De campeão europeu no futebol a bicampeão nacional no kickboxing

18 out, 23:50
Joca (Foto: B&A Art Moments)

Joca venceu o Campeonato da Europa de sub-16 pela seleção, cresceu no FC Porto e jogou na Liga pelo Gil Vicente; agora, é comercial de produtos cosméticos e lutador de artes marciais

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

Fernando Jorge Batista Pinho Valente, simplesmente Joca no mundo do futebol, tem atualmente 43 anos e terminou a carreira de jogador com um registo interessante. Foi campeão da Europa de sub-16 pela seleção em 1996, venceu dois títulos nas camadas jovens do FC Porto, chegou à equipa B dos dragões, jogou na Liga pelo Gil Vicente e conquistou a II Liga pelo Paços de Ferreira.

Uma grave lesão no joelho direito, quando tinha 21 anos e representava o Gil Vicente, condicionou a afirmação de Joca e constituiu um ponto de viragem no seu percurso. A partir daí, foi caindo para os escalões inferiores (P. Ferreira, Varzim, Lousada, Vila Meã, Ermesinde e Sobrado) até pendurar definitivamente as chuteiras, em 2016.

Joca trocou as chuteiras por luvas e os relvados por ringues, já depois de uma passagem pelo tatame. Na fase terminal da carreira de jogador de futebol, apaixonou-se pelo kickboxing e teve sucesso: aos 43 anos, é bicampeão nacional de low kick, classe C1 (amador), entre atletas com menos de 81 quilos.

Fotografias gentilmente cedidas por: B&A Art Moments

A arte marcial ocupou o vazio deixado pelo futebol e a subsistência financeira é garantida por uma atividade completamente distinta: comercial de produtos cosméticos.

«Acabei a carreira de jogador há seis anos, no Sobrado, mas nessa altura eu já trabalhava com a minha esposa no cabeleireiro dela. Ao longo dos anos, depois da lesão, a minha carreira foi sempre descendente, eu fui sempre tirando formações nesta área e nessa fase já sabia fazer de quase tudo no cabeleireiro, só não cortava cabelo. Dava apoio na gestão do espaço, na aplicação de colorações, descolorações, alisamentos, etc. Sei fazer isso tudo», começa por explicar, ao Maisfutebol.

Enquanto crescia no panorama nacional do kickboxing, sempre como amador, Jorge Valente abria novas portas no contexto profissional: «Há três anos, tive uma proposta para ser comercial da Servipel, uma empresa espanhola que tem um espaço em Braga. Vendo produtos cosméticos, sempre dentro da linha do cabeleireiro, só a profissionais. Fico dois dias por semana na loja em Braga e de resto andava na rua a vender. Neste momento, já estou a dar formação sobre produtos de uma marca, a Glynt, da qual a Servipel tem a patente em Portugal.»

Enquanto trabalha numa área que nunca imaginou para o seu futuro, - «Não há que lamentar, tenho duas filhas, tenho uma esposa, tenho de fazer algo para sustentar, para me sentir bem. Neste momento estou feliz e bastante estabilizado» - o antigo jogador vai brilhando no kickboxing, outra surpresa na sua vida.

«Ainda estava a jogar quando as minhas filhas e a minha esposa foram para o kickboxing. A equipa onde estou, Elite 36, tinha um espaço pequeno e mudou para um pavilhão enorme, um ginásio fora do comum. Comecei a ver, comecei a gostar, decidi experimentar e nunca mais parei. Nunca pensei em enveredar por um desporto de combate», garante.

O kickboxing foi o escape para quem tinha perdido o encanto pelo futebol: «Gostava de jogar futebol, mas não das confusões com diretores e dos jogos de interesses. O kickboxing veio preencher uma lacuna, só consegui deixar o futebol porque encontrei o kickboxing, parecia um menino a descobrir algo novo. Lido com pessoas de outro patamar, sejam os meus mestres Marco Lima e Tiago Lima, a quem estou muito grato, os meus colegas, etc. Sinto-me muito feliz.»

 

«Treino kickboxing diariamente, seis dias por semana, só paro ao domingo. Agora as minhas filhas jogam basquetebol e também jogo com elas. Depois também jogo futebol às quintas-feiras e de vez em quando pelo FC Porto Vintage», explica.

