Durma, durma, durma: "Após 17 horas acordados, a nossa capacidade é semelhante à de ter 0,5 gramas de álcool por litro de sangue"

25 ago 2025, 11:28
Dormir

E sim, há quem fique bem com menos de sete horas de sono. Mas há só quem fique bem com mais de nove. De qualquer maneira: dormir é tão importante que ajuda a prevenir uma doença particularmente grave

Dormir devidamente faz muito pelo bem-estar e ainda mais pela saúde - pode até reduzir o risco de demência. O pneumologista e especialista em sono Tiago Sá sublinha à CNN Portugal que a ligação entre dormir mal e a perda de células cognitivas “é inequívoca - existem muitas evidências que mostram que um sono de má qualidade aumenta o risco de demência”. 

Tiago Sá explica que um sono de má qualidade, a privação de sono, pouco tempo total de sono e alguns distúrbios - como a apneia obstrutiva de sono - “são fatores de risco para o desenvolvimento de alterações neurológicas, nomeadamente ao nível da demência”. “Após 17 horas acordados, a nossa capacidade de reação e atenção é semelhante à que teríamos se tivéssemos 0,5 gramas de álcool por litro de sangue.”  

O especialista em sono ressalva que, quando um bebé nasce, dorme cerca de 17 horas por dia porque o desenvolvimento cerebral e cognitivo é muito rápido e marcado, logo as necessidades de sono são maiores. Ao longo da vida as horas de sono vão diminuindo, mas “essas horas são essenciais”. 

A quantidade de horas de sono recomendada para a esmagadora maioria da população é de sete a nove horas, mas Tiago Sá esclarece que “existem pessoas que, sem qualquer patologia do sono, precisam de mais de nove horas para se sentirem descansadas, da mesma forma que existe uma pequena percentagem da população que com menos de sete horas por noite não tem sintomas de privação de sono”. 

Estes são os sinais de que o nosso sono não está a ser o mais correto: “Ter dificuldade em manter-se acordado durante o dia ou em concentrar-se por muito tempo, ter aquela dúvida sobre se trancou a porta ou sobre onde estão as chaves. Ou seja, se faz as coisas distraído e com pouca atenção. A irritabilidade é também frequente e são tudo sintomas que nos devem alertar”. 

Poro outro lado: "Quando as pessoas enfrentam cronicamente dificuldade em dormir, quando sentem que o sono não é reparador, quando acordam cansadas, quando têm dificuldade em estar acordadas durante o dia ou quando ressonam, aí devem ser avaliadas, devem procurar ajuda médica". Já os medicamentos para dormir "nunca são uma boa opção sem apoio médico especializado" - "não nos devemos afastar desta noção de que o sono é algo natural".

30% - atenção a esta percentagem

Dois estudos analisados por Andrew E. Budson, professor de neurologia na Universidade de Harvard, nos EUA, demonstram em que medida dormir a quantidade certa de sono pode diminuir o risco de ter demência.  

No primeiro estudo, investigadores da Harvard Medical School analisaram mais de duas mil e oitocentas pessoas com 65 ou mais anos para examinar a relação entre as suas autoavaliações das características de sono em 2014 e o desenvolvimento de demência cinco anos depois. Descobriram que as pessoas que dormiam menos de cinco horas por noite tinham o dobro da probabilidade de desenvolver demência.   

No segundo estudo, investigadores europeus (de França, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia) examinaram dados de quase oito mil participantes e verificaram que dormir consistentemente seis horas ou menos aos 50, 60 e 70 anos estava associado a um aumento de 30% no risco de demência, em comparação com uma duração de sono normal de sete horas. A idade média do diagnóstico de demência foi de 77 anos. 

A doença de Alzheimer é o tipo de demência mais comum - representa cerca de dois terços de todos os casos. De acordo com a CUF, a taxa de prevalência, “que aumenta exponencialmente com a idade, varia de até 1% entre os 60 e os 65 anos a quase 50% acima dos 90 anos, estimando-se um total superior a 150 mil pacientes em Portugal e 35 milhões em todo o mundo.” 

A associação Alzheimer Portugal explica que o motivo pode passar pela acumulação da proteína beta-amilóide, que conduz à perda de ligações cerebrais que causam as demências. Durante o dia, todos produzimos alguma quantidade desta proteína. No entanto, durante o sono, as células do cérebro e as ligações entre elas encolhem – criando mais espaço entre as células, o que facilita a eliminação da beta-amilóide e de outras substâncias que se acumulam ao longo do dia.  

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