O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
A complexidade das questões, por vezes, convida ao simplismo das respostas. O que se ganha na vã sensação de “questão encerrada” perde-se na acuidade da construção da realidade, mesmo que esta passe por uma paleta de cores, mais difícil de definir do que o preto e o branco. Entre os extremos desse continuum, estão muitas tonalidades cromáticas, que requerem paciência e pensamento, variáveis que primam pela complexidade e não pela economia de recursos cognitivos!
A ideia de que a depressão é sempre hereditária alicerça-se num desses extremos, estando no outro a ideia que tudo passa por variáveis ambientais. Circunscrever a natureza das patologias mentais à dimensão genética presidiu durante muito tempo, numa leitura determinista e limitada, alicerçando as terapêuticas e políticas nos extremos. O debate entre a influência da genética e do ambiente no nosso percurso é antigo e continua a ser moderno. É fascinante e colorido, com laivos de branco e preto. As patologias mentais são complexas e compreendê-las não se compadece com simplismos. A depressão não é causada por um único "gene da depressão", mas sim por uma combinação de fatores genéticos, biológicos e ambientais, tendo uma origem multifatorial.
A depressão tem uma componente hereditária importante, mas não é determinada apenas pelos genes, nem existe uma espécie de “gene da depressão”. A genética desempenha um papel. Contudo, é uma peça do puzzle, e não o puzzle em si mesmo. Além das meras opiniões, a investigação vai acinzentando o olhar. Mais do que determinada, a saúde mental é influenciada por uma combinação genética, biológica, ambiental e psicológica. Por isso, ainda que dependendo da patologia, a hereditariedade influencia, mas não determina (o que é visível, por exemplo, nos estudos com gémeos).
Esses estudos sugerem que a hereditariedade da depressão ronda os 35% a 40%. Isto significa que cerca de um terço da predisposição pode ser explicada por fatores genéticos, enquanto o restante depende de fatores ambientais e experiências de vida. Outro dado resultante da investigação, diz-nos que, se um dos pais foi diagnosticado com depressão, o risco de um filho a desenvolver é cerca de 2 a 3 vezes superior ao da população em geral.
A depressão, como outras doenças mentais, resultam de uma interação complexa de diferentes fatores. Genéticos, relacionados com os nossos genes e com aquilo que eles passam de geração em geração. Biológicos, relacionados com o desenvolvimento do cérebro e com a interação entre o seu desenvolvimento, durante a gravidez e ao longo da vida, e os nossos comportamentos. Psicológicos, relacionados com aprendizagens e experiências adversas ao longo da vida, por exemplo, de instabilidade e/ou de abuso, sobretudo na infância e adolescência. Sociais, relacionados com o contexto em que vivemos, como viver em situação de pobreza e exclusão social ou acontecimentos de vida stressantes.
Interessa pensarmos sobre o conceito de vulnerabilidade, desligando-a da ideia de fraqueza ou defeito, bem sobre o equilíbrio entre fatores de risco e de proteção, aqueles que potenciam ou obstaculizam os problemas de saúde mental, incluindo a depressão.
As interações entre os genes e o ambiente contribuem para a forma como possíveis vulnerabilidades se manifestam. E, nesse campo, podemos ter situações em que as patologias surgem, não havendo vulnerabilidade genética, ou que não surgem, quando a genética, per se, o poderia sugerir. Exemplificando, uma pessoa que possua uma vulnerabilidade genética para a depressão pode não manifestar a doença, se se desenvolver e viver em contextos ambientalmente protetores.
Não perceber esta complexa interação pode levar a estigmatização, por exemplo de familiares de pessoas diagnosticadas com depressão, ou à desvalorização da prevenção transversal, bem como a limitações nas respostas de ajuda e na definição de políticas de saúde mental. E, no fundo, à diminuição da empatia perante o sofrimento.
Na seleção do prisma de análise da depressão, o filtro não pode ser monocromático, mas sim uma espécie de arco-íris emoldurado pelo preto e pelo branco. A interpretação será mais complexa, mas, ao mesmo tempo, mais fidedigna e desafiante!
