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Comentador da CNN Portugal

O remédio para os males da democracia não é menos democracia

21 nov, 17:57

Por muito que custe àqueles que confundem diagnóstico com caricatura, a democracia americana, quando renasce, acaba por não fazê-lo pelo centro, mas pelas margens

Podíamos limitar-nos a esperar pelos soundbites que surgirão da reunião desta sexta-feira entre Donald Trump e Zohran Mamdani. Ou a uma análise superficial dos resultados eleitorais nos Estados Unidos. Um punhado de vitórias Democratas e uma tese simples: o partido deve resistir ao radicalismo e seguir o exemplo dos governadores moderados – mas não de Mamdani. Só que essa leitura é intelectualmente pobre e moralmente míope. Reduz a política à gestão e a democracia à arte de não chatear ninguém.

A vitória de Zohran em Nova Iorque, tratada por alguns como um epifenómeno, foi precisamente o contrário do que se quer fazer crer. Não é um acaso. É um sinal – mesmo numa cidade tão azul como Nova Iorque. A América de hoje está cansada não apenas dos extremos, mas também da inércia e da desigualdade. O erro é estrutural: confundem-se sintomas com causas e interpreta-se o entusiasmo popular quase como uma ameaça, quando é a resposta a um Presidente que manipula as instituições e reescreve os limites do poder.

Nos Estados Unidos, a democracia está a ser corroída, manipulada, sobretudo através do redesenho dos distritos eleitorais. Mas Trump não precisa de abolir regras para corroer a república, basta-lhe banalizar o escândalo e concentrar a atenção. Mais uma razão para olhar para o programa de Mamdani: fala de rendas, transportes, desigualdade, de uma cidade que já não reconhece os seus cidadãos. Fala do dia a dia, esse território onde a política de hoje raramente se desloca. Reconhece-se como “socialista democrático”, um rótulo suficiente para desqualificar uma ideia ou candidato nos EUA, mas concentremo-nos no que propõe: devolver substância à política, reatar o fio condutor entre uma cidade e os seus habitantes.

Há quem prefira candidatos previsíveis. Abigail Spanberger, ex-agente da CIA. Mikie Sherrill, ex-piloto da Marinha. A moderação como condição moral para governar. O centrismo, elevado à condição de religião, confunde equilíbrio com virtude, prudência com sabedoria. Mas a história americana não foi construída apenas com prudência: Lincoln não foi “moderado”. Roosevelt não foi “moderado”. Luther King não foi “moderado”. Foram líderes que romperam com o conforto do consenso, porque compreenderam que o consenso, muitas vezes, é injusto.

E depois há quem reduza este tipo de líder a messianismo. Aqueles que exigem experiência, mas não convicção. Que querem estabilidade, mas não transformação. Aqueles que se esquecem de que foi uma estabilidade aparente que abriu o caminho a Trump. De que o centrismo sem ideias não tem sido um antídoto contra o populismo, mas o seu prelúdio. Ao aconselhar a moderação como receita, ignora-se que o problema não é o alegado radicalismo de Mamdani, mas o distanciamento da base tradicional do Partido Democrata e a falta de coragem dos seus membros, como ficou patente com a decisão de pôr fim ao shutdown em troca de muito pouco.

Mamdani representa precisamente o contrário desta apatia. Não imita o Presidente dos Estados Unidos. Nem pede licença nem resume a política a um exercício cinzento de poder. A sua vitória assentou numa combinação rara de ativação e conversão de eleitores. Uma fatia significativa do seu eleitorado – cerca de 15% – não apoiou Harris em 2024: entre eles, antigos votantes de Trump, eleitores de terceiros partidos e muitos que decidiram não votar. Um sinal de que é possível converter eleitores tradicionais e ativar novos. Um padrão que surge também em Nova Jersey e na Virgínia, com uma mensagem clara sobre economia e custo de vida, independentemente da figura de Trump.

É possível alargar uma base eleitoral sem deixar de defender as suas ideias e princípios. Muitas das suas propostas podem ser utópicas e depender de terceiros, como da Governadora do Estado de Nova Iorque, Kathy Hochul, uma Democrata moderada. Mas outras, como autocarros gratuitos, acesso universal a creches ou o congelamento de rendas reguladas, estão longe de ser políticas de um perigoso radical. É o regresso à ideia de que o Estado existe também para equilibrar a balança, não apenas para administrá-la.

Apesar das divergências dentro do Partido Democrata – de um lado Suzan DelBene, congressista e presidente do Comité de Campanha do Congresso Democrata, ou Josh Shapiro, Governador da Pensilvânia, e do outro, Bernie Sanders ou Alexandria Ocasio-Cortez – o mapa eleitoral revelou uma força inesperada. Na Geórgia, alcançaram uma das maiores margens em vinte anos. Na Pensilvânia, swing state por excelência, também venceram, com destaque para o Supremo Tribunal. No Maine, aprovaram uma lei que facilita que familiares solicitem a um tribunal a restrição do acesso a armas por parte de uma pessoa potencialmente perigosa. No Colorado, aprovaram impostos progressivos para financiar refeições escolares. E na Califórnia, garantiram um redesenho favorável do mapa eleitoral, em resposta ao que aconteceu no Texas.

A recuperação em Nova Jersey e na Virgínia dos votantes que Biden perdeu e Harris não ganhou, reforçou a perceção de que uma viragem é possível em 2026. E antecipa um debate interno: as primárias serão o espelho das contradições entre as duas almas Democratas. Contudo, há um terreno comum que não deve ser perdido de vista: os progressistas precisam do partido e o partido precisa deles. Os Democratas dificilmente vencerão sem figuras populares como Mamdani. Mas estas figuras também não triunfarão sem o apoio do partido. Mamdani dificilmente seria um candidato competitivo no Michigan ou no Arizona. E ainda mais improvável – para não dizer impossível – seria uma candidatura à Presidência dos Estados Unidos.

Mas será certamente um dos pontas-de-lança da estratégia Democrata para 2026, juntamente com Shapiro ou Newsom. Uma boa noite eleitoral não resolve os problemas do Partido. Mas a mesma receita de sempre não produzirá resultados diferentes. Os Democratas não precisam de microcausas, mas de uma narrativa que denuncie o fracasso de Trump em aliviar o custo de vida e transformar a insatisfação dos cidadãos numa bandeira comum que una o Partido.

Ao deslocar o discurso das guerras culturais para a economia, preserva a coerência nacional sem sacrificar a diversidade local. Em Nova Iorque, pode adotar um programa mais à esquerda. Na Pensilvânia, uma agenda mais moderada. Sempre articulando o mesmo argumento: a urgência de políticas que enfrentem o custo de vida, da habitação aos cuidados de saúde. Em democracia, título mais importante que o de Presidente é o de cidadão.

Os Estados Unidos podem ser hoje o país de Trump – um país fatigado, polarizado, mergulhado na exceção – mas podem também ser o país de Mamdani, um país que ainda acredita que há um caminho para uma política diferente dentro do espaço democrático. Por muito que custe aos que confundem diagnóstico com caricatura, a democracia americana, quando renasce, não o faz pelo centro, mas pelas margens.

E talvez, desta vez, comece no Hudson.

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