Só se fala (e bem) da tragédia que assolou parte do país, e da tragédia adicional que tem sido a resposta das autoridades centrais. Mas no domingo há eleições presidenciais. Que efeito terá, na hora do voto, este Governo que atua como uma galinha sem cabeça? Reforçará a confiança no candidato ponderado e quase invisível, ou a crença no candidato da revolta e do abanão no sistema? Ou reforçará a descrença nisto tudo?
Na quinta-feira da semana passada, 29 de janeiro, afazeres que não vêm ao caso levaram-me ao Ribatejo. Dei por mim no distrito de Santarém, a 70 quilómetros de Leiria, e a ver aquilo que ainda não sabia pelas notícias. Árvores caídas, estradas alagadas, estradas cortadas, localidades sem eletricidade, sem água, sem rede de telemóvel, sem dinheiro nas caixas multibanco. A vila onde tive de parar estava assim desde a véspera. Há 24 horas.
Num café onde havia eletricidade pude beber uma bica, comer um bolo com ar de ser do dia anterior e comprar um pão de Rio Maior, como se impõe por ali. Foi tudo o que pude consumir com o dinheiro que tinha no bolso – o terminal multibanco não funcionava, a caixa ali perto também não.
Os pães que sobravam na vitrine desapareceram em dois tempos, muitos deles vendidos à confiança, para “pagar depois”. No Continente ali ao lado também não havia multibanco, mas ninguém vendia fiado. Ao balcão do café, o dono e um freguês falavam do Benfica da véspera. Uma noite gloriosa, 4-2 ao Real Madrid, um golo de cabeça do Trubin no último minuto, e o cliente ouvia tudo isto como se lhe estivessem a descrever uma nova espécie de elefante voador. Por ali ninguém tinha visto o jogo, não por falta de benfiquistas, mas por falta de televisão. Não havia televisão desde a tarde da véspera. Nem rádio, já agora. Um soubera dos acontecimentos do Estádio da Luz porque, por uma espécie de milagre, lhe tinha caído uma mensagem no telemóvel. Eu, que tinha visto o jogo em direto, sentia-me num episódio de Twilight Zone, pois estava rodeado de gente que não sabia o que se passava fora da vila. De vez em quando, alguém ia à porta do café a ver se tinha rede. As poucas pessoas que andavam na rua deambulam como zombies à procura do mesmo.
Menos mal: o telefone fixo do café funcionava e não parava de tocar. Sim, tinham eletricidade. Sim, iam servir almoços. Sim, a Dona Conceição estava ali – “Dona Conceição, é para si!” A mulher levanta-se da mesa onde discutia o temporal dessa noite com duas conhecidas. Desliga o telefone e volta com novidades, que anuncia a todo o café com voz de cana rachada: “Olha, a internet está escavacada daqui até 600 metros”. Toda a gente se mostra impressionada. “Isto é inadmissível!”, “Este país está perdido”, e desfiam todo o rol de problemas que qualquer português conhece: saúde, reformas, falta de casas… Estranhamente não vociferavam contra os imigrantes. Talvez porque um dos funcionários do café é brasileiro… e dois clientes são o que Ventura chama de “indostânicos”. Há muitos por aquela região, o que tem feito subir as votações do Chega no distrito de Santarém.
Fala-se das muitas falhas do Estado, mas ninguém fala de políticos. Estamos a 100 km certinhos do Palácio de Belém, e a 96 km da Residência Oficial do primeiro-ministro, em São Bento. Há uma campanha presidencial a decorrer, ainda há menos de 48 horas tinha acontecido o grande frente-a-frente da segunda volta entre Seguro e Ventura. Mas ninguém fala de política mesmo quando protesta que “este país está perdido”. Para quê? O freguês que ainda há pouco imaginava o cabeceamento do Trubin sentencia sem pingo de dúvida: “Vão criar uma comissão de inquérito para atirar areia para os olhos.” Não há quem discorde.
