“Aqui ando sozinho”. Manuel está em cima do telhado e como ele há mais

Tiago Palma , texto e fotos
1 fev, 08:00
Reportagem: Tempestade Kristin em Soure

REPORTAGEM || Em Soure, o vento ficou com um número e as casas ficaram com buracos. Na passagem da depressão Kristin, o IPMA registou uma rajada de 208,8 km/h numa estação a 524 metros de altitude. Cá em baixo, entre Sobral, Vale da Borra e Casalinhos, a história faz-se de chapas torcidas, cortes de luz e homens a subir a escadas para tapar a casa antes que volte a virar o tempo. Este sábado, duas quedas durante reparações de telhados mataram um homem de 66 anos em Bárrio, concelho de Alcobaça, e outro de 73 no concelho da Batalha

A rajada ficou escrita lá em cima. Vamos a Soure, vila do distrito de Coimbra, por causa de uma nota pequena, quase burocrática, mas com um número que parece impossível. Na passagem da depressão Kristin registou-se ali uma rajada de 208,8 quilómetros por hora, medida numa estação a 524 metros de altitude, o ponto onde o vento costuma ser mais bruto, mais inteiro, mais fácil de medir. O valor fica lá em cima, limpo, científico. Cá em baixo o vento não se mede, vive-se.

No centro há árvores tombadas e serradas, mas a cidade insiste no seu normal, varre a entrada e chama a isso recomeço. As pessoas passam, os carros passam, e essa rotina só engana até se abrir a boca. A depressão é o assunto quase único, na porta dos cafés e nos encontros ao acaso na rua. Soure parece ter sobrevivido sem saber bem como, e isso cria um murmúrio de alívio e cansaço, um céu a ser vigiado com o canto do olho, uma conversa que nunca chega a fechar a frase.

Entramos no snack-bar Alice e o ar lá dentro tem aquele cheiro antigo de balcão, café puxado a correr e comida feita em chapa, um calor pequeno que fica no casaco. Alice está ao telefone atrás do balcão e fala da depressão com alguém como se a noite ainda estivesse a acontecer. Pedimos um destino, uma direcção simples, um sítio onde o estrago se veja. “Sobral” vem logo, e vem com um itinerário claro, quase doméstico, direita, esquerda, direita, em frente, até não dar mais, depois vem um stand, não de automóveis, de tractores, já depois da linha do comboio.

Só que a estrada mais directa para Sobral está cortada. Há trabalhos na rede eléctrica, equipas na berma e um camião-grua a erguer-se como um braço de ferro. Um poste alto prende os olhos, electricidade aqui é um trabalho à vista, e o mapa de Alice, tão seguro, fica logo desfeito. A volta torna-se maior, mais lenta, e vamos a olhar para placas e cruzamentos com a atenção de quem anda fora do hábito. O concelho ali não é o do trajecto certo, é o do desvio e da hesitação. A tempestade não levou só telhas, baralhou também o caminho e a confiança que ele costuma dar.

Ao sairmos do centro a paisagem muda. Os cabos passam por cima da estrada com uma ligeira barriga, a pender, como se algo lhes tivesse ficado preso. Há mais árvores caídas, outras inclinadas, e muitas já cortadas, serradas ao meio, encostadas às bermas. Vemos carros ligeiros encostar e parar, não camiões de madeireiros, só gente a abrir a bagageira, a medir troncos com o olhar, e a levar um ou dois troncos, o inverno a aproveitar o que ficou à mão.

Quando chegamos a Sobral há água onde não devia haver água. Terrenos alagados, quase arrozais sem arroz, bermas cheias de lama e de restos de ramos e folhas. Aqui e ali chapas dobradas, pedaços de cobertura, um painel fotovoltaico no chão com o vidro estalado a apanhar a luz baça, o vento arrancou e largou tudo sem olhar para trás, limpo de remorsos. E há pessoas a varrer pátios, a amontoar galhos, a fazer a primeira arrumação depois do susto, a tentar devolver forma ao que ficou torto. O concelho vai ficando contado por estes gestos. Um silêncio de campo encharcado. Uma vassoura.

A tempestade aparece em fragmentos pelo caminho. Uma árvore arrancada pela raiz, a terra levantada inteira. Uma vedação com uma placa branca rasgada presa no arame. Uma linha de eucaliptos vergada para o mesmo lado, todos a obedecer ao mesmo empurrão. Um parque solar com estruturas metálicas colapsadas e painéis espalhados na erva, dominó em terra vermelha. Uma capela pequena com uma árvore tombada quase por cima, a cruz de pé, o sino quieto. E mais tarde, já perto da linha do comboio, uma fábrica desfeita, o tecto arrancado, detritos junto aos carris, uma chaminé ao fundo a marcar a vertical onde quase tudo caiu.

