Fredy: de jogador de seleção a gestor num centro de excelência no Dubai

16 nov, 10:09
Fredy

Foi campeão europeu de sub-16 por Portugal, chegou à seleção B e à Liga, perdeu tudo num bar em Coimbra e reergueu-se entre Londres e os Emirados Árabes Unidos

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

Frederico Martins, conhecido como Fredy, foi um dos melhores laterais esquerdos da sua geração no futebol português. Sagrou-se campeão europeu pela seleção sub-16 em 1996, disputou o Mundial de sub-20 em 1999 e venceu o Torneio Internacional do Vale do Tejo pela seleção B de Portugal em 2003.

Depois de uma formação dividida entre Estarreja, Avanca, FC Porto e Paris Saint-Germain, o jovem defesa despontou no Felgueiras, passou meio ano no Maiorca e jogou na Liga por Académica e Paços de Ferreira. Rumou à Roménia em 2006, foi campeão e venceu a Taça local pelo Cluj, mas por ali começou a desenhar-se o princípio do fim.

Uma disputa legal com o CFR Cluj e um investimento ruinoso num bar em Coimbra comprometeram seriamente o futuro de Fredy. Com 30 anos, ainda regressou ao futebol português para representar Gil Vicente e Anadia. Porém, a carreira estava perdida e a subsistência financeira tornara-se uma inesperada prioridade.

«Foi a pior decisão que tive até hoje: abrir um bar em Coimbra. Abri o bar quando ainda estava na Roménia, os primeiros meses correram bem, depois a crise surgiu em força, isso aliado à minha falta de experiência em gestão, foi uma catástrofe. Gastei uns bons milhares na construção e na gestão, depois gerou-se ali um efeito bola de neve, com problemas atrás de problemas»

Quando Fredy regressou a Portugal, em 2010, o futebol era a menor das suas preocupações. Fez mais época e meia e pendurou definitivamente as chuteiras com 32 anos, no Anadia, enquanto procurava uma solução para um problema gravíssimo: tinha perdido todo o dinheiro acumulado ao longo da carreira como jogador.

«A desilusão que tenho até hoje em relação ao meu país foi essa: quando mais precisava de apoio, fui completamente abandonado. Tentei logo arranjar emprego e cheguei a ir à experiência para a rua tentar vender telemóveis da Optimus. Mas nem isso! Reconheciam-me como ex-jogador e perguntavam o que andava ali a fazer, duvidavam da minha capacidade», lamenta, em conversa com o Maisfutebol.

Uma década depois e com 43 anos, o antigo lateral trabalha no Dubai como gestor da área comercial no Centro de Excelência do Gulf Marketing Group, um gigante retalhista que detém os direitos comerciais de marcas como Nike, Columbia, Vans, Timberland ou The North Face no Médio Oriente.

«No meu país, um país que adoro, eu não servia nem para vender telemóveis da Optimus porta a porta, aqui no Dubai trabalho num centro de excelência de uma grande empresa.»

A viagem entre o fundo e o topo em outro contexto profissional foi longa, obrigou a uma enorme dose de suor e teve milhares de quilómetros pelo meio.

«Quando deixei de jogar, e com aquela situação do bar, nem diria que tive de começar do zero. Foi começar do -1, porque para além de não ter dinheiro, tinha dívidas. Foi uma fase horrível, que tive de fazer um reset em relação a tudo o que acreditava para começar de novo. Fiquei muito desiludido, ao ponto de não querer ver um jogo de futebol», confessa.

Fredy decidiu emigrar. Teve de o fazer, face à escassez de oportunidades, deixando para trás o seu país…e o filho, Alexandre: «Custou-me imenso deixar o meu filho em Portugal, ficou com a mãe, a minha ex-mulher. Foi mesmo muito difícil para mim. Com a ajuda de um amigo, fui para Londres, e foi lá que recomecei.»