A Dona Conceição, mais vivaça do que as outras, arremata todos os pãezinhos que sobram. Já não há pão grande, vai do pequeno. Saio com o meu na mochila também.
A catástrofe que o Governo viu pela televisão
Mal sabíamos, todos – eu e os meus companheiros de café –, que a falta de luz, de televisão, de rádio, de rede de comunicações, de dinheiro no multibanco, não era nada. Perto dali, dezenas de milhares de pessoas começavam uma longa provação que em milhares de casos prossegue até hoje. Não era só a internet que estava “escavacada”, e não era só num raio de 600 metros. Eram dezenas de concelhos, dos distritos de Leiria, Coimbra, Santarém... Mas essa consciência demorou.
Quando consigo sinal de rádio, já em direção a Lisboa, ouço as primeiras notícias sobre cinco ou seis mortos em Leiria (a autarquia e a Proteção Civil não se entendiam sobre esse facto básico) e sobre um desastre que, ali tão perto, ninguém imaginava. Melhor do que eu, o Anselmo Crespo descreveu-o na primeira pessoa, com o desgosto de filho da terra.
A catástrofe passou pelas terras na noite de terça-feira, e na quarta passou na televisão. Aparentemente, só nesse momento o Governo se deu conta dela. É natural, pois a rede de comunicações de emergência voltou a falhar.
Luís Montenegro tardou a dar sinal de vida, mas lá desceu à terra numa aparatosa caravana de automóveis pretos de alta cilindrada, imagem a que alguém acrescentou, nas redes sociais, a Marcha Imperial de Darth Vader (esse alguém foi Volksvargas, o influencer satírico que o primeiro-ministro prometeu processar por “desinformação”). Como é evidente, não é o PM quem paga as portagens – somos nós todos. Só depois das imagens na televisão; e ainda depois dessa visita ao terreno do “comandante em chefe”, foi declarado o estado de calamidade. Mas aos bochechos, claro, com prazos curtinhos, que um dia destes pode aparecer um arco-íris e tudo ficará bem.
Neste momento, uma semana depois, estão sob estado de calamidade 68 municípios. Diz a Lusa que é cerca 17,1% da população residente em Portugal e 16,7% da área total do território continental. É um território altamente industrializado, onde se localizam muitas empresas fortemente exportadoras – setores como moldes, componentes e vidro têm ali o seu epicentro. Mas não só: está na região Oeste muita da produção nacional hortícola e frutícola. E importantes pólos piscatórios. Já seria uma tragédia se a tempestade afetasse pessoas, lares e pequenos negócios. Mas está ali concentrada uma boa fatia do PIB nacional.
E o Óscar vai para…
Infelizmente, milhares de empresas e famílias continuaram e continuam sem teto, sem água, sem eletricidade e sem gasolina. E sem televisão, nem rede, nem internet, nem sequer onde carregar um telemóvel. Por isso não puderam comover-se com o esforçado trabalho que o ministro António Leitão Amaro fez por si. Por si, cidadãos e empresas, mas sobretudo por si, ministro. Pelo que se viu, Leitão Amaro trabalhou a cores e a preto e branco, pelo telemóvel, pelo computador e pelo walkie-talkie, sem casaco mas de camisa impecavelmente engomada, e até roendo as unhas, por vezes em câmara lenta. A bem da Nação, partilhou nas redes sociais um dramático vídeo dessas horas de labuta pelo plano perfeito.
Os destinatários desse esforço nunca saberão, pois o vídeo foi retirado das redes, pelo próprio ministro, por indecente e má figura. Nunca se aplicou tanto o chavão narcisista “felt cute; might delete later”. Ou o verso do Variações: “quando a cabeça não tem juízo, a unha é que paga”.
