"Estávamos completamente sozinhos num cenário de guerra": autarcas queixam-se de falta de contacto por parte do Governo após passagem da depressão Kristin

30 jan, 00:33
Efeitos da tempestade Kristin em Leiria (Paulo Novais/LUSA)

Marinha Grande, Alcácer do Sal ou Castelo Branco. São vários os autarcas que se queixam de não terem obtido respostas por parte do Governo, que na quarta-feira garantiu estar "em contacto com as autarquias das regiões afetadas"

“SILÊNCIOS E UM GESTO. Connosco ninguém contactou. Contactou, por telefonema e mensagem, António José Seguro. De atuais órgãos de soberania, ninguém. Mas não faz falta.” A queixa foi feita esta quinta-feira por Pedro Santana Lopes, presidente da Câmara da Figueira da Foz, um dos concelhos mais afetados pela depressão Kristin, num claro contraste com as declarações de Luís Montenegro - que garantiu estar em contacto com as autarquias atingidas pela tempestade. 

Publicadas na rede social Facebook, as declarações de Santana Lopes, eleito com o apoio do PSD, surgem sob o título “Silêncios e um gesto” e estão associadas a uma hiperligação para um comunicado do Governo, divulgado ao final da tarde de quarta-feira, no qual o Executivo liderado por Luís Montenegro garantia estar “em contacto com as autarquias das regiões afetadas”.

“Estamos a fazer uma avaliação de tudo aquilo que são as consequências no terreno e de todos os instrumentos que podemos utilizar para uma reposição mais célere da situação e, portanto, para que possamos ter a normalidade completamente restabelecida”, disse Luís Montenegro aos jornalistas, depois de uma reunião na sede da Proteção Civil, em Oeiras, na quarta-feira. Segundo Santana Lopes, tal contacto nunca existiu com o município da Figueira da Foz.

"Estávamos completamente sozinhos, isolados do mundo"

Mas a Figueira da Foz não é caso único. Também a Marinha Grande, outra das regiões afetadas pela depressão Kristin, viveu momentos de isolamento e falta de resposta institucional nas primeiras horas do temporal. O presidente da Câmara, Paulo Vicente, admite à CNN Portugal que os primeiros contactos formais só ocorreram já esta quinta-feira, com uma particularidade: foi a Câmara quem contactou o Executivo de Montenegro.

"Nós é que contactámos o Governo", começa por dizer o autarca. "Não vejo que isso fosse falta de interesse de parte do Governo, até porque não tinham acesso às comunicações. Mas, de qualquer maneira, os nossos telemóveis, depois de reposta a rede, também não nos acusaram de qualquer contacto."

O presidente da Câmara da Marinha Grande recorda que, na quarta-feira, o dia em que a tempestade atingiu maior violência, realizou-se uma reunião em Leiria com a presença de membros do Governo, à qual o município não foi convocado. Ainda assim, decidiu deslocar-se ao encontro por iniciativa própria.

“Ontem tivemos a reunião em Leiria, à qual não fomos convocados, mas sabendo pela comunicação social que o secretário de Estado da Administração Local, da Proteção Civil e da Energia estariam em Leiria, nós fomos ao local expor a nossa situação e pedir reforço de meios. Fomos por iniciativa própria", refere o autarca, eleito pelo Partido Socialista.

Paulo Vicente descreve um cenário de isolamento absoluto. “No dia de ontem ficaram completamente sozinhos. Completamente. Desde as quatro da manhã de ontem até hoje de manhã nós estávamos fora do mundo, num cenário de completa guerra, de catástrofe. Estávamos completamente sozinhos, isolados do mundo”, afirmou, acrescentando que os reforços começaram a chegar apenas depois de a comunicação social ter dado a conhecer a realidade no local. "A ajuda está a começar agora a chegar. Até aqui não."

O município mantém ativo o plano municipal de emergência, persistindo interrupções no fornecimento de energia elétrica, nas telecomunicações e no abastecimento de água. As escolas permanecem encerradas, sem data para retomar as aulas, e não existe ainda previsão para a normalização dos serviços essenciais.

Castelo Branco fala numa situação "incompreensível"

Também em Castelo Branco, o presidente da Câmara, Leopoldo Rodrigues, fala em ausência de apoio direto do Governo. “Da parte do Estado não temos nenhum apoio nem disponibilidade nenhuma. Nós não fomos contratados por ninguém, seja do Governo, seja de alguma direção geral ou de outra coisa. Isso não aconteceu.”

“Não recebi nenhum contacto. Ontem de manhã [quarta-feira] falei com um membro do Governo, alertei para a situação de Castelo Branco e para os graves prejuízos, bem como para o momento muito difícil que a Câmara e o município estavam a atravessar. Disseram-me que depois me contactariam, porque estariam a equacionar estas situações, mas não me disseram mais nada", revela à CNN Portugal, sublinhando que esta quinta-feira voltou a estabelecer contacto com o mesmo membro do Governo, pois não recebeu "nenhuma indicação relativamente ao facto de Castelo Branco e dos municípios da Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa poderem vir a ser abrangidos pelo estado de calamidade”.