Avançamos e uma placa interrompe a linha do caminho. Vale da Borra. Ao longe há um homem num telhado íngreme a mover-se devagar, com a cautela de quem conhece o peso do corpo e o perigo das telhas molhadas. Encostada à casa uma escada de alumínio. O telhado baixo está ondulado, telhas fora do sítio, desalinhadas. Há buracos que se denunciam pela luz que entra onde não devia entrar.

No quintal um estendal atravessa o espaço e segura roupa, um pequeno catálogo de rotina pendurado ao sol como se o vento não tivesse passado por ali. Irene Ferreira Carvalho está ali com um chapéu azul tipo bucket e um avental aos quadrados com bolsos, e a roupa no estendal ajuda a perceber que esta casa não é uma fotografia, é uma vida em andamento. No telhado está Manuel Mendes Marques. Irene olha para cima com a frase que se repete como ordem e oração. “Ele já não pode”.

Estão no mesmo lugar mas não estão no mesmo plano. Manuel no alto, lento, concentrado, a escolher onde apoia o pé. Irene cá em baixo, imóvel e alerta, os olhos presos na escada, olhar que tenta segurar o que as mãos já não seguram. Há cálculo ali, sem dramatização. A inclinação do telhado. A telha molhada que escorrega. A escada encostada sem corrimão nem margem. A idade dele lá em cima, o corpo a pedir para não subir, a necessidade a empurrar na mesma. E a casa não é só a deles. Ao lado está a casa da filha, também destapada. O carro apanhou com telha e ficou “todo picado”. Manuel aponta ainda para a garagem, onde “a trave caiu” e “as chapas voaram”, uma tempestade com pontaria cega para as coisas que dão mais trabalho a pôr de pé.

A madrugada foi “horrível”, e Irene volta à palavra como se ela ainda estivesse a bater nas portas. “Foi horrível”. O que ficou na memória não foi uma imagem, foi som, “muito barulho”, portas a bater e coisas a cair, telha a levantar e a cair de novo “sobre o telhado”. Acordou com aquilo e veio a pergunta pequena de casa pequena quando a casa abana. “Deixaste as portas abertas?. Estava tudo fechado. A luz caiu logo. “Por acaso, nós nem tínhamos velas”. Ficou no quarto às escuras. “O que é que eu ia fazer, não via nada”. E a frase sai simples, sem pose, quase como acção. “Pede-se a Deus, pede-se”. Irene segura-a logo com outra. “Graças a Deus eu tenho fé”. Só depois, quando se levantou, “vi a luz do dia”, abriu as janelas e foi ver se “caiu alguma coisa”, porque ouviu “um trambolhão tão grande” que não dava para ficar quieta. Lá dentro, por enquanto, “estava tudo bem”. Cá fora não. Buracos no telhado, “um buraco daqui, dali também”.

Falamos do que vem aí, da outra tempestade prevista, e o medo aparece sem enfeite. “Tenho muito medo”. Irene repete. “Quando eu vejo o vento, fico logo aflita”. Distingue o que molha do que arranca. “É o vento que arranca tudo”. E o olhar vai ao telhado como quem olha para uma ferida recente e para a mesma ferida antes de fechar.

Manuel, lá em cima, não faz de si um herói. “Não tenho idade para isto”. Sobe com cuidado por onde o corpo ainda deixa e evita pôr-se a caminhar no cimo do telhado, sobretudo quando está molhado. A inclinação é muita, a telha escorrega. “Estão escorregadias e tem muita inclinação”. Quando dá, trabalha por dentro, a partir de baixo, a assentar telhas no sítio sem confiar o peso do corpo ao lado mais traiçoeiro. Um método aprendido à força, telha a telha, à espera de um bocado de seco. Vê-se no telhado que o tempo ali não é só o desta semana. As telhas têm musgo e verdete. As chaminés recortam o céu, gastas, manchadas. Uma antena ainda resiste. E há uma abertura pequena mas decisiva, luz onde não devia entrar, o tecto a falhar, a casa a ficar exposta outra vez.