Menos ação, mais palavras
É escusado elaborar muito sobre a sucessão de asneiras protagonizadas pelos membros do Governo nestes dias. A ministra da Administração Interna que saiu do buraco onde vive para se confessar ministra estagiária, tagarelando a propósito de tudo e de nada sobre “aprendizagem coletiva”. A mesma ministra, que por boas razões é mantida longe da vista dos cidadãos, a confessar: “não sei o que é que falhou, porque o sistema é complexo”. E o ministro intitulado da economia e coesão territorial a dizer, sobre o que falhou, “também não sei”.
É o mesmo ministro que sugeriu às vítimas desta tragédia que usem “o ordenado de janeiro” para pagar estas despesas inesperadas (coisas básicas, como reconstruir uma casa, ou por-lhe um teto), e ainda sobreviver até ao fim do mês, quando chegarão 500 euros de apoio público. Também o mesmo ministro, Castro Almeida (que em tempos parecia um referencial de bom senso nesta agremiação a que chamamos Governo), a considerar “musculadas” medidas de apoio às empresas que basicamente passam por estas acionarem os seguros (que obviamente abrirão os cordões à bolsa, sem levantar inúmeras objeções em letras pequeninas das apólices sobre cláusulas de excepção das coberturas para reduzir ao mínimo as indemnizações a pagar – alerta de ironia!) e recorrerem a endividamento. Sim, endividamento: são isso as famosas linhas de apoio. Bem podem os empresários e cidadãos reclamar por apoios a fundo perdido… havendo, serão uma gota no oceano.
Como aceitar que nas primeiras 24 horas da tragédia tenham sido mobilizados quatro – 4!!!! – militares para o apoio no terreno? Como classificar a passeata do ministro Nuno Melo acompanhado de militares que montaram e desmontaram a tenda para o número de circo do ministro da Defesa? Como entender a obstinação do Governo em não ativar o mecanismo europeu de emergência, garantindo que temos tudo aquilo de que precisamos, incluindo geradores, ao mesmo tempo que gente por toda área afetada desespera por geradores que nem a proteção civil local sabe onde podem estar? Que conclusões tirar quando um autarca apela ao envio de mais bombeiros, porque a corporação da terra está exausta, mas ninguém lhe responde até ao momento em que a ministra da Administração Interna lhe chega ao município trazendo a salvífica cavalaria?
E o que dizer de um primeiro-ministro que debitou “condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida”? Importa-se de repetir? Como se perder a vida em circunstâncias destas dependesse de um ato de vontade, ou fosse castigo por falta de mérito… Aliás, Cristiano Ronaldo continua vivo, o que prova que precisamos de mais espírito CR7 e menos mortos em tragédias (mais uma vez: alerta de ironia). Mas também ouvimos o primeiro-ministro a esfaquear, outra vez, a língua portuguesa, falando em danos “muito vultuosos”. Muito gosta Montenegro de tapar o vazio da ação com pompa de palavreado. Já o ministro da Presidência a falar de “esta região interior do país” enquanto visitava Figueira da Foz, Pombal, Marinha Grande, Leiria… é só merecedor de vergonha alheia.
A derrota do Estado
A questão a que quero chegar é a seguinte: qual a consequência profunda da ação deste Governo que, mais uma vez, perante uma situação de crise parece uma galinha sem cabeça? Que no domingo reúne o Conselho de Ministros para aprovar um cardápio de medidas “musculadas” e na terça-feira se lembra de lhe acrescentar uma abolição de portagens nas zonas afetadas (mas só por oito dias, que não é preciso mais… e se for, haverá palco para outro anúncio). A quem serve este Governo em estado de calamidade?
É bom lembrar que no domingo vamos votar para eleger o Presidente da República (quem puder votar…). E que a campanha para a segunda volta foi praticamente dominada pela tempestade Kristin. Ouvi, numa rádio, alguém dizer: “esperemos que a política volte à campanha, porque até agora só se tem falado da tempestade”. Não esperava de um jornalista que aprecio tão fraco julgamento.
