A tempestade já deixou Portugal, mas o rasto deixado pela depressão Kristin mostra como, em poucas horas, Portugal esteve no centro de um fenómeno atmosférico extremo - rápido, difícil de prever ao pormenor e com impactos profundos. Afinal, o que aconteceu na atmosfera?
Portugal entrou na noite de terça-feira já avisado. Pelas 15 horas, milhares de telemóveis vibraram em simultâneo. No ecrã estava uma mensagem curta, direta e pouco habitual: "Depressão Kristin: vento intenso até 140 km/h nas próximas horas na sua região. Fique atento. Siga recomendações autoridades".
Àquela hora, o país já começava a sentir os primeiros efeitos. Mais de uma dezena e meia de estradas estavam cortadas, a maioria das barras marítimas encontrava-se encerrada e cerca de 1.700 clientes estavam sem eletricidade. Mas o pior ainda estava longe de acontecer.
As primeiras horas: um país a fechar-se por prevenção
Ao final da tarde, os sinais de agravamento tornaram-se evidentes. No Norte, o rio Tâmega galgou as margens em Chaves, obrigando ao corte de ruas e à ativação de planos locais de contingência. No Alentejo, começaram a ser cortadas estradas nacionais no distrito de Portalegre. Mais a sul, a Câmara de Sintra encerrou os acessos à serra devido à previsão de vento forte.
Pelas 19:00, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) já contabilizava mais de 1.400 ocorrências no continente. Multiplicavam-se as quedas de árvores, inundações, limpezas de via, colapso de estruturas e movimentos de massa. No terreno estavam mobilizados mais de 5.000 operacionais, apoiados por cerca de 2.000 meios terrestres.
Às 21:00, a navegação foi interditada a todas as embarcações com menos de 12 metros. A ligação fluvial entre Cacilhas e o Cais do Sodré foi interrompida. O país começava, literalmente, a desligar-se.
Durante a noite, multiplicaram-se os anúncios de escolas encerradas para o dia seguinte. A CP suspendeu a circulação de comboios de longo curso na Linha do Norte e a PSP apelava às populações de Coimbra e Leiria para permanecerem em casa.
O pico da tempestade: quando a depressão "explodiu"
Foi entre as 03:00 e as 06:00 da madrugada que Portugal entrou no momento mais violento da depressão Kristin. No centro do país, o vento intensificou-se de forma abrupta, chegando aos 178 km/h em Monte Real, Leiria. No Cabo Carvoeiro, foram registadas rajadas de vento de 150 km/h; em Ansião chegou aos 146 km/h. No Algarve, Faro registava rajadas de 100 km/h. Às 07:00, mais de 850 mil clientes da E-Redes acordaram sem eletricidade. Lisboa, Leiria, Coimbra, Castelo Branco, Portalegre, Santarém, Setúbal e Guarda estavam entre os distritos mais afetados.
Em Coimbra, o Metro Mondego foi suspenso. Na Figueira da Foz, a roda gigante instalada na marginal caiu durante a madrugada. Parte do telhado da antiga Universidade Internacional ruiu. Segundo o IPMA, a depressão terá atingido esta zona durante um período de apenas 10 minutos - tempo que bastou para causar danos significativos.
Afinal, o que aconteceu na atmosfera?
A depressão Kristin não foi apenas mais um sistema de mau tempo a atravessar o território continental. O que a tornou particularmente perigosa foi a combinação de vários fenómenos atmosféricos a atuar em simultâneo - e a uma velocidade pouco habitual em Portugal.
Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), ocorreu uma ciclogénese explosiva, ou seja, um processo de intensificação extremamente rápido de uma depressão atmosférica.
"Estamos a falar de uma descida muito acentuada da pressão no centro da depressão num curto espaço de tempo", explica à CNN Portugal Margarida Belo-Pereira, meteorologista do IPMA. "No caso da Kristin, essa intensificação foi suficientemente rápida para se enquadrar numa ciclogénese explosiva."
