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A aposta de Eriksson e Queiroz que gere um restaurante em Alcabideche

19 abr 2023, 08:20
Mário Jorge (Facebook/Mário Jorge)

Mário Jorge brilhou em clubes como Estoril, Estrela Amadora e Campomaiorense, mas não singrou no Benfica e no Sporting. Atualmente, dedica grande parte do seu tempo à restauração

[Foto de capa: Arnaldo Amador/Facebook Mário Jorge]

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

Mário Jorge foi um dos jogadores mais entusiasmantes nos relvados portugueses ao longo da década de 90. Criativo e trabalhador, o médio destacou-se em clubes como Estoril, Estrela da Amadora, Marítimo e Campomaiorense, para além de ter sido internacional sub-21 por Portugal.

Entre temporadas de grande sucesso na Liga, Mário Jorge dispôs de duas oportunidades para representar os denominados «grandes». Em 1992, com 22 anos, foi contratado pelo Benfica como forte aposta de Sven-Goran Eriksson. Em 1995, chegou finalmente ao seu Sporting com o aval de Carlos Queiroz. Em ambos os casos, porém, não conseguiu singrar.

O médio teve ainda assim uma carreira de grande nível, até pendurar as chuteiras em 2004. O ex-jogador manteve uma ligação ao futebol – através de uma academia – e apostou em 2017 no setor da restauração.

Mário Jorge assumiu a gestão do restaurante da ADM Bicesse, em regime de exploração, e passa grande parte dos seus dias no espaço da freguesia de Alcabideche, concelho de Cascais. Na passada quinta-feira, quando falou pela primeira vez com o Maisfutebol, começou a trabalhar às 7h30 e só regressou a casa depois das 19h00.

«Chego ao restaurante às sete e meia da manhã, vejo o que falta, vou às compras, às 9h00 regresso ao restaurante, ponho as mesas, trato das entradas, das sobremesas, do pão, sou eu que faço isso tudo. Depois tenho duas cozinheiras, duas empregadas que começam a trabalhar às 12h00 e duas à tarde»

O antigo médio, atualmente com 53 anos, começou a explorar o restaurante da Associação para o Desenvolvimento e Melhoramento (ADM) de Bicesse na companhia de mais dois sócios, um deles também ex-jogador: Paulo Ferreira, extremo esquerdo que representou Estrela da Amadora, Farense e FC Porto, entre outros.

«A restauração é uma área que exige muito. Comecei este projeto com o Paulo Ferreira, que é meu sócio também no futebol, e outra pessoa. O Paulo esteve cerca de três anos comigo, mas neste momento estou sozinho. Tenho a escola de futebol e sou vice-presidente do 9 Abril Trajouce, mas os honorários vêm daqui, do meu trabalho no restaurante. Tenho a sorte de conseguir sair a meio da tarde, quando é possível, e isso tira um bocado do excesso de trabalho, que acontece muito nesta área», reconhece.

O gosto pela área da restauração, explica, vem de longe: «A minha avó passou-me passou muito do gosto pela cozinha. Depois, estive ano e meio na Marinha portuguesa, como despenseiro, a servir oficiais, sargentos, praças, deu-me bagagem para isto. As coisas têm corrido muito bem, com a ajuda de todos. Não é fácil gerir um restaurante, sobretudo numa altura em que os preços dos produtos estão sempre a subir, mas as pessoas gostam do meu espaço e isso deixa-me feliz», remata.

Quando não está em Bicesse, é provável encontrar Mário Jorge em Trajouce, dedicado ao seu amor de sempre: o futebol: «Depois de acabar a carreira, apostei numa escola de futebol, que já tem cerca de 16 anos. Tive comigo o Paulo Ferreira e também a certa altura o Chaínho, mas sobretudo o Paulo Ferreira.»

«Começámos em Tires e depois mudámos para Trajouce. Inicialmente chamava-se Escola de Futebol Quatro Linhas, entretanto conseguimos um acordo com o Marítimo para sermos a primeira escola do clube no Continente. Essa parceria acabou há cerca de dois anos e agora temos acordo com o Estoril. Para além disso, sou vice-presidente do Trajouce», resume o antigo jogador.

Grande parte da vida de Mário Jorge foi passada no Distrito de Lisboa, de resto, e a formação foi dividida entre o Carcavelos e o Estoril. Ao serviço do clube da Linha, sob o comando técnico de Fernando Santos, chegou aos principais palcos do futebol português.

«Foi o Fernando Santos que me lançou na equipa sénior do Estoril e foi com ele que subimos da II Divisão B até à Liga. Cheguei à primeira divisão em 1991, com 21 anos, fiz uma grande época e tive convites dos principais clubes: Benfica, FC Porto e Sporting», recorda.

O médio, sportinguista de coração, esteve a um pequeno passo de rumar a Alvalade, a par de Hélder Cristovão, promissor defesa-central. Porém, ambos mudaram de direção e seguiram para o Estádio da Luz: «Foi uma decisão do próprio Estoril, porque na altura o Sporting não tinha fama de bom pagador, acharam que seria mais seguro aceitar a proposta do Benfica.»

Muito apreciado por Sven Goran-Eriksson, Mário Jorge viajou com o Benfica para uma digressão de fim de época nos Estados Unidos e acreditou numa afirmação plena.