Leia também:
- Porque é que a imigração desperta emoções tão fortes e como podemos ter uma discussão mais racional sobre o tema?
- Como lidar com a pressão escolar?
- O stress pode causar vontade de comer?
- Porque tenho medo de falar em público?
- Como lidar com colegas manipuladores?
- Porque precisam tanto as pessoas da aprovação dos outros?
- Porque me comparo tanto com os outros?
- Porque não consigo dizer "não"?
- Porque escolho sempre as pessoas erradas?
- Como saber se estou a ser manipulado, seja nas relações pessoais ou profissionais?
- Como identificar sinais de negligência ou autonegligência em pessoas mais velhas?
- Porque vivo sempre em ansiedade financeira?
- Como lidar com chefes difíceis?
- Porque me sinto sozinho mesmo rodeado de pessoas?
- Como lidar com o impacto emocional do divórcio?
- Como gerir o stress e a incerteza da guerra no dia a dia?
- Medo de nos tornarmos parecidos com pessoas de quem não gostamos? Como compreender e gerir?
- Pensamentos intrusivos, o que são e como lidar sem entrar em pânico?
- De que modo a necessidade de ser produtivo configura uma forma de autoagressão?
- Como ajudar um familiar com demência que acumula objetos?
- O que é o "FOMO" e porque é tão difícil controlar?
- O 'doomscrolling' pode provocar ansiedade patológica?
- Há técnicas práticas para aumentar a concentração e memória?
- Efeitos do temporal: o que se pode esperar a nível psicológico?
- O que é a chamada "ansiedade climática" e como lidar com ela?
- Psicoterapia, medicação ou ambos?
- É saudável seguir psicólogos e terapeutas nas redes sociais como fonte de conselhos?
- Posso fazer psicoterapia sem tomar medicação e ainda assim melhorar?
- É possível ensinar o cérebro a reagir menos intensamente a críticas?
- Como perceber se um adolescente está a passar por depressão ou apenas por "fases"?
- Porque é que muitas pessoas sentem mais solidão apesar de estarem sempre conectadas online?
- Há risco de dependência emocional em relação ao psicólogo?
- Como falar sobre sexualidade com adolescentes?
- Como lidar com familiares que não entendem problemas de saúde mental?
- A dependência de séries, jogos online ou dating apps é considerada uma forma de vício?
- O que significa quando sinto que estou sempre emocionalmente cansado?
- Porque é que tantas pessoas sentem "síndrome do impostor"?
- Porque é que tenho tanta dificuldade em "largar o passado"?
- O que fazer quando os filhos não confiam em nós para partilhar problemas?
- Como distinguir entre stress normal e ansiedade que precisa de ajuda?
- Como criar rotinas que me deem equilíbrio emocional?
- Como aprender a lidar com a necessidade de controlar tudo?
- Como focar em soluções em vez de ficar preso no problema?
- Como lidar com a frustração de planos que não correm como eu imaginei?
- Como lidar com a passagem do tempo e a inevitabilidade de as pessoas à nossa volta começarem a desaparecer?
- Que técnicas podem ajudar a controlar crises de ansiedade?
- Como estabelecer limites saudáveis entre relações pessoais e profissionais?
- O que fazer quando sentimos que estamos a ficar viciados na utilização de ecrãs?
- O que significa ter inteligência emocional e como podemos desenvolvê-la?
- Como saber que nos relacionamos com uma pessoa narcisista?
- A tecnologia pode ser usada para melhorar a saúde mental?
- Como é que a comparação nas redes sociais nos pode afetar psicologicamente, e como evitá-la?
- Como reencontrar motivação nos dias vazios?
- E se o problema não estiver nos outros? Um olhar sobre o narcisismo no quotidiano
- Como diferenciar a ansiedade normal de uma perturbação da ansiedade?
- Como desligar a nossa cabeça, especialmente à noite?
- A meditação e o mindfulness realmente ajudam a melhorar a saúde mental?
- Estes são os mitos mais comuns sobre depressão e ansiedade
- Como distinguir a depressão da tristeza?
- Porque me comparo tanto com os outros?