«Foi como uma criança a aprender a andar de novo, a explorar outras coisas, num sítio em que ninguém me conhecia. Arranjei emprego numa loja de retalho da Adidas, em Oxford Street, e comecei a subir aos poucos, a ir aprendendo, a fazer cursos, formações e a subir dentro da loja.»

Em Inglaterra, onde não era reconhecido e onde poucos sabiam o seu passado como jogador profissional de futebol, o português reergueu-se: «Quando a Adidas comprou a Reebok, mudei para a Reebok, como gerente de loja. Depois, o meu ex-gerente na Adidas levou-me para a Oakley de Londres, a maior loja deles no mundo. Foi onde aprendi mais sobre gestão, sobre organização.»

Certo dia, Fredy recebeu uma chamada totalmente inesperada. «Estava reunido com esse gerente, a definir budgets, e recebi uma chamada dos Emirados Árabes Unidos. Até achei que era a brincar, porque a Oakley tinha muito esse hábito, era um ambiente espetacular. Mas não, era verdade, tinham uma proposta para mim da Nike nos Emirados, viram o meu currículo na internet e contactaram-me», explica.

De Portugal para Inglaterra, de Inglaterra para os Emirados Árabes Unidos: «Vim com a Tatiana, que agora é minha esposa, e estamos aqui há oito anos. Estivemos dois anos em Abu Dhabi e depois viemos para o Dubai.»

«As marcas que querem instalar-se aqui têm de associar-se a uma empresa local. E nesse aspeto, o Gulf Marketing Group (GMG) é um dos mais fortes da região. Detém os direitos para o Médio Oriente da Nike e de muitas outras marcas. A certa altura, passei para o centro de excelência da GMG, a empresa-mãe, para desenvolver projetos nas mais diversas marcas. Sou gestor da área comercial do grupo.»

O Gulf Marketing Group continua a crescer, e o antigo internacional português cresce com ele: «Hoje estou bem. Se eu há 25 anos tivesse o know how que tenho hoje, não tinha investido o que investi num negócio que não dominava. O grande orgulho que tenho hoje é ter conseguido aprender com os erros que cometi e endireitar-me. Tento olhar as coisas de forma positiva e tento ajudar outras pessoas o mais que posso.»

«Tive de fazer coisas de que não gosto na fase mais crítica, pedir dinheiro a pessoas, andar a pedir emprego, não conseguir pagar as contas. Ainda hoje, quando penso nisso, deixa-me um pouco em baixo. Mas consegui sair desse buraco e voltei a acreditar que é possível. Acredito que muito do que faço aqui no Dubai, a ajudar outras pessoas, é para apagar aquela fase da minha vida», admite Fredy.

À margem das suas funções como gestor, o ex-jogador desenvolveu um projeto de atividades físicas para os colaboradores das empresas em que foi evoluindo, depois de perceber que muitos colegas asiáticos revelavam um parco conhecimento em relação a exercícios que contribuem para a boa forma.

«Quando eu e a Tatiana viemos para aqui, primeiro para Abu Dhabi, percebemos que muitas das pessoas da empresa não tinham background de educação física, de ir a ginásios, alguns nunca tinham sequer corrido. Estamos a falar de filipinos, nepaleses, indianos, que vêm para aqui porque são mão de obra barata», refere.

Trabalhando para uma marca desportiva, os funcionários deveriam ter as noções mínimas de boas práticas no desporto. Por isso, o casal português deitou mãos à obra e criou um projeto: a comunidade @ The Park.

«Começámos por escolher alguns colegas que levávamos para o parque, depois do trabalho, para explicar o que era uma flexão, um abdominal, um agachamento. No final, como eu andava viciado em cross fit, fazia um workout. O pessoal começou a achar piada aquilo, a convidar a esposa, o namorado, a trazer mais pessoas para a sessão. Surgiu o conceito da comunidade.»