«Depois de acabar a época no Estoril, segui com o Benfica para a Califórnia e fui o melhor jogador do torneio que realizaram lá. O Eriksson contava muito comigo, notou-se logo. Foi ele que indicou o meu nome, foi ele que me contratou e sentia-me muito bem com ele, mas infelizmente o Eriksson saiu no verão e chegou o Ivic»

Tomislav Ivic transmitiu de imediato uma sensação de desconfiança aos jogadores. Uma das medidas mais controversas, por exemplo, passou por ordenar a redução do terreno de jogo no antigo Estádio da Luz.

«Ele veio com ideias muito contrárias a aquilo a que o Benfica estava habituado. Quis encurtar o campo na Luz, dizia que era muito grande, se fosse mais pequeno íamos pressionar mais e cair em cima dos adversários. Chega o primeiro jogo e, com o Estádio da Luz cheio, empatámos a zero com o Salgueiros», frisa.

Mário Jorge recorda ainda o ambiente pesado no balneário, marcado por conflitos entre jogadores, sobretudo devido ao caráter forte de Yuran, Kulkov e Mostovoi. O médio esteve apenas um ano no Benfica e sentou-se no banco para o derradeiro jogo sob o comando técnico de Ivic, à 8ª jornada, frente ao Gil Vicente (1-1): «Depois veio o Toni, também chegou o Futre em janeiro e as coisas melhoraram bastante, o Benfica ainda venceu a Taça de Portugal.»

«Assinei por quatro anos pelo Benfica, não correu bem, mas mesmo assim tive sete equipas da Liga interessadas em mim. O João Alves falou comigo e acabei por mudar-me para o Estrela da Amadora em definitivo, porque queria manter-me por esta zona. O Abel Xavier foi para o Benfica e em troca fui eu, José Carlos, Fernando Mendes e Paulinho para o Estrela», relata.

O médio voltou a demonstrar toda a sua qualidade no escalão principal, ao longo de duas temporadas, e os «grandes» bateram uma vez mais à sua porta, no verão de 1995. Chegara a hora de representar finalmente o clube do coração: o Sporting: «Não é fácil sair de um grande, onde as coisas não correram bem, e depois ter a oportunidade de jogar por outro. Foi fruto sobretudo do meu trabalho.»

«As negociações entre Estrela e Sporting estiveram complicadas, estiveram mesmo por um fio, mas eu também pressionei porque queria finalmente jogar no Sporting. Fui aposta do Carlos Queiroz, mas nessa altura o Sporting tinha dois diretores gerais, Norton de Matos e Carlos Janela, e não senti logo de início ligação com eles. Não sei, houve alguma coisa que fez com que não me tenha conseguido afirmar no Benfica e no Sporting, entre tantas boas épocas nos outros clubes»

 

Num ano pouco feliz para o Sporting – Carlos Queiroz viria a sair e a ser substituído por Octávio Machado -, Mário Jorge não passou da pré-temporada e acabou por ser emprestado ao Marítimo. Uma vez mais, o sonho esfumou-se: «Fiz essa época no Marítimo e depois voltei à Amadora para mais duas boas temporadas no Estrela. No último ano, com o Fernando Santos, vencemos os três grandes.»

Mário Jorge emigrou pela primeira vez aos 28 anos e deixou boa impressão em Espanha, com a camisola do Legánes, mas o amor pela família falou mais alto. «O Legánes é um clube excelente, as pessoas deram-me muita moral, mas eu estava pouco focado, tinha os meus filhos pequenos em Portugal e quis voltar. Foi quando fui desafiado pelo Carlos Manuel a ir para o Campomaiorense. Tive uma experiência cinco estrelas em Campo Maior, um clube que nos recebia bem e nos dava boas condições, muito pelo trabalho da família Nabeiro. Foram duas grandes épocas», diz.

Em 2001, o médio recebeu uma proposta que representaria uma reforma dourada. O Tampa Bay Munity, da Major League Soccer, acenou com números incríveis: «Era um contrato fabuloso, acho que qualquer coisa como oito mil contos mensais, seria o meu maior contrato da carreira. Cheguei a ir aos Estados Unidos, estava tudo acertado, só que entretanto o clube, por causa de dívidas enormes, abriu falência. Ou seja, do nada, fiquei sem sítio para jogar.»

Já a caminho dos 32 anos, Mário Jorge regressou a Portugal para alguns meses no Imortal de Albufeira, esteve nos Estados Unidos da América «a jogar numa segunda divisão em Rhode Island» e acabou por mudar-se em definitivo para o Canadá. «Foi o Fonseca, que jogou comigo no Estrela, a convidar-me para ir para os Vancouver Whitecaps. Só que lá há muitos sintéticos, jogos de três em três dias, comecei a sentir demasiados problemas no tendão de Aquiles e pensei terminar a carreira. Entretanto, o presidente do Abrantes, meu amigo, conseguiu convencer-me a ainda jogar lá uma época, acedi e foi uma forma bonita de pendurar as botas, porque subimos da terceira para a segunda divisão», remata.

«Foi uma carreira muito boa, acho eu, à custa de muito esforço, sobretudo meu. Empenhei-me muito, fui sempre um jogador de muito trabalho, apesar de ser um tecnicista. Fui um jogador de equipa e tenho orgulho naquele que fiz ao longo da carreira»

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