “Isto não parece ter sido mencionado no relatório do estudo.”

Perfil de segurança

Cerca de 77% dos participantes do estudo sofreram de dor de cabeça, náuseas, fadiga e tonturas no decorrer do estudo e estes efeitos secundários ocorreram em todos os níveis de dosagem, afirmando os especialistas que esta é uma resposta típica no dia da administração de psilocibina.

O estudo revelou que, em cada um dos três grupos de dosagem, houve um pequeno número de pessoas que experienciou pensamentos suicidas ou que se feriu durante o período de seguimento das 12 semanas. Só nas primeiras três semanas, duas pessoas do grupo de 25 miligramas pensaram em suicídio e duas se feriram intencionalmente. Revelou também que duas pessoas do grupo dos 10 miligramas tiveram pensamentos suicidas, uma delas feriu-se e outra foi hospitalizada com depressão grave.

Estes comportamentos são “comuns em estudos de depressão resistente ao tratamento - a maioria dos casos ocorreu mais de uma semana após a sessão de psilocibina do COMP360”, afirmou a empresa.

“Lembrem-se que isto aconteceu com pessoas que foram avaliadas como não estando em risco significativo de suicídio quando entraram para estudo. Os números eram bastante baixos, mas isto é algo que terá de ser cuidadosamente tido em conta em qualquer fase posterior da experiência”, afirmou Kevin McConway, professor emérito de estatísticas aplicadas na The Open University, uma universidade pública britânica de investigação.

Os resultados do estudo são promissores, mas muitas questões permanecem por responder e não se sabe se este fármaco teria sucesso em diferentes tipos de depressão, referiu McConway, que não esteve envolvido no estudo.

“Eles não nos sabem dizer quão eficaz é este tratamento de psilocibina aliado a sessões de terapia em comparação com outros tratamentos de depressão que já existem”, afirmou McConway, ressalvando este aspeto como algo a ter em conta para o próximo passo dos ensaios de seguimento.

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