Falamos do que custa e do que falta, e a conversa cai onde cai sempre nestes lugares. Não é só o telhado, é a falta de gente para o arranjar. “Não há a quem falar”, operários, pedreiros, ninguém. Mesmo que houvesse, não era para estas carteiras. As telhas que Manuel vai pondo são antigas, guardadas de outros tempos, um stock de emergência sem saber que era emergência. As reformas aparecem então em número, sem drama, só medida. “Quatrocentos e cinco”, cada um. E percebe-se por que razão o telhado se faz assim, devagar, por dentro, com o que há.

Irene interrompe de repente, lembra-se da frigideira ao lume e entra em casa, porque o almoço não espera pelo tecto. Cá fora fica Manuel e volta a noite sem voltarmos atrás no texto. “Fiquei assustado, muito assustado”. De manhã o susto tinha forma. “Telhas por todo o lado”, tudo espalhado, a casa a pedir mãos antes de pedir palavras. Agora o trabalho é isto, fechar antes que volte a virar. Manuel queria avançar mais hoje, tapar o que falta “antes que chovesse mais”, porque depois a água entra, corre para dentro, “dá um bocado no tecto”, e a inclinação não perdoa quando está molhado. E no meio da urgência, a frase que não é lamento, é constatação, fica a fazer o resto. “Aqui ando sozinho”.

Perguntamos onde há mais estragos e o dedo aponta para cima, para a serra.

Subimos. Há destruição e uma limpeza mínima para desimpedir estrada, quase ninguém, poucas casas, muitas fechadas, outras devolutas, um sítio onde o vento encontra também a ausência. O concelho ali em cima parece suspenso, à espera do próximo aviso. Descemos. Já rente à linha do comboio aparece uma fábrica completamente destruída, uma estrutura desfeita ao lado dos carris, o tecto arrancado com a facilidade brutal de quem tira uma tampa. Ficamos um instante parados. É o corpo a precisar de aceitar que isto também é vento.

Mais à frente há outro homem no alto de um telhado, dobrado sobre as telhas, um pé ainda na escada, a ajeitar o que pode. Chama-se Jorge Silva, tem 70 anos, e estamos em Casalinhos. O céu está limpo e frio. No telhado há um buraco que se denuncia de baixo, uma aba levantada entre telhas, uma ferida recente. Jorge fala da madrugada com a precisão de quem contou as horas para não se perder. “Eram quatro e dez quando começou e acabou, eram seis horas”. Não dormiu. “Não pude dormir com o barulho”. Chapas a bater, “as rajadas do vento”, o som do zinco. O nome aparece quando não há outro. “O demónio”. Não é literatura, é ruído que não deixa o corpo descansar.

Perguntamos pelo medo e Jorge responde sem levantar a voz. “Digo-lhe francamente, eu não tive medo”. A frase que usa para atravessar a noite vem logo a seguir. “Seja o que Deus quiser, venha o que vier”. Ficou na cama. Não se levantou. Ouviu o vento e as chapas e esperou que acabasse. De manhã veio o resto. “O desastre”. Sem luz, sem água, sem telemóvel. O primeiro gesto foi o café porque ainda havia gás. “Café não pode faltar, é o principal”. Para beber e para cozinhar não depende da rede. Jorge guarda sempre água engarrafada, “um pack de seis” garrafões de litro e meio e ainda “dois ou três” maiores. Para a higiene, aí sim, é o poço com bomba. Mas sem electricidade a bomba não trabalha. “Sem electricidade não funciona, não”. A solução é o gerador que o filho comprou, para a casa e para a comida, para não deixar o frigorífico e a arca morrerem de vez, “que custa caro”. E há combustível guardado. “Eu tenho sempre gasolina de reserva”. A medida sai logo, prática. “Ao menos dez litros”. Gasóleo também, para o tractor e para o carro, para “nos podermos governar”.

As notícias sobre novas depressões não chegam pela televisão. Chegam pela boca de um amigo que aparece e avisa. O amigo pede-lhe para esperar, para não fazer já certos caminhos, vem aí mais chuva, mais vento, mais falta de luz. A meteorologia para estas casas não é um canal. É uma visita.

Jorge mostra o que fez primeiro. A casa do irmão, emigrante, antiga casa dos pais, contígua, ficou aberta e era isso que interessava, tapar para “não chover lá dentro”. O filho veio com a escada e, juntos, foram compondo o que dava, porque “o dinheiro também não anda a correr muito às ruas”. Agora, no telhado pequeno de arrumos, Jorge vai “andando devagar”, a ajeitar telha e chapa onde consegue, uma coisa cada vez. O telhado de chapa da casa onde vive resistiu e Jorge aponta o motivo sem romantismo. O pedreiro “trabalhou bem”. “Está bem seguro”, com “massa e betão bom”. Ainda há pouco o pedreiro “veio saber se não havia desastres”, passou ali, olhou, perguntou, e esse gesto curto num dia destes conta.

