"Estou numa prisão domiciliária." Alice, 65 anos, está entre dois concelhos varridos pelo "comboio de tempestades" e não é prioridade para nenhum

1 mar, 08:00
Casa de Alice Coimbra em Alpiarça. DR

Vários foram os portugueses que viram a sua vida mudar com a passagem de um "comboio de tempestades", sobretudo pela zona centro do país. Entre eles, está Alice Coimbra, que lamenta ter sido abandonada pelas autoridades competentes: "A minha ansiedade não para de crescer. Sinto-me cada vez mais nervosa, mais ansiosa. Passo muitas horas a chorar"

“Ainda hoje não consigo sair de casa. Desde o dia 5 de fevereiro que apenas saí uma vez com a assistente social e com os bombeiros que me vieram buscar para ir às compras. Não saí mais.”

A frase é de Alice Coimbra, que por estes dias oscila entre o desespero e o cansaço. Tem 65 anos, vive sozinha numa quinta em Vale de Cavalos, no concelho da Chamusca. Desde o início de fevereiro que, conta à CNN Portugal, ficou com a vida completamente suspensa.

Alice foi uma das muitas pessoas afetadas pelas sucessivas depressões que atingiram Portugal entre o final de janeiro e o início de fevereiro - o chamado “comboio de tempestades”, que provocou milhares de ocorrências em todo o país e alterou o quotidiano de centenas de portugueses.

No caso de Alice, a tempestade não lhe levou a casa. Levou-lhe o caminho.

“No dia 5 de fevereiro, depois de ter chovido bastante em quase todo o país, acordei e a linha de água onde eu passo, antes de entrar no meu portão, tinha levado toda a manilha e todo o material de suporte que permitia a passagem. Ficou um rio.”

Imagem mostra um buraco provocado pela intensidade das chuvas das últimas semanas, no caminho que dá acesso à habitação de Alice Coimbra (Direitos Reservados)

A imagem ficou-lhe gravada. A água transformou a passagem numa barreira intransponível. “Eu não podia sair nem entrar", lamenta.

A casa num concelho, o caminho noutro

Alice vive sozinha, mas não está sozinha. Tem 12 cães, “todos eles tinham sido abandonados”, 15 gatos, galinhas e patos. A quinta fica em território da Chamusca. O acesso, porém, faz-se por um caminho que pertence ao concelho vizinho.

Alice Coimbra vive rodeada de animais. (Direitos Reservados) 

“Sou a primeira habitante da Chamusca, mas todos os meus acessos são feitos por Alpiarça. Estou ao fundo da Zona Industrial de Alpiarça. Sou a última habitante de Alpiarça e a primeira da Chamusca", explica.

E é nesta fronteira administrativa que começa o impasse.

A casa pertence à Chamusca. O caminho que permite lá chegar é da Câmara Municipal de Alpiarça. Foi por isso que, a 5 de fevereiro, entrou em contacto com as autoridades locais depois de perceber aquilo que lhe acabara de acontecer à porta de casa.

“De imediato liguei para a Proteção Civil de Alpiarça a dizer que estava isolada e que precisava que viessem reparar. Compreendi que não podia ser na hora, porque estava um dia mau, havia muita chuva, mas queria dar conhecimento da situação", recorda.

Nos primeiros dias, tentou manter a calma. Tinha eletricidade, água e internet. “Tenho dois routers, porque trabalho remotamente”, conta à CNN Portugal. É essa ligação que lhe tem permitido manter parte da atividade profissional à distância, ainda que limitada. Alice trabalha para África e é para lá que precisa de viajar com grande regularidade. Na sua ausência em Portugal, “vem um senhor todos os dias tratar dos animais”.

"Quando viajo tenho um senhor que vem e cuida deles", refere. "Agora, com toda esta situação, essa pessoa não pode entrar nem pode sair de minha casa, como faria normalmente. E, por isso, eu não posso viajar. Não posso abandonar os meus animais. Estou aqui na esperança de que nunca me abandonem”, confessa.

Temporal fez cair parte de uma árvore sob o galinheiro dentro da quinta de Alice Coimbra (Direitos Reservados)

Desde 5 de fevereiro que só saiu uma vez, acompanhada por bombeiros e pela assistente social, para comprar bens essenciais. Noutra ocasião, a ração dos animais foi-lhe entregue no quartel e transportada até casa.

Mas com o passar dos dias e a melhoria das condições meteorológicas, a espera tornou-se mais difícil de aceitar.

