Os últimos 30 quilómetros de autoestrada, entre Alcobaça e Leiria, são uma espécie de contagem decrescente para um destino que, pela primeira vez, eu não desejava.
Não há imagem, reportagem ou relato dos dias anteriores que me tenha preparado para o que encontrei. Florestas cortadas a pente zero, empresas que parecem papel amachucado, casas decapitadas, carros esmagados pela força das árvores. Veio-me à memória o cenário que encontrei no Japão, em 2011, depois do tsunami que afetou a zona de Fukushima. Leiria não foi engolida por uma onda gigante, mas a força do vento varreu a região para um sítio profundo e de onde vai ser muito duro sair.
Três dias depois da passagem da tempestade Kristin, a chuva e o vento davam a primeira trégua. A estrada que dá acesso à aldeia dos meus pais está transformada numa gincana, feita de terra, muros, árvores e postes que tombaram para onde o vento os mandou tombar. Pelo caminho, cruzo-me com uma retroescavadora, dois polícias a gerir o trânsito, alguns técnicos das empresas de telecomunicações de olhar impotente e nada mais. Não há um bombeiro, um elemento da proteção civíl, muito menos militares a ajudar. É como se aquela gente, além da condenação material, tivesse como pena acessória ter ficado apátrida.
Na aldeia, está tudo na rua, como se fosse dia de festa. Muitos, como eu, vêm de longe, para ajudar os seus - e para ver e sentir o que nenhuma televisão conseguiu até àquele dia transmitir. Pega-se no que se tem ali mais à mão: tratores, carrinhas, carros, escadas e escadotes. Quem só tem dois braços arregaça as mangas e faz-se ao caminho. É preciso encontrar telhas, lonas ou qualquer outro material que impeça a chuva de voltar a cair dentro de casa. E a chuva vem aí. Há quem ande de porta em porta a perguntar se alguém precisa de comida, de água ou medicamentos. Há mini-mercados que estão a vender fiado, como se fazia antigamente. Há quem deixe a sua própria casa, também ela com prejuízos avultados, para ir ajudar a casa do vizinho que ficou ainda pior. Há quem desabe a chorar no meio da estrada porque perdeu tudo.
A solidariedade é, provavelmente, a única coisa bela que pode resultar de uma tragédia. Mas se o Estado nos falha na nossa hora mais negra, não há solidariedade que consiga impedir a revolta.
Durante cinco longos dias, enquanto milhares estavam às escuras, o Governo avaliava a dimensão da catástrofe. Durante cinco longos dias, enquanto o Governo fazia reuniões, homens, mulheres e crianças viam-se obrigados a subir aos telhados molhados, correndo risco de vida, para tentar impedir que lhes chovesse (ainda mais) em casa. Durante cinco longos dias, enquanto centenas de milhares de famílias tentavam sobreviver sem água, sem comunicações, sem um teto, à chuva e ao frio, o Governo passeava-se pela região centro e gravava vídeos para o Tik-Tok.
Na resposta imediata à tragédia, não houve uma voz de comando que soubesse o que era preciso fazer e coordenasse a ajuda que era preciso fazer chegar às cidades, vilas e aldeias afetadas pela tempestade. E o que era preciso, numa primeira fase, não era dinheiro, era ajuda humana e material. O que as pessoas precisam é de quem lhes leve telhas, lonas, geradores e mantimentos. Precisam de quem os ajude a repor os telhados em segurança, de quem lhes retire os postes e os pinheiros de cima das casas e dos carros. E não é daqui a uns dias, ou daqui a umas semanas, é já.
Quase uma semana depois, o Governo parece, finalmente, começar a compreender o que aconteceu na região centro. Vêm aí agora medidas de apoio, os militares foram finalmente chamados para ajudar e os ministros desdobram-se em promessas de celeridade no apoio às populações e empresas. “O Governo está todo mobilizado”, garante-se cinco dias depois. Veremos.
Por estes dias, foram os autarcas que salvaram a honra do Estado. O de Leiria e os dos concelhos que foram mais afetados pela tempestade. Foram eles que estiveram ao lado das populações, que improvisaram soluções e ainda foram eles que tiveram de explicar à ministra da Administração Interna como é que ela devia fazer o trabalho dela.
Maria Lúcia Amaral é uma metáfora política da ineficiência do Estado central. Sem autoridade, sem iniciativa e sem soluções. Para defesa da sua própria dignidade e por dever patriótico, Maria Lúcia Amaral devia pedir ao primeiro-ministro a demissão com efeitos imediatos e acabar de vez com esta vergonha alheia que representa para o país. Deixar de ser um estorvo político e ser devolvida à procedência, já que o cargo de provedor de justiça ainda está vago.
Ninguém está preparado para o desconhecido. Quando o vento corre a 200 quilómetros por hora, pode não haver ciência, obra de engenharia ou política pública que antecipem totalmente — e muito menos evitem — uma tragédia. Não é possível parar o vento com as mãos, mas tem de ser possível responder de outra forma a uma catástrofe.
Ao subir ao telhado da casa onde cresci, olhei à volta e vi centenas de pessoas noutros telhados, de outras casas, a fazer o mesmo que eu. O que eu não vi, nem nos telhados, nem nas ruas, foi o Estado e quem o representa.