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Psicólogo clínico e da Saúde e vogal da direção da delegação regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: a depressão é hereditária?

30 ago, 10:00
Depressão. ChatGPT Image
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O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

 

A complexidade das questões, por vezes, convida ao simplismo das respostas. O que se ganha na vã sensação de “questão encerrada” perde-se na acuidade da construção da realidade, mesmo que esta passe por uma paleta de cores, mais difícil de definir do que o preto e o branco. Entre os extremos desse continuum, estão muitas tonalidades cromáticas, que requerem paciência e pensamento, variáveis que primam pela complexidade e não pela economia de recursos cognitivos!

A ideia de que a depressão é sempre hereditária alicerça-se num desses extremos, estando no outro a ideia que tudo passa por variáveis ambientais. Circunscrever a natureza das patologias mentais à dimensão genética presidiu durante muito tempo, numa leitura determinista e limitada, alicerçando as terapêuticas e políticas nos extremos. O debate entre a influência da genética e do ambiente no nosso percurso é antigo e continua a ser moderno. É fascinante e colorido, com laivos de branco e preto. As patologias mentais são complexas e compreendê-las não se compadece com simplismos. A depressão não é causada por um único "gene da depressão", mas sim por uma combinação de fatores genéticos, biológicos e ambientais, tendo uma origem multifatorial.

A depressão tem uma componente hereditária importante, mas não é determinada apenas pelos genes, nem existe uma espécie de “gene da depressão”. A genética desempenha um papel. Contudo, é uma peça do puzzle, e não o puzzle em si mesmo. Além das meras opiniões, a investigação vai acinzentando o olhar. Mais do que determinada, a saúde mental é influenciada por uma combinação genética, biológica, ambiental e psicológica. Por isso, ainda que dependendo da patologia, a hereditariedade influencia, mas não determina (o que é visível, por exemplo, nos estudos com gémeos).

Esses estudos sugerem que a hereditariedade da depressão ronda os 35% a 40%. Isto significa que cerca de um terço da predisposição pode ser explicada por fatores genéticos, enquanto o restante depende de fatores ambientais e experiências de vida. Outro dado resultante da investigação, diz-nos que, se um dos pais foi diagnosticado com depressão, o risco de um filho a desenvolver é cerca de 2 a 3 vezes superior ao da população em geral.

A depressão, como outras doenças mentais, resultam de uma interação complexa de diferentes fatores. Genéticos, relacionados com os nossos genes e com aquilo que eles passam de geração em geração. Biológicos, relacionados com o desenvolvimento do cérebro e com a interação entre o seu desenvolvimento, durante a gravidez e ao longo da vida, e os nossos comportamentos. Psicológicos, relacionados com aprendizagens e experiências adversas ao longo da vida, por exemplo, de instabilidade e/ou de abuso, sobretudo na infância e adolescência. Sociais, relacionados com o contexto em que vivemos, como viver em situação de pobreza e exclusão social ou acontecimentos de vida stressantes.

Interessa pensarmos sobre o conceito de vulnerabilidade, desligando-a da ideia de fraqueza ou defeito, bem sobre o equilíbrio entre fatores de risco e de proteção, aqueles que potenciam ou obstaculizam os problemas de saúde mental, incluindo a depressão.

As interações entre os genes e o ambiente contribuem para a forma como possíveis vulnerabilidades se manifestam. E, nesse campo, podemos ter situações em que as patologias surgem, não havendo vulnerabilidade genética, ou que não surgem, quando a genética, per se, o poderia sugerir. Exemplificando, uma pessoa que possua uma vulnerabilidade genética para a depressão pode não manifestar a doença, se se desenvolver e viver em contextos ambientalmente protetores.

Não perceber esta complexa interação pode levar a estigmatização, por exemplo de familiares de pessoas diagnosticadas com depressão, ou à desvalorização da prevenção transversal, bem como a limitações nas respostas de ajuda e na definição de políticas de saúde mental. E, no fundo, à diminuição da empatia perante o sofrimento.

Na seleção do prisma de análise da depressão, o filtro não pode ser monocromático, mas sim uma espécie de arco-íris emoldurado pelo preto e pelo branco. A interpretação será mais complexa, mas, ao mesmo tempo, mais fidedigna e desafiante!

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