opinião
Correspondente nos Estados Unidos da América

O sonho "putinista" de Trump

2 dez 2021, 09:30

Donald Trump sonha em ser um autocrata como o presidente russo. Perdeu as eleições, mas não desiste

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Num ensaio importante e perturbador, na revista Foreign Affairs, Fiona Hill, ex-funcionária do Conselho de Segurança Nacional, durante a permanência de Donald Trump na Casa Branca, descreve-o como uma espécie de ditador de pacotilha, um aprendiz de autocrata que um dia, quando for grande, quer ser como o presidente russo, Vladimir Putin.

Hill é especialista em assuntos da Europa de Leste e dirigia o gabinete do Conselho de Segurança Nacional dedicado às relações entre os EUA e a Europa, entre 2017 e 2019 e testemunhou contra ele numa audição no Congresso.

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Para além dos danos óbvios que Trump causou aos superiores interesses americanos, no seu relacionamento com o presidente russo, Hill leva-nos a um caminho mais complexo e difícil de enfrentar: Putin decidiu que conseguiria manipular Trump, por entender que os Estados Unidos se estavam a transformar e a ficar mais parecidos com a Rússia.

“Antes das eleições de 2016 nos EUA, Putin reconheceu que os Estados Unidos estavam num caminho semelhante ao que a Rússia seguiu na década de 1990, quando a crise económica e a convulsão política após o colapso da União Soviética deixaram o estado russo fraco e insolvente. Nos Estados Unidos, décadas de rápidas mudanças sociais e demográficas e a grande recessão de 2008/9 enfraqueceram o país e aumentaram sua vulnerabilidade à subversão”, escreve Hill.

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E prossegue: “Putin percebeu que, apesar da retórica altiva que saía de Washington, sobre valores democráticos e normas liberais, sob a superfície os Estados Unidos estavam ficar parecidos com seu próprio país: um lugar onde as elites negociam consigo mesmas esvaziando instituições vitais e, alienadas e frustradas, as pessoas estavam cada vez mais abertas a apelos populistas e autoritários. O fogo já estava a arder; tudo o que Putin precisava de fazer era deitar-lhe gasolina.”

Deitar gasolina foi interferir, com recurso em escala inédita, às redes sociais, nas eleições presidenciais de 2016 e contribuir para a vitória de Donald Trump.

Independentemente do papel da Rússia, a vitória de Trump nas eleições não teria sido possível sem uma parte do eleitorado americano sensível à cacafonia populista e disposta a votar os seus medos em vez de as suas esperanças.

Esse eleitorado, minoritário em 2016 apesar da vitória de Trump (o sistema americano permite a eleição de presidentes sem a maioria dos votos) e minoritário em 2020, na sua derrota, pode, no entanto determinar o vencedor das próximas eleições devido a alterações nas leis eleitorais.

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Derrotado em 2020, Trump perdeu 60 casos em tribunal contestando a sua derrota. Mas esses casos criaram um mapa para republicanos em todo o país: se as leis não permitem ao derrotado ser eleito, então mudam-se as leis.

E é isso que está a acontecer. A Constituição americana deixa a organização das eleições nas mãos das legislaturas estaduais. E em duas dezenas de estados onde são maioria, as legislaturas republicanas alteraram a legislação eleitoral, tornando-a profundamente anti-democrática.

Há medidas que limitam o número de secções de voto (criando longas filas e desencorajando o voto), reduzem as suas horas de funcionamento (nos EUA as eleições são à terça-feira, dia normal de trabalho), punem quem levar água ou alimentos a quem estiver muito tempo na fila à espera de votar (mesmo os deficientes e idosos), reduzem os prazos para votação antecipada e dificultam o voto por correspondência.

Em alguns estados, ainda sem grande sucesso, corre a ideia de as legislaturas controlarem as eleições, potencialmente adulterando os resultados das mesmas.

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Acrescentando as iniciativas para manipular os distritos eleitorais, é teoricamente possível que, recandidatando-se em 2024, Donald Trump seja eleito, com uma minoria dos votos, para uma segunda oportunidade de concretizar o seu sonho putinista: destruir a democracia e colocar o governo ao serviço dos seus interesses e dos da sua família, amigos e aliados.

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