“Há mais de uma semana que o tempo está bom. Já há condições para reparar a linha de água. Estamos a falar de uma reparação muito rápida. Numa hora ou duas, uma máquina vem, põe as manilhas, aterra de um lado e do outro e o problema fica resolvido", garante.

Passaram mais de 20 dias desde que tudo aconteceu. Ao longo de todo este tempo, Alice garante ter contactado repetidamente a Câmara Municipal de Alpiarça, mas a resposta nunca foi a que espera.

“Comecei a pressionar. Deixava mensagens, pedia para falar com a Proteção Civil, com a presidência. Ignoraram-me completamente. Enviava mails, tenho tudo por escrito”, sublinha.

A primeira resposta chegou da autarquia vizinha. Do lado da Câmara Municipal da Chamusca diz ter ouvido que não podem intervir num caminho que pertence a outro concelho. “Disseram-me: ‘Nós não podemos ir reparar um caminho no outro concelho.’ E têm razão.”

A sensação de não ser prioridade agravou-se quando ouviu declarações públicas da presidente de Alpiarça a referir que havia duas quintas isoladas, “uma com uma pessoa e outra com uma pessoa com muitos animais, mas que não pertencia ao concelho”.

“Eu fiquei triste. Pensei: por não pertencer ao concelho, não vou ser prioridade", lamenta.

Para além dos caminhos de acesso à habitação danificados, parte do telhado da residência de Alice ficou destruído. Ainda assim, o incidente não obrigou à sua retirada por parte das autoridades, por este ter ocorrido numa zona inabitável da casa.  

"Senti-me humilhada"

No dia 20 de fevereiro, enviou novo e-mail à autarquia de Alpiarça a pedir uma data concreta para a reparação do acesso. Avisou que, caso continuasse sem resposta, recorreria à comunicação social.

“Escrevi que ia expor a situação. Meia hora depois, miraculosamente, ligaram-me.”

Do outro lado da linha, diz, estava o secretário da presidente da Câmara.

“Disse-me que não me estavam a ignorar, que tinham muitas reuniões, muitos problemas, muitas ruas para arranjar, e que eu não era prioritária.”

A conversa deixou-a abalada.

“Ele disse-me que nem sabia onde eu morava. Que eu pertencia à Chamusca e que talvez devesse pedir ao presidente da Chamusca para abrir um acesso direto até minha casa. Como se isso fosse uma solução imediata. Estou, neste momento, numa prisão domiciliária.”

Na chamada, confrontou o responsável sobre avançar para a comunicação social. Do outro lado, recebeu uma resposta inesperada.

“Começou a ler o mail ainda em chamada comigo. Foi aí que disse ter percebido que eu ia avançar publicamente com a história. Disse-me: `Vai avançar para as televisões? Faz muito bem. Comunique com quem quiser, faz muito bem. Não temos condições para a ajudar'”, descreve.

Alice conta o que sentiu nesse mesmo momento: “Desrespeito. Senti-me humilhada. Senti que alguém tinha de falar comigo porque eu tinha ameaçado falar com a comunicação social, mas não porque quisessem resolver o problema.”

“A única coisa que eu preciso é que me deem um dia. Um dia. Digam-me: ‘vamos reparar no dia X’. O que me angustia mais é não ter uma data. Eu não sei quando é que vou poder sair. A minha vida ficou parada”, pede, de forma desesperada.

"Já não sou nada do que era antigamente"

Na primeira semana, diz, conseguiu manter a serenidade.

“Sabia que o país estava a atravessar dias difíceis, via as notícias, sabia que havia situações muito graves. Aguardei placidamente. Fiquei calma.”

Mas à medida que o tempo passou e o bom tempo regressou, a ansiedade instalou-se.

“Desde a semana passada que já há condições para reparar a linha de água. Não é uma reparação complicada. Numa hora ou duas resolve-se. Não há justificação para eu continuar isolada", garante.

O impacto deixou de ser apenas prático. Tornou-se emocional.

“A minha ansiedade não para de crescer. Sinto-me cada vez mais nervosa, mais ansiosa. Passo muitas horas a chorar. Não consigo dormir, tenho muita dificuldade em adormecer e, quando finalmente consigo, tenho pesadelos. Já não sou nada do que era antigamente. Nada”, começa por confessar de forma emocionada.

“Psicologicamente, estou mesmo a ficar afetada, e isso preocupa-me muito. Porque eu não sou assim. Sempre fui uma pessoa calma, segura, dona de mim. E sinto que, neste momento, tudo isso está a ser posto à prova. Está a ser muito difícil”, acrescenta.