Depois vem o interior dos anexos e dos animais, a tempestade com lama por todo o lado e água a entrar onde não devia. “Como chove cá dentro”. Há palha, há zinco a bater, há madeira a pedir cuidado. No curral de blocos está uma porca grande. “Russa”. Jorge apresenta-a como se apresenta um membro da casa. “Os animais nestas alturas sentem muito”. Por dentro o telhado verga, traves de eucalipto a segurar o que ameaça cair. E há o que se fez por agora, “meter uns tijolos e blocos” para aguentar “se voltar”, para a chuva não entrar e para os animais não ficarem debaixo da água. O provisório que dá para fazer com as mãos.

No quintal passa um gato preto e branco. Arca branca, mesa de plástico, redes, recipientes. A normalidade possível é isto, continuar a circular entre os restos. Ao longe a mulher francesa anda na limpeza e não entra na conversa. Jorge fala dela sem a chamar, fala dos filhos repartidos entre França e Portugal, “tanto são portugueses como são franceses”, e chega ao nó simples destes dias. Os de fora “apanham pela internet” o que se passou. Depois é mais difícil conseguir dizer ao outro lado que está tudo bem. Sem rede e sem telefone cá dentro não há como responder. A tempestade também é isto. Ficar sem maneira de avisar.

Jorge fala do corpo como fala do resto, sem pedir licença ao drama. A mão direita falha. Mostra-nos o punho e a história vem atrás, certinha. Partiu-o a trabalhar em pedreiro. O patrão não quis aceitar. “Não quis considerar isso como acidente de trabalho, não”. Ficou sem a força que tinha, deixou de conseguir fazer o tempo completo, teve de se virar. Passou a meio tempo. Depois foi para uma sucata. “Ia buscar carros à esquerda e à direita”, o que aparecesse, para continuar a governar-se. A reforma é pouco, de emigrante. Mostra a mão outra vez, sem vergonha e sem pose, e a fotografia apanha-a de perto, pele gasta, veias em relevo, o corpo a guardar contas antigas. Depois aponta para as pernas e a frase sai como sai a quem se conhece. “As pernas não querem”. Mas logo a seguir vem o resto, a parte inevitável. “Temos que ganhar força”. Não é coragem. É falta de alternativa. A casa aberta não espera. E volta a subir o escadote. 

O isolamento em Vale da Borra e em Casalinhos não é só de estrada. É de notícia. Sem luz não há televisão, sem rede não há chamada, e o que se sabe do que vem a seguir chega por boca. Um vizinho que passa. Um amigo que aparece e avisa. “Vem mais chuva, vem mais vento”, e essa frase pesa porque não é previsão, é recado. Quem está fora vai vendo pela internet o que aconteceu, mas cá dentro nem sempre há maneira de responder. A tempestade também fica nisto, silêncios, sinal que vai e vem, a sensação de estar dentro do mapa e fora dele.

Não eram os únicos homens em telhados que encontramos, nem eram só de Soure. Por todo o lado, gente sem perícia e sem segurança sobe a escadas e põe o corpo onde não devia pôr o corpo, porque a alternativa é deixar a água entrar, deixar a casa apodrecer, esperar por alguém que não vem. As urgências vão recebendo quedas de limpezas e reparações feitas à pressa. Neste sábado o último balanço do Hospital de Leiria, distrito mais afectado pela depressão, falava em 485 entradas por traumas ligados a trabalhos de reconstrução depois da Kristin, 92 só nesse dia. E, quando a reportagem já estava feita, soube-se de duas mortes nessas circunstâncias, quedas de telhados enquanto se tentava repor o que o vento arrancou. Um homem de 66 anos morreu numa queda durante a reparação de um telhado, na Rua Quinta de Fora, em Bárrio, concelho de Alcobaça. Um homem de 73 anos morreu no concelho da Batalha, durante a reposição de telhas numa habitação. A tempestade para eles não acaba quando o céu abre.

Voltamos à estrada. O céu está limpo em certos pontos e pesado noutros, ainda indeciso. A rajada recorde fica guardada num gráfico lá em cima. Cá em baixo fica uma coisa mais simples e mais perigosa, uma escada encostada a uma parede, um homem a subir devagar, e uma casa a depender disso, entre a telha molhada de hoje e o vento de amanhã.

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