Tudo devia ser decidido em sigilo nas lojas maçónicas, dizia um longínquo programa de um candidato maçon a grão-mestre. Nada mais falso. A democracia vive de contrários, mas há quem insista em ver apenas um lado
A corrupção alastrava, o compadrio sobrepusera‑se ao mérito e as multinacionais ditavam as leis. As televisões criavam factos políticos e impunham a obscenidade. E até os partidos já eram só máquinas de conquista de poder e agências de emprego. Em 2002, este angustiado diagnóstico do estado da sociedade portuguesa marcou a declaração de princípios do programa eleitoral de António Arnaut, advogado, ex‑ministro dos Assuntos Sociais do II Governo liderado por Mário Soares (1978) e candidato a grão‑mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), a mais antiga e influente corrente maçónica portuguesa.
“Teremos nós cumprido o nosso dever?!”, interrogava‑se António Arnaut, defendendo que era “obrigação indeclinável do maçon” travar de vez a degradação da autoridade do Estado e defender o regime democrático. “Vivemos, numa aldeia global, num liberalismo capitalista e financeiro sem alma nem regras”, desabafava.
A declaração de princípios do histórico socialista não esquecia a atuação dos partidos políticos, “que deviam ser intérpretes do interesse nacional e escolas de civismo”, mas que se teriam transformado em “máquinas de conquista de poder e agências de emprego”. Para Arnaut, também os partidos eram responsáveis pelo “laxismo, a irresponsabilidade e a ganância” que teriam atingido “um tal grau de perigosidade” que afetavam tudo e todos, “desde a família à administração pública”, e punham “em causa a paz, a liberdade, o progresso e o próprio regime democrático”.
Para o fundador do PS e antigo resistente ao regime do Estado Novo, a ação política era “frequentemente antiética”, porque simplesmente se submetia “às ditaduras dominantes”, simbolizadas pelos lóbis, a teia da burocracia e do corporativismo e os grandes grupos económico‑mediáticos que exploravam a “credulidade popular e a vaidade de certos governantes, determinando as decisões e condicionando a vida de todos nós”.
Por tudo isto, António Arnaut defendia que a missão silenciosa dos maçons do GOL era ainda mais urgente, mas assegurava que tal desígnio só teria sucesso se assentasse num novo tipo de prática maçónica que evitasse as disputas político-partidárias, “não só por imperativo ético‑jurídico, mas também para não provocarem divisões na família maçónica, como aconteceu no passado, pois as nossas colunas são sustentadas por obreiros de todas as ideologias democráticas”.
Quando já tinha 66 anos, António Arnaut (morreu em 2018) foi eleito grão-mestre, mas mandou no GOL apenas um mandato, entre 2002/05, e sem grande sucesso quando quis concretizar tão pungente missão nacional. Não quero naturalmente questionar o percurso cívico e político de um homem que sabia bem o que era a ética republicana, mas sei que já naquela altura não era nos templos maçónicos – ou em qualquer outro local ou instituição que cultive o segredo e funcione como uma irmandade de escolhidos – que se deve desenvolver a democracia e a sua fiscalização. Deve ser sempre no espaço público, e com o maior número de pessoas, num processo contínuo de crítica e discussão aberto a diferentes ideias políticas, económicas e sociais.
Numa sociedade realmente democrática é um bom princípio não aceitar como verdade absoluta que há partidos ou correntes políticas que corporizam sempre a apologia do regime democrático, até porque sabemos todos que foi neste meio político português que nasceu e se empoderou gente como Otelo Saraiva de Carvalho, José Sócrates, Armando Vara, Duarte Lima e tantos outros que deixaram um rasto de destruição das mais elementares regras do que deve ser o bem comum. E também sabemos que tem sido neste meio político que se aceita certo tipo de derivações extremistas que vendem ideias de flotilhas de solidariedade dirigidas a países onde as minorias e outras conquistas sociais (e os próprios regimes democráticos) nunca serão toleradas.
Manda o bom senso (nunca me canso de o destacar) que não se deve embarcar de olhos fechados em modas que carimbam vontades e desejos como venturosos e dignos e outras que logo assinalam com uma aconselhável dose de escárnio tudo aquilo que tem origem em pessoas, correntes de pensamento ou partidos qualificados como populistas. É como se existisse uma espécie de cidadãos de primeira (os ilustres, os esclarecidos, os certos) e os outros, normalmente gente inculta, desacreditada ou mesmo burra, como agora até já se pergunta e se responde nas sondagens.
O problema destas qualificações simplistas é que não fazem simplesmente sentido porque a realidade é bem mais complexa. Além disso, o problema muitas vezes nem sequer está na realidade, mas em que insiste – por muito letrado que seja - em não a querer ver. O que devemos pensar quando há olhares que não se interrogam sobre a atitude de manifestantes de certa área política impedirem outros de se manifestarem em datas históricas consensuais para o País? Ou quando aplaudem (e bem) as manifestações contra os comportamentos racistas e xenófobos e a violência sobre as mulheres e crianças, mas já não tenham uma palavra para condenar um cocktail Molotov atirado contra uma pacata manifestação? Ou ignorem as provocações violentas de cara coberta às polícias e os cartazes gongóricos com frases como “Que se foda a lei. Que arda o Parlamento”. Havia de ser bonito se um certo partido andasse por aí com propaganda dessa…
Numa sociedade realmente democrática nem o sistema mediático deve estar alinhado a uma só voz, ao ponto de correr o risco de parecer desligado dos grandes movimentos sociais e anseios gerais de importantes faixas da população. A discussão e a diversidade são fundamentais, e isso vale tanto para a esquerda como para a direita. Muitas vezes é até nos extremos mais extremados (passo a redundância) que está a virtude de nos despertar para a melhor solução. Ou de tornar ainda mais patente que não é por aquele caminho que uma sociedade democrática deve seguir.
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o jogo democrático dos contrários não é algo imobilista, é o movimento que desbrava caminhos, assim estejamos abertos a isso. Como jornalista e como cidadão, não procuro certezas totalitárias, nem alinho em teorias avulsas de conspirações antidemocráticas sempre que há uma operação de busca a este ou aquele partido, ao político A ou ao B. Nem se tal é feito no dia X ou se utiliza aparatosos meios técnicos e humanos. Prefiro discutir as entropias, as faltas de meios e as incompetências, as guerras internas, os resultados e os bloqueios ao escrutínio. Até porque se alguma certeza tenho nesta vida é de que estaremos sempre mais capacitados para tomar decisões individuais e coletivas se forem mais transparentes os atos de quem nos representa nas diferentes instituições e poderes públicos. E também os interesses privados, porque já vimos como os mais louváveis empresários, banqueiros e outras figuras – fazendo parte do status quo – são uma faca de dois gumes: ora fundamentais para o desenvolvimento económico e social, ora autênticas esponjas dos recursos públicos e até pouco interessados numa sociedade que privilegie o bem comum e as liberdades.