O presidente da câmara, eleito pelo PS, mostra-se particularmente apreensivo com a possibilidade de o território ficar de fora dos mecanismos de apoio nacionais. “Considero isso muito preocupante. Se assim for, será incompreensível porque, de facto, os prejuízos são muitos - prejuízos particulares, de empresas e também públicos -, e são situações muito críticas que importa resolver e para as quais é fundamental ter os meios necessários.”

Castelo Branco foi outra das localidades fortemente atingidas pelo vento provocado pela Kristin, que provocou a queda de centenas de árvores por todo o concelho, danos em viaturas, telhados arrancados e uma destruição significativa no Parque Urbano Cruz do Montalvão.

A situação levou o município a receber gestos de solidariedade por parte de outros municípios e de figuras políticas fora do Governo. “Chegou-nos sim do meu colega da Covilhã, do meu colega de Penamacor, do meu colega de Espinho, também o secretário-Geral do Partido Socialista me ligou e o António José Seguro também já fez o mesmo, mas pela parte do Governo efetivamente não temos nenhum contato.”

Alcácer do Sal teve de "tomar a iniciativa"

Em Alcácer do Sal, a presidente da Câmara, Clarisse Campos, confirma igualmente a ausência de um contacto inicial do Governo. “Não recebi nenhum contacto. Por acaso fui eu que tomei a iniciativa ontem, quarta-feira, de ligar ao senhor secretário de Estado da Proteção Civil”, que, acrescenta, "se disponibilizou para ajudar no que fosse necessário".

A autarca destaca que a maior preocupação passa agora pelos apoios pós-catástrofe. “Ainda não temos respostas”, afirma, referindo que, pelo que leu nas decisões do Conselho de Ministros, numa primeira fase, o Governo "considera abranger um número muito reduzido de concelhos”, pelo que irá "batalhar para que haja um outro olhar para o nosso concelho.”

Com o objetivo de obter esses apoios, o município prepara-se para pedir formalmente ao Governo que seja decretado o estado de calamidade. A depressão Kristin provocou nas últimas horas inundações provocadas pelo galgamento do rio Sado, que obrigaram à evacuação preventiva de um lar de idosos, com 20 utentes transferidos para outra unidade na zona alta da cidade. A presidente da autarquia mostra-se preocupada com o futuro.

“Quando a água baixar e nós pudermos chegar aos locais mais afetados para fazer uma avaliação dos danos, o meu contacto terá, obviamente, de ser com quem nos puder ajudar. Daí o meu apelo: que se olhe para o nosso concelho, que se olhe para esta baixa de grande densidade, e que se perceba que, se calhar, era importante que ficássemos abrangidos pela declaração de estado de calamidade”, apelou ainda a presidente da Câmara.

Consequências da Depressão Kristin em Alcácer do Sal (RUI MINDERICO/LUSA)

Águeda garante estar em contacto com o Governo

Mas as queixas não são comuns a todos. Num registo diferente surge o concelho de Águeda, que elogia a posição que tem vindo a ser adotada pelo Governo. 

“Tenho estado a falar com o secretário de Estado das Autarquias Locais, Silveira Regalado, tenho falado várias vezes com ele, e tenho estado em permanente contacto com o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente,José Pimenta Machado”, conta o deputado eleito pelo PSD.

O autarca considera que a situação em Águeda está controlada e sublinha que, neste momento, o concelho "não precisa de nenhum apoio adicional": "Precisamos que pare de chover”.

Apesar do transbordo do rio Águeda e das inundações em campos e ruas, o autarca sublinha que "o sistema de drenagem da baixa da cidade voltou a impedir cheias mais graves, evitando danos significativos na zona histórica". Ainda assim, nas últimas horas, vários campos e ruas ficaram inundadas, deixando alguns carros submersos e chegando a ameaçar casas.

Torres Vedras garante que a situação "está estabilizada"

Também em Torres Vedras, segundo fonte da Câmara, governada com o apoio do PSD, não há queixas de falta de apoio. O secretário de Estado da Proteção Civil, segundo a autarquia, “contactou esta quinta-feira a CIM [Comunidades Intermunicipais em Portugal]", garantindo assim uma “articulação com os municípios”

A Câmara, liderada pelo independente Sérgio Galvão, acrescenta que a “situação está mais estabilizada no concelho”. Na localidade, os principais problemas identificados foram "o abastecimento de água e o fornecimento de eletricidade, resultantes de ruturas de condutas e danos na rede elétrica, estando os serviços municipalizados e a E-Redes a tratar da reposição", acrescenta fonte do município à CNN Portugal.

Luís Montenegro deslocou-se a Leiria para se inteirar das dimensões dos estragos provocados pela depressão Kristin, onde avisou que, nos próximos dias, haverá "alguns riscos" associados à meteorologia e prometeu um "conjunto de instrumentos" para apoiar os mais afetados. 

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