Lembra-se do furacão Leslie em 2018? E da Xola em 2009? Recuamos no tempo para colocar a tempestade que arrasou Leiria para a colocar numa curta e negra lista
A depressão Kristin entra diretamente para a curta lista dos fenómenos meteorológicos mais violentos registados em Portugal nas últimas décadas. Mas será justo compará-la ao furacão Leslie, que em 2018 deixou um rasto de destruição histórico? Ou estará mais próxima da chamada tempestade Xola, que em dezembro de 2009 assolou o Oeste com ventos ciclónicos?
"A comparação direta com o Leslie não é totalmente correta", começa por esclarecer Margarida Belo-Pereira, meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). "O Leslie era um furacão. A Kristin resultou de uma ciclogénese explosiva", ou seja, um fenómeno meteorológico, que resulta de um processo de intensificação extremamente rápido de uma depressão atmosférica.
Ainda assim, os números obrigam a levar a comparação a sério. Enquanto o Leslie detém o estatuto de uma das tempestades mais marcantes da história recente, a depressão Kristin registou uma rajada máxima de 178 km/h, valor que a coloca no mesmo patamar extremo e, neste caso, acima do máximo oficialmente registado durante a passagem do furacão em 2018 (176 km/h).
Para a especialista em fenómenos extremos, o essencial está menos no rótulo do fenómeno e mais na intensidade do vento à superfície. "No caso da Kristin, os ventos mais fortes estiveram associados a um sting jet”, explica, descrevendo o fenómeno atmosférico: "É uma corrente de vento que desce de níveis elevados da atmosfera e que pode provocar rajadas muito intensas à superfície durante um período curto."
Essa característica ajuda a explicar porque é que os danos se concentraram em janelas temporais muito reduzidas. Em alguns locais, a depressão passou em poucos minutos, mas com força suficiente para provocar quedas de estruturas, árvores de grande porte e danos severos em edifícios e até vítimas mortais.
O que o Leslie deixou para trás
A passagem do furacão Leslie pela Figueira da Foz, na noite de 13 de outubro de 2018, provocou estragos generalizados. Árvores e estruturas caíram em vários pontos da cidade, as avenidas junto ao mar ficaram cobertas de areia e vários carros em circulação foram atingidos pela queda de árvores. Pelas 22:15, a cidade ficou sem eletricidade.
No distrito de Leiria, registaram-se dezenas de quedas de árvores, situação que se repetiu nos distritos da Guarda, Coimbra e Viseu. Em Coimbra, o vento começou a intensificar-se por volta das 22:45, mantendo-se muito forte às 23:15, com várias zonas da cidade sem energia elétrica.
No balanço final, o Leslie provocou 27 feridos ligeiros, 61 desalojados - 57 dos quais no distrito de Coimbra - e quase 1.900 ocorrências comunicadas à Proteção Civil. Das 1.890 ocorrências registadas, 1.218 corresponderam a quedas de árvores e 441 a quedas de estruturas, sendo o vento o fenómeno responsável pela esmagadora maioria dos incidentes.
Nesse sentido, e se contabilizarmos apenas as vítimas, a depressão Kristin é claramente pior, uma vez que provocou a morte a cinco pessoas.
O distrito de Coimbra foi o mais afetado, seguido de Aveiro, Leiria e Viseu. No total, mais de 324 mil pessoas ficaram sem eletricidade, cerca de uma centena de inundações foi registada e 200 linhas de alta e média tensão ficaram fora de serviço. A então EDP Distribuição declarou Estado de Emergência no distrito de Coimbra, o nível mais grave do seu plano.
Já a depressão Kristin chegou a deixar um milhão de casas sem eletricidade, sendo que a situação na zona de Leiria, claramente a mais afetada, ainda era bastante precária mais de um dia após a passagem da tempestade.
Percebe-se assim que o Leslie teve maior duração, um impacto mais prolongado no território e consequências sociais muito alargadas. A Kristin, por sua vez, concentrou a sua violência em janelas temporais muito curtas, com rajadas extremas associadas a um fenómeno específico.
"No caso da Kristin, estamos a falar de um sistema mais rápido, mas muito intenso", sublinha Margarida Belo-Pereira. "Este tipo de vento descendente pode causar danos severos em poucos minutos".
Os números confirmam isso: apesar de a depressão Kristin ter atravessado o país em menos tempo, provocou, segundo os dados conhecidos até ao momento, cerca de seis mil ocorrências.
Uma comparação mais próxima de 2009 do que de 2018
Do ponto de vista meteorológico, Margarida Belo-Pereira sublinha que a comparação mais justa não é com o Leslie, mas com a tempestade de dezembro de 2009 - conhecida como Xola - que também resultou de uma ciclogénese explosiva, associada a um sting jet.
"Em 2009, registaram-se rajadas à superfície na ordem dos 144 km/h", recorda. "Na Kristin, os valores registados foram superiores, o que nos permite dizer que, dentro do mesmo tipo de fenómeno, esta situação foi mais intensa."
A madrugada de 23 de dezembro de 2009 ficou gravada na memória da região como o dia em que o Oeste parou. Entre as 03:00 e as 04:30, uma depressão muito cavada atravessou Portugal de sudoeste para nordeste àquela velocidade, segundo o IPMA.
No concelho de Torres Vedras, o vento arrancou telhados, postes de eletricidade e árvores pela raiz, deixando um rasto de destruição que levou a Proteção Civil municipal a admitir a possibilidade de declaração de estado de calamidade pública. O responsável local falava então em "milhões e milhões de euros" de prejuízos.
Cerca de 70% do concelho ficou sem energia elétrica, com quedas generalizadas de postes de média tensão, e as comunicações foram severamente afetadas: só na região Oeste, 600 técnicos da Portugal Telecom foram mobilizados para tentar repor os serviços.
Os danos estenderam-se a parques de campismo, escolas, pavilhões municipais e estufas agrícolas, sobretudo na zona costeira de Santa Cruz e Praia Azul. No parque de campismo de Santa Cruz, tendas e equipamentos foram completamente destruídos, num cenário descrito por residentes na altura à TVI como "aflitivo".
Várias estradas nacionais ficaram cortadas devido à queda de árvores, nomeadamente no Oeste, em Santarém e em Lisboa, enquanto noutras regiões do país o mau tempo provocou cortes adicionais por neve e gelo. Em alguns concelhos, o abastecimento de água chegou a estar em risco devido à falta prolongada de energia.
Tal como na Kristin, a Xola caracterizou-se por ventos extremamente intensos concentrados num curto espaço de tempo, associados a um sting jet. A diferença esteve na magnitude máxima das rajadas e no contexto territorial.
Mais uma vez, em termos de vítimas mortais ou de casas afetadas, a depressão Kristin foi consideravelmente pior que a Xola.