Numa depressão "normal", a pressão diminui de forma gradual. Numa ciclogénese explosiva, essa descida acontece quase de forma abrupta, fazendo com que o sistema "cave" rapidamente - termo técnico usado para descrever o aprofundamento da baixa pressão. Quanto mais cavada está a depressão, maior é o gradiente de pressão e, consequentemente, mais fortes são os ventos gerados. No entanto, não foi apenas a ciclogénese explosiva que agravou a situação.
Associado à depressão Kristin formou-se um fenómeno ainda mais difícil de prever: o sting jet.
"O sting jet é uma corrente de vento muito intensa que se forma em certos tipos de ciclogénese", esclarece a especialista em fenómenos extremos. "É um vento que vem de níveis mais altos da atmosfera, a cerca de três a quatro quilómetros de altitude, e que desce rapidamente, intensificando-se até atingir os níveis mais baixos."
Este "gancho" de vento, invisível nos mapas tradicionais e com uma duração relativamente curta, é capaz de provocar rajadas extremamente fortes e localizadas, o que ajuda a explicar porque é que algumas zonas foram severamente atingidas durante apenas alguns minutos.
"À volta das cinco da manhã terá sido quando esse gancho teve mais efeito", acrescenta a especialista. "Isso não quer dizer que não tenham existido ventos muito fortes antes, mas foi nesse período que o sting jet terá atingido o seu máximo." Foi precisamente esse caráter súbito que contribuiu para a queda de estruturas, de árvores de grande porte e danos significativos em áreas costeiras do centro do país, como Figueira da Foz, Peniche ou zonas próximas de Aveiro.
Enquanto no centro e no litoral o vento extremo esteve sobretudo associado ao sting jet, no sul do país o cenário foi diferente. Aí, os valores elevados de vento estiveram ligados à presença de linhas de instabilidade - estruturas convectivas que acompanham a depressão e que podem provocar fenómenos severos em curtos períodos de tempo.
"Na região sul, o vento forte não esteve ligado ao sting jet, mas sim às linhas de instabilidade", explica Margarida Belo-Pereira. "À medida que entram, intensificam-se e causam precipitação forte, podendo provocar granizo e rajadas intensas." Estas linhas explicam porque é que, mesmo quando a depressão já estava a deslocar-se para Espanha, continuaram a registar-se rajadas muito fortes no Algarve e no interior sul, com valores superiores a 100 km/h.
Para os especialistas, estes eventos não são um acaso isolado. Pedro Garrett, climatologista, sublinha que as ciclogéneses explosivas têm mostrado uma tendência de agravamento nas últimas décadas, associada às alterações climáticas.
"Todos os estudos indicam que este tipo de eventos tem uma tendência de agravamento devido essencialmente à emissão de gases com efeito de estufa e ao aquecimento global. Temos verificado isso nos últimos 20 anos em Portugal continental, mas também em todo o Mediterrâneo", aponta.
O aquecimento global e a emissão de gases com efeito de estufa estão a alterar o comportamento do sting jet e um sting jet mais enfraquecido, combinado com um anticiclone dos Açores menos robusto, permite que sistemas depressionários muito cavados desçam para latitudes mais baixas, atingindo diretamente Portugal, explica o especialista à CNN Portugal.
Foi isso que aconteceu nos últimos dias, com três depressões a atravessarem o território num espaço de apenas uma semana.
O dia seguinte
Ao início desta manhã, o IPMA confirmava que a depressão Kristin já estava praticamente em Espanha. Em Portugal, embora o pior já tivesse passado do ponto de vista meteorológico, os efeitos faziam-se sentir. Entre a meia-noite e as 08:00, foram registadas cerca de 1.500 ocorrências. Às 11:00, o número subia para 3.300. Há estradas cortadas, linhas ferroviárias suspensas, danos em hospitais, falhas nas redes de telecomunicações e milhares de clientes ainda sem eletricidade.
Até ao momento, a Proteção Civil já confirmou quatro mortes, além de dezenas de deslocados e várias feridos. Em vários concelhos, foram ativados Planos Municipais de Emergência e o nível de prontidão nacional vai manter-se no nível máximo até às 23:59.