Os próximos dias não deverão trazer uma repetição imediata da violência da Kristin, mas podem preparar o terreno para novos problemas, sobretudo se a depressão prevista para o dia 8 confirmar a trajetória mais direta sobre Portugal
Apesar de ainda se contarem os danos deixados pela depressão Kristin, os modelos meteorológicos já mostram novos sistemas a formar-se no Atlântico que poderão ameaçar Portugal. A questão não é se vai continuar a chover - isso é praticamente certo - mas sim se o país poderá voltar a ser atingido por uma tempestade mais intensa nos próximos dias.
Neste momento, a data que merece mais atenção é 8 de fevereiro, por coincidência o dia em que se realizará a segunda volta das eleições presidenciais. De acordo com Miguel Miranda, geofísico e ex-presidente do IPMA, os cenários de previsão apontam para a possibilidade de uma depressão "muito cavada" entrar no território continental. No entanto, o especialista sublinha que a data está no limite do alcance fiável das previsões.
"Nos limites da previsão, já se aponta para uma depressão muito cavada com uma interação significativa com a Península Ibérica no dia 8" de fevereiro, salienta Miguel Miranda.
Se a trajetória se confirmar, poderá ter impacto significativo em todo o país. Mas há uma palavra-chave repetida por ambos os especialistas ouvidos pela CNN Portugal: possibilidade. Também Margarida Belo-Pereira, especialista em fenómenos extremos, pede prudência. "É muito tempo, há muita dispersão". Os modelos já conseguem ver um "núcleo depressionário" a deslocar-se em direção às latitudes de Portugal continental, mas pequenas oscilações na rota podem fazer com que passe mais a norte ou que o eventual impacto só se sinta um dia antes, a 7 de fevereiro, ou um dia depois, a 9 de fevereiro, explica.
É por isso que Miguel Miranda insiste que a situação tem de ser acompanhada "dia a dia", mas não descarta que há um cenário em aberto que pode ganhar relevância à medida que a data se aproxima. Ou seja, o sinal existe, mas a localização e a intensidade finais ainda não estão fechadas. E enquanto as previsões não conseguem disponibilizar essas informações com grau absoluto de certeza, o país vai continuar sob influência de sistemas que passam mais a norte.
Para além desta depressão, há, no entanto, um outro momento a acompanhar e esse decorre já dia 3 de fevereiro. De acordo com Margarida Belo-Pereira, a previsão coloca o centro de uma outra depressão na zona da Galiza. Isso vai trazer "bastante precipitação a norte da Figueira da Foz", assim como vento, mas "não é a mesma coisa que uma que tem o núcleo a vir em direção a nós", como aconteceu com a depressão Kristin.
"No dia 3 é essencialmente no Norte", concorda Miguel Miranda.
Antes dessa data, não é esperado nada de particularmente severo. No entanto, a chuva deverá ser persistente e o resultado pode ser "crítico": com precipitação prevista praticamente todos os dias até "pelo menos dia 7", os solos saturam, os rios enchem e as barragens acumulam água, explica o especialista. "O efeito é cumulativo e seguramente que vai haver água em excesso nas barragens."
Predicción para el resto de semana:
— AEMET (@AEMET_Esp) January 29, 2026
🌊Temporal marítimo en el Mediterráneo, Cantábrico y litoral atlántico gallego; en el Cantábrico y Galicia será de peligro importante o extraordinario.
🌧️Lluvia en la península y Baleares, salvo el sábado que no será significativa.
(1/2) pic.twitter.com/YnAjhMPVXp
O sábado poderá dar alguma trégua, mas a partir de domingo regressa a precipitação significativa em todo o território, acrescenta o geofísico. Isto porque, tal como explica Margarida Belo-Pereira, "nos próximos dias temos no Atlântico Norte várias depressões a circularem" e, mesmo quando os seus núcleos passam a norte das latitudes portuguesas, continuam a arrastar frentes e linhas de instabilidade suficientemente extensas para provocar chuva no país.
Isto significa que, mesmo que a depressão de dia 3 seja moderada e mesmo que a de dia 8 acabe por passar mais a norte, o risco de cheias e problemas associados ao excesso de água mantém-se elevado. No entanto, Miguel Miranda refere que não há uma região condenada à partida nos próximos eventos meteorológicos: "Historicamente, a faixa entre Leiria e Figueira da Foz tem sido muito afetada em alguns eventos recentes, mas isso não garante repetição".