Quase três semanas depois do temporal, Alice continua sem qualquer resposta. O perito da seguradora não conseguiu chegar à propriedade e, até ao momento, não foi realizada qualquer vistoria técnica.

“Estou aqui pura e simplesmente esquecida. Sou portuguesa. Vivo numa casa que é de um concelho, mas os acessos são de outro. E, por causa disso, sinto que fui marginalizada e ignorada.”

Câmara de Alpiarça nega acusações

Na sequência dos acontecimentos, a CNN Portugal questionou a Câmara Municipal de Alpiarça. Numa resposta enviada por escrito, o município garante estar a par do caso de Alice, explicando que os “serviços técnicos municipais realizaram uma visita ao local para avaliar a ocorrência e proceder ao levantamento preliminar dos danos”. Em paralelo, acrescenta, foi iniciada “a análise técnica e administrativa necessária para o enquadramento jurídico da situação e para a identificação das soluções de intervenção mais adequadas”.

Questionada sobre a eventual responsabilidade municipal na reparação daquele acesso, a autarquia é perentória e divide responsabilidades com a Câmara vizinha. “Atendendo a que a via em causa estabelece a fronteira entre os concelhos de Alpiarça e da Chamusca, qualquer intervenção carece de uma concertação prévia e de um plano de execução conjunto entre ambas as autarquias”.

Quanto a prazos, a Câmara admite que, “de momento, não é possível definir um prazo concreto”, uma vez que a calendarização depende da conclusão dos procedimentos técnicos e administrativos em curso. Acrescenta ainda que o volume de vias danificadas no concelho obriga a “uma gestão rigorosa de prioridades”, condicionada pelos recursos logísticos, maquinaria específica e disponibilidade de pessoal qualificado.

Sobre as razões para ainda não ter avançado qualquer solução no terreno, o município esclarece que a execução da intervenção definitiva está dependente do “apuramento da solução técnica que garanta maior eficácia, segurança e sustentabilidade a longo prazo”. A autarquia alerta também que a “elevada saturação de água nos terrenos (acumulação pluvial e leito dos rios) representa um risco de instabilidade geológica e movimentação de terras”, o que poderá comprometer “a viabilidade e durabilidade de uma obra imediata”.

Relativamente ao acompanhamento social da munícipe, a Câmara Municipal, mas da Chamusca, assegura que existe contacto regular. Em resposta à CNN Portugal, refere que Alice Coimbra, residente naquele concelho, “tem sido acompanhada de forma articulada pelos Serviços de Ação Social da Câmara Municipal da Chamusca e pelo Gabinete de Ação Social da Câmara Municipal de Alpiarça”.

A autarquia sublinha ainda que “a munícipe nunca esteve em situação de isolamento ou abandono”, recordando que, no passado dia 13 de fevereiro, “uma equipa da Ação Social, em articulação com a Proteção Civil e os Bombeiros Voluntários, prestou apoio presencial, assegurando as deslocações da munícipe a serviços essenciais (correios, farmácia e comércio local)”.

Segundo o município, nessa ocasião a própria terá indicado não necessitar de assistência adicional até 20 de fevereiro, data para a qual solicitou apoio no transporte de alimentação para animais.

Já Alice Coimbra contesta a posição assumida pela Câmara de Alpiarça e garante que, ao longo dos últimos 30 anos, “foi sempre o Município de Alpiarça que procedeu à reparação da linha de água”, incluindo intervenções realizadas “na última semana de janeiro e na primeira semana de fevereiro (dias antes da derrocada)”.

Quanto às condições do terreno, sustenta que “a área a ser intervencionada apresenta estabilidade suficiente para a intervenção pois o caudal da água já atingiu níveis normais”, defendendo que “basta uma visita ao local para compreender que já é possível a sua reparação”.

Relativamente ao apoio recebido, afirma que “foi sempre a ação social e os bombeiros da Chamusca” que a apoiaram “duas vezes (decorridos 20 dias de isolamento)”. Detalha que, a “13/02/2026”, estes serviços lhe permitiram deslocar-se “aos correios”, “à farmácia em Alpiarça” e fazer “compras em Alpiarça”. Ainda assim, acrescenta, “houve apenas uma chamada da ação social de Alpiarça, no dia 05/02/2026” e que “nunca houve nenhum tipo de ajuda da ação social da Alpiarça nem dos bombeiros de Alpiarça”.

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