O joelho direto condiciona Joca desde os 21 anos, mas o antigo jogador tem conseguido lidar com as dores. «Por incrível que pareça, o kickboxing é muito menos agressivo para o corpo que o futebol. No futebol, por exemplo, um remate exige uma força enorme, porque o joelho da outra perna fica fixo. No kickboxing não, roda-se o corpo todo, tudo flui. Mas claro que quando o treino é mais puxado, sinto no joelho», admite.

Aos 43 anos, o convidado desde Depois do Adeus já é veterano. Porém, prefere continuar a competir como sénior: «É mais competitivo e apanho com tudo, a começar por miúdos de 19 anos. Em julho, sagrei-me bicampeão nacional em low kick, menos de 81 quilos, na classe C1, a classe amadora iniciante. Venci um atleta do Sporting com um KO brutal, em Matosinhos. No ano passado foi em Almada. Mas é duro perder peso, lutar contra a balança, mais complicado do que lutar. Nesta altura até estou parado, porque parti a mão num treino.»

Para trás fica uma carreira no futebol que prometeu muito. «Eu sou de Lousada e comecei a jogar no Freamunde com 9 anos. Entretanto, nos iniciados, fui pela AF Porto a um torneio interassociações, que vencemos. Nessa altura fui para o FC Porto, que representei nos juvenis e nos juniores, sendo duas vezes campeão nacional. Quando estava nos juniores, cheguei a treinar com a equipa principal», diz Joca.

Pelo caminho, o lateral sagrou-se ainda campeão da Europa de sub-16 por Portugal, em 1996, ao lado de nomes como Ednilson, Petit, Hugo Leal ou Simão Sabrosa. «Os anos de formação foram aqueles de que gostei mais, quando era jovem, quando tinha liberdade para sonhar. Era o futebol puro. Da parte sénior não gostei muito, há muitos jogos de interesse.»

Jorge Valente, como é conhecido fora do futebol, acumulou 29 internacionalizações pela seleção, entre os sub-15 e os sub-20  - «representar o meu país e ouvir o hino é das coisas que fica para a vida» -, mas não foi além da equipa B no FC Porto.

Fica aqui o esclarecimento: no FC Porto e no Gil Vicente, este Joca cruzou-se com outro, Ricardo Jorge Silva Pereira, que chegou a ser utilizado por José Mourinho na formação principal dos dragões. No clube portista e sobretudo em Barcelos, ficaram famosos como o Joca I, o lateral que protagoniza este Depois do Adeus, e o Joca II, o médio, ligeiramente  mais novo.

«Depois dos juniores, em 1998, fui emprestado ao Leça, que ia jogar na primeira divisão mas que foi despromovido por causa do caso Guimaro. Ainda fiz muitos jogos, depois voltei para um ano no FC Porto B e segui para o Famalicão, já depois de rescindir com o FC Porto. Fiz uma época espetacular, com o José Alberto Costa, estávamos na II Divisão B e fomos aos quartos de final da Taça, onde caímos frente ao Sporting», salienta.

O Gil Vicente abriu as portas da Liga a Joca em 2001, aos 21 anos. Porém, a segunda temporada de três ao serviço no clube de Barcelos ficou manchada pela grave lesão no joelho direito: «Foi o menisco, fui operado ao joelho direito e nunca mais fiquei bem. Comecei a jogar e mancava. A partir daí, foi sempre a descer. O sonho esfumou-se.»

«No primeiro ano tive uma proposta do Belenenses e o Gil Vicente não me deixou sair. Ali no segundo, já tinha apalavrado que ia assinar pelo Boavista, mas com a lesão mudou tudo. O futebol é oportunidade e naquela altura era quase como acertar no Euromilhões. Hoje em dia há muito mais visibilidade», desabafa.

Joca rumou ao Paços de Ferreira em 2004 e ainda venceu a II Liga pela equipa da Capital do Móvel, mas já sem o desempenho individual que ambiciosa. «Fomos campeões da II Liga mas não fiz os jogos que desejava. Depois fui para o Varzim na II Liga, depois Lousada na terceira divisão, até que acabei nos campeonatos distritais», remata o antigo jogador.

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