«Outras lojas começaram a juntar-se à nossa lá em Abu Dhabi. Quando viemos para o Dubai, as pessoas daqui começaram logo a pedir essas sessões, que são totalmente gratuitas. Neste momento, temos uma comunidade de fitness enorme, com pessoas que querem mudar de vida, e tem sido uma experiência fantástica», diz, com orgulho.

Fredy e Tatiana não recebem nada em troca. Apenas a pura satisfação de ajudas outras pessoas e o reconhecimento de indivíduos e entidades.

«Olhe, ainda há duas semanas estive reunido com o Comité Olímpico e neste momento estão a apoiar a comunidade. A Federação de Fitness também. Temos neste momento 15 treinadores a trabalhar connosco, de forma gratuita, e durante a semana temos 300 a 350 pessoas a participarem nos treinos.»

«Nesta altura estão a aparecer grandes companhias a querer entrar no projeto e é um orgulho tremendo. Custa-me recordar que em Portugal, um país fantástico, nunca tive uma oportunidade destas. Eu tenho o nível 1 de Cross Fit Instructor e neste momento estou a tirar a especialização», salienta.

A comunidade @ The Park cresceu e reserva em si mesma histórias de superação que rasgam o sorriso de Fredy. «Dou um exemplo: uma senhora indiana com 43/44 anos apareceu para treinar, no primeiro dia só conseguiu andar 3 quilómetros com a Tatiana, nem correr sabia. Entretanto, há sete meses, subiu ao Kilimanjaro e fez questão de levar para o topo uma bandeira da nossa comunidade. Tocar assim na vida de alguém não tem preço», remata o ex-jogador.

Fredy nasceu em Estarreja, a 14 de agosto de 1979, iniciando a formação no clube local e no Avanca. Seguiu-se o salto para o FC Porto e a presença nas seleções jovens de Portugal, com natural destaque para a conquista do Campeonato da Europa de sub-16, em 1996.

No clube portista, porém, o sonho transformou-se em pesadelo.

«Fiz uma época espetacular nos juvenis do FC Porto e o clube chamou-me para assinar contrato profissional antes de ir para o Europeu de sub-16. Só que cheguei lá e o contrato era só um template, sem valores nem anos de duração. Eu tinha 15/16 anos e achei aquilo estranho, mas assinei.»

«Os meus pais tinham um vizinho que era advogado e ele disse-me para assinar, porque eu era menor e aquilo não tinha validade. Teriam de ser os meus pais a assinar. Só que o tempo passou e nunca mais chegava o contrato completo. O tal advogado enviou uma carta ao FC Porto sobre o assunto, a pedir uma cópia do contrato, e os dirigentes ficaram irritados. Foi um ano depois de o Tinaia e o Zeferino terem ido para o Real Madrid», lamenta.

«Eles começaram a dizer que eu também andava metido com o Manuel Barbosa, o empresário que levou o Tinaia e o Zeferino para Madrid, rasgaram-me o contrato na cara e mandaram-me para casa. Fui dispensado. Mais tarde, o Manuel Barbosa veio a saber disso pelo Tinaia e acabou por contactar-me, convidando-me a ir para o Paris Saint-Germain, isto já em novembro», salienta o antigo lateral.

O jovem esquerdino ficou dois anos no Paris Saint-Germain, regressando a Portugal para representar o Felgueiras. Entretanto, já depois de disputar o Mundial sub-20 por Portugal, em 1999, recebeu novo convite para emigrar: «Em 2001, o Miquel Soler já tinha 36 anos e o Maiorca estava à procura de um sucessor, até porque iam jogar na Liga dos Campeões. Eu tinha 22 anos e fui para lá para ser preparado para o futuro, mas o Soler continuou a jogar a alto nível e eu fiquei esquecido, só treinava e depois jogava pela equipa B.»