Falar da tempestade Kristin é falar de política. É falar de alterações climáticas (que o Chega nega que existam) e de emergência climática (expressão a que João Cotrim Figueiredo e a IL são alérgicos, ao ponto de quererem desmantelar a Lei de Bases do Clima). É falar do papel do Estado na prevenção e mitigação dos efeitos de fenómenos climatéricos extremos que já são comuns e serão ainda mais frequentes. É falar da prontidão da Proteção Civil, da resiliência das infraestruturas, da redundância dos sistemas, da capacidade de mobilização de forças humanas (nomeadamente militares) e de meios materiais (incluindo europeus) para acudir às desgraças. É falar da capacidade do Estado para dar resposta imediata, pronta e eficaz a cidadãos que ficaram sem nada ou muito pouco. Não no fim do mês, não com mais dívida, não dependendo dos humores das seguradoras no país das cláusulas de excepção. O Governo falhou em tudo isto; foram, mais uma vez, os autarcas a salvar a honra do Estado.
E os dois candidatos presidenciais? Para início de conversa, sabemos onde cada um se coloca perante as alterações climáticas: Seguro acredita que são um problema que precisa de resposta, Ventura acha que são uma fraude “da esquerda” e do “sistema” que precisa de ser desmascarada. A “fraude climática” é um dos fetiches da sua protegida Rita Matias.
Mas o que disseram e fizeram os candidatos nestes dias? André Ventura fez o espalhafato do costume. Distribuiu umas garrafas de água que carregou com ar de quem levava uma bigorna ao colo – foi ridículo, mas foi necessário, porque ficou filmado para o Tik Tok e até parece que o homem está mesmo a sofrer para ajudar os outros. Andou pelas zonas da tragédia sempre rodeado de comunicação social, vociferando contra tudo e contra todos. Num cúmulo de generosidade, mandou retirar alguns cartazes, para que as lonas possam ser usadas para cobrir casas. Suponho que, à falta de melhor, qualquer pessoa aceite dormir sob um teto com a cara de Ventura, desde que não lhe chova em cima. Chegámos a isto. Dá votos? É possível que sim. Sobretudo a parte de vociferar contra tudo e contra todos, que é o que muita gente quererá fazer.
Ao mesmo tempo, António José Seguro diz que foi visitar locais e pessoas afetadas, mas invisível, sem mediatismo. Perdeu em propaganda o que talvez tenha ganho em proximidade e atenção a quem sofria. E como sabemos que Seguro fez mesmo isso? Graças a dois ingredientes mágicos em política: credibilidade e seriedade – o candidato socialista tem e é reconhecido por isso. Dá votos? Em contexto de invisibilidade é duvidoso.
Em vez de fazer como Ventura e levar tudo raso no pacote de medidas apresentado pelo Executivo, num primeiro momento Seguro mostrou-se conformado com o que o Conselho de Ministros aprovou. Tanto quer mostrar-se moderado com o Governo, para não afugentar os eleitores da AD, que se esqueceu de olhar para as medidas em concreto. Se o tivesse feito, talvez com a ajuda de autarcas e de quem tem experiência nestes assuntos, perceberia que as medidas, não sendo más, são todas ou tardias ou insuficientes. E isso merecia crítica com firmeza. O cálculo eleitoral serve-lhe de pouco: os eleitores da AD deram 11% ao candidato presidencial do Governo. A moderação frouxa serve ainda menos: não será por acaso que Seguro está a descer nas sondagens conforme aumentam os indecisos.
Que efeito terá, na hora do voto, este cocktail? Reforçará a confiança no candidato ponderado e quase invisível, ou a crença no candidato da revolta e do abanão no sistema? Ou reforçará a descrença nisto tudo? Não sei.
Mas retive o que disse ontem um cidadão que falava com António José Seguro: “O meu receio é que, se isto continuar assim, se a chuva continuar, se as pessoas continuarem a viver dentro de casas onde chove, isto vai ser uma revolta social”.