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Depressão Martinho. Como as temperaturas elevadas no Atlântico explicam o "novo clima" de Portugal

CNN Portugal , DCT
20 mar 2025, 13:50

 

 

Especialistas apontam o dedo às alterações climáticas como causa destes fenómenos, mas apressam-se a criticar a falta de planeamento para prevenir males maiores. E isso faz com que episódios como os de Valência possam vir a acontecer em Portugal

Ventos a velocidades dignas de multas, chuvas fortes, agitação marítima que galga estradas. Os fenómenos meteorológicos como a depressão Martinho parecem ser mais recorrentes, mas não são. São, sim, mais intensos e isso explica-se, sobretudo, pelos maus hábitos humanos e industriais responsáveis pelas alterações climáticas.

“Vivemos nos primeiros anos de um novo clima, que foi criado pela emissão de gases com efeitos de estufa, algo que estava previsto há décadas. E 2025 segue na sequência de 2024, que foi o ano mais quente de que há registo, com a temperatura 1,6 ºC acima do período pré-industrial, acabando praticamente com o Acordo de Paris”, começa por explicar João Camargo, especialista em alterações climáticas, na CNN Portugal.

A maior intensidade deste tipo de fenómenos meteorológicos prende-se, sobretudo, com “as temperaturas elevadas no Atlântico”, que, para Camargo, “são a melhor explicação para aquilo que está a acontecer em Portugal”, uma vez que “o centro da Europa está basicamente numa primavera, neste momento, sem chuva, com sol, exatamente o oposto do que está a acontecer na Península Ibérica”. Além disso, continua, na sequência do que já tinha explicado o climatologista Pedro Garrett, temos também “um anticiclone dos Açores mais fraco” e ainda “uma interação com as altas temperaturas do Mediterrâneo”. E a soma disto tudo acaba por “produzir uma atmosfera muito mais carregada de energia e que despeja essa energia sob a forma de precipitação e também sob a forma de agitação marítima, de ventos”.

“É esta a nossa infeliz realidade, na qual temos de atuar, tanto na parte de preparação para as alterações climáticas, como no corte radical das emissões de gases com efeito de estufa, que é a única solução para este problema”, destaca o especialista em alterações climáticas.

Mas a subida da temperatura não é apenas notória nas águas, nem tão pouco as suas consequências vêm apenas daí. “Estas alterações climáticas, ao causarem mais incêndios no verão, vão desnudar os solos e estas alterações climáticas vão também causar precipitações muito acentuadas nos invernos, o que vai causar as inundações agravadas pelos incêndios que consumiram as florestas durante o verão”, adianta Pedro Bingre do Amaral, especialista em planeamento regional e urbano e Ciências do Ambiente, que se apressa a dizer que “precisamos gerir as florestas”.

Apesar de parecer que as depressões são agora mais recorrentes, João Camargo lembra que este não é um cenário de agora e que “vivemos num novo clima” há já alguns anos, em particular desde que a temperatura média da atmosfera - e, por consequência, das águas - começou a subir, aquilo que chama de “novo clima”.  “O ano passado foi o ano em que houve nove furacões no Atlântico, em média temos normalmente sete, alguns bastante fora de época, cinco acima da categoria três, com ventos superiores a 180 quilómetros por hora”, aponta o especialista em alterações climáticas, adiantando que “tudo isto interage, depois, com litorais mais vulneráveis e com todas as fragilidades da construção dessas cidades, desses territórios, muitos deles litorais muito disfuncionais, muitos deles transformados em colónias de férias”.

E é este ponto urbanístico que Pedro Bingre do Amaral mais destaca, apontando como responsável pelos efeitos devastadores destas tempestades. ”Este é um problema bastante notório, particularmente na fachada litoral do nosso país, onde o relevo, o substrato geológico e também o impacto frontal destas grandes precipitações vai fazer efeito nessas correntes torrenciais. Os serviços florestais, ao longo do século XX, fizeram imensas obras de correção torrencial no centro Oeste. E isto é algo que tem de ser feito, tem de voltar a ser feito”, vinca o especialista, lamentando o facto de Portugal ter deixado de “fazer este género de trabalhos”, atirando que “fechámos os serviços florestais em 1996 e extinguimos os guardas florestais em 2006”.

E pegando na vulnerabilidade do solo litoral de Portugal, Pedro Bingre do Amaral alerta que uma tragédia idêntica à de Valência não é totalmente descartável em Portugal. “O caso particular de Valência, além do problema da descoordenação da proteção civil, foi também um caso de construção indevida em leitos de cheia, na qual também temos com abundância”, garante o especialista em planeamento regional e urbano. Um ponto também destacado por João Camargo, que alerta que Portugal tem “ainda as cidades completamente tapadas, sem capacidade de infiltração de água” e essa desobstrução é “algo em que devemos apostar seriamente nos próximos anos, mobilizar recursos nesse sentido, mas que interagem com um território extremamente vulnerável e que infelizmente não devemos excluir que aconteçam novamente em Portugal”. “Esperemos que não [aconteçam incidentes como em Valência], porque a verdade é que as cidades não continuam preparadas e o clima vai piorando recorrentemente.”

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