Fredy contribuiu para o apuramento da seleção de sub-21 para o Campeonato da Europa da categoria, em 2002. Porém, o cenário em Maiorca condicionava as suas aspirações. «Quando garantimos o apuramento, liguei ao selecionador Agostinho Oliveira a dar os parabéns. Ele avisou-me que, se não jogasse no meu clube, não iria ao Europeu. Então perguntei-lhe: ‘se eu jogar, chama-me?’ Ele disse que não podia prometer, mas que à partida diria que sim, porque eu fiz todo o apuramento.»

«Face a isso, pedi para sair do Maiorca e fui novamente para o Felgueiras, naquele ano em que o clube teve imensos problemas, só começou a jogar mais tarde, e jogava quarta e sábado. Joguei sempre, como combinado, mas acabei por não ser convocado para o Europeu», lamenta.

A Seleção B, a Académica e o pesadelo na Roménia

O jovem lateral esquerdo falhou o Europeu de sub-21, mas foi convocado para a Seleção B de Portugal, vencendo o Torneio Internacional do Vale do Tejo em janeiro de 2003. Por essa altura, já tinha dado o salto para a Liga, iniciando um ciclo inesquecível na Académica de Coimbra.

«Esse período da seleção B e dos anos da Académica foi o mais feliz da minha carreira, voltei a sonhar e até hoje sinto que a Académica foi o clube mais especial que representei. Foi o clube de que mais gostei, o carinho das gentes, a mística. Ficaram para sempre no meu coração», garante.

Após três épocas na Briosa, entre 2002 e 2005, Fredy rumou a Paços de Ferreira. A meio da segunda temporada na Capital do Móvel, uma proposta irrecusável do CFR Cluj levou o jogador português para a Roménia.

«Inicialmente as coisas correram bem, embora eu me tenha lesionado no último jogo do estágio e só tenha jogado no fim da época. Ficámos em terceiro lugar e fomos à Taça UEFA. Só que no segundo ano, decidiram apostar no mercado argentino e quiseram despachar os portugueses. Eu fui um deles», explica.

O lateral esquerdo ainda contribuiu para as conquistas da Liga e da Taça da Roménia, mas o seu futuro no clube estava condenado: «Tentaram empurrar-me para fora e depois, quando consegui uma proposta do Xhanti (Grécia), pediram 200 mil euros pelo meu passe. Entretanto, já estava a treinar à parte, sem casa, sem carro, nada. Coloquei um processo na FIFA contra o clube e, meses mais tarde, fui para Alki Larnaca. Quando já estava em Chipre, o Cluj também meteu um processo na FIFA, dizendo que eu tinha abandonado o clube.»

«O meu processo tinha entrado primeiro, mas a FIFA decidiu logo o do Cluj e suspendeu-me por dois anos. Até o meu advogado me disse que na FIFA não tínhamos hipótese, a alternativa era ir para o TAS, mas eu não tive 20 mil euros para pagar as custas do processo e ir buscar 500 mil», reconhece Fredy, numa altura em que o bar que tinha aberto em Coimbra já estava a dar prejuízo.

De 6 de outubro de 2007 a 7 de março de 2010. O português, já trintão, esteve perto de dois anos e meio sem jogar. Depois de um longo processo, assinou pelo Gil Vicente, mas não conseguiu fazer mais que oito jogos na II Liga.

«A FIFA, que me tinha suspenso por dois anos, decidiu levantar a suspensão ao fim de seis meses. Mas quando voltei a jogar, depois de dois anos sem disputar um encontro oficial, já não era o mesmo jjogador. O futebol para mim tinha morrido. Ainda joguei na época seguinte no Anadia, a convite do Paulo Adriano, mas aí percebi que já não dava mesmo.»

Em jeito de balanço, Fredy agarra-se às memórias inesquecíveis da carreira como jogador. «São memórias fantásticas, algo que ninguém me pode tirar. O que mais orgulho me deu foi ser campeão da Europa de sub-16 por Portugal, chorei imenso de felicidade nessa altura. Mas todos os momentos foram especiais, como ajudar a Académica a não descer de divisão, a lutar pelo pontinho como se fosse um troféu. Foram anos bonitos», atira, em conclusão.

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