opinião
Correspondente nos Estados Unidos da América

Um exemplo americano para Portugal

28 jan, 10:18

Portugal deve aprender com o desastre eleitoral americano de 2020. O último episódio é este: a Comissão de Inquérito à insurreição de 6 de Janeiro revelou planos alarmantes da Casa Branca de Donald Trump de recorrer às forças armadas numa tentativa de se manter no poder, depois de perder as últimas eleições presidenciais.

A tentativa de golpe perpetrada, no ano passado, por Donald Trump e os seus apoiantes vai ganhando contornos mais claros em público.

Bennie Thompson, presidente da Comissão do Congresso que, contra quase todos os membros republicanos do Congresso, está a tentar apurar o que se passou, entre as eleições de 3 de Novembro e 6 de Janeiro seguinte, disse numa entrevista à cadeia de televisão CBS estar a investigar como apareceu na Casa Branca uma proposta de decreto presidencial que ordenava ao secretário da Defesa*, o confisco das máquinas de votação e contagem de votos.

O documento, citando mentiras e teorias da conspiração estonteantes, parece retirado do argumento de um filme de terceira categoria, ou de uma golpada num país do terceiro mundo – e visava contornar a lei eleitoral permitindo a Trump manter-se no poder, apesar de derrotado nas eleições.

O decreto não chegou a ser assinado e publicado, mas foi discutido com Trump, numa reunião, na Sala Oval da Casa Branca, no dia 16 de Dezembro de 2020. Não é claro quem é o seu autor, apesar de a Comissão do Congresso estar a investigar se teria sido uma advogada, Sidney Powell, que participou na reunião da Sala Oval, e era uma das principais proponentes do roubo da eleição pelos democratas para explicar a derrota de Trump.

Este documento foi um dos que Trump tentou ocultar ao escrutínio público mas foi entregue ao Congresso após decisão do Supremo Tribunal. A Comissão está a tentar apurar se foi redigido a pedido, expresso ou implícito, de Trump e quem, em última análise, travou a sua assinatura.

O plano previsto no decreto não se consumou, mas Trump não desistiu de tentar ganhar, na secretaria, as eleições que justamente perdeu, tudo fazendo para que o Congresso não certificasse vitória limpa do seu adversário.

Passado mais de um ano, as tentativas de destruição da democracia prosseguem e o país trava uma luta intensa pelo seu futuro.

Portugal deve aprender esta lição americana, não porque esteja prestes a confrontar tão extremo ataque à democracia, mas porque os perigos aparecem progressivamente.

A lição é clara: a democracia não é um dado adquirido. Os seus adversários, em maior ou menor número, não dormem e aproveitam todas as oportunidades para conquistarem protagonismo e poder. Os Estados Unidos construíram, durante décadas, o caminho que havia de ser aproveitado por Trump. Não chegamos aqui por acaso,

Portugal tem, agora, partidos anti-democráticos à esquerda e à direita. Os de esquerda encontravam-se acantonados num espaço irrelevante do eleitorado, quando foram levados salvos pela geringonça e poderão regressar. O da direita poderá ser levado a uma maior relevância pelos resultados destas eleições. Todos são maus para a saúde da democracia.

O centrismo, tão – e muitas vezes com razão – criticado, é preferível às alternativas que se perfilam de “campo da esquerda” contra “campo de direita”. O que está a acontecer em Portugal é uma aproximação ao modelo maniqueísta americano de dois partidos, metade contra a outra metade, numa corrida para o fundo dirigida por dirigentes irresponsáveis preocupados, apenas, com a próxima golpada política e a próxima conquista, ainda que pírrica, do poder.

Mas para prevalecer, o centrismo precisa de se lavar. Os que (corruptos e incompetentes) o desacreditaram e abriram portas a fenómenos potencialmente destruidores da democracia, não podem fazer parte da solução. É importante limpar a casa, pensar seriamente em rever as leis sobre corrupção e endireitar caminho no dia 31.

É tempo de centrismo, porque no meio é que está a virtude.

* O secretário da Defesa é, no sistema americano, equivalente a Ministro da Defesa Nacional.

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