Dormir sestas em excesso pode ser um sinal de demência

CNN , Sandee LaMotte
18 jun, 16:00
Entre os sonhos que captaram a atenção dos cientistas estão relatos de pessoas que sonharam que não conseguiam sair de casa porque a maçaneta estava partida ou que não queriam mesmo sair de casa por causa de todo um cenário catastrófico para lá das paredes da habitação - e que até chegava a incluir ursos no jardim. (Pexels)

Fazer sestas frequentes ou com regularidade por períodos prolongados durante o dia poderá ser um sinal de demência inicial em adultos mais velhos, revelou um novo estudo.

Os idosos que faziam, pelo menos, uma sesta por dia ou que dormiam uma sesta mais de uma hora por dia tinham mais 40% de probabilidade de desenvolver Alzheimer do que aqueles que não dormiam a sesta diariamente ou faziam uma sesta inferior a uma hora por dia, segundo o estudo publicado na quinta-feira sobre Alzheimer e demência no The Journal of the Alzheimer’s Association.

“Descobrimos que a ligação entre o excesso de sestas diurnas e a demência permanecia após o ajuste da quantidade e da qualidade de sono noturno”, disse a coautora Yue Leng, professora assistente de psiquiatria na Universidade da Califórnia, São Francisco, num comunicado.

Os resultados ecoam as descobertas de um estudo prévio de Leng que apurou que fazer sestas de duas horas por dia aumentava o risco de deterioração cognitiva em comparação com sestas com duração inferior a 30 minutos por dia.

O estudo novo usou dados recolhidos ao longo de 14 anos pelo Rush Memory and Aging Project, que acompanhou mais de 1400 pessoas entre os 74 e os 88 anos (sendo a idade média de 81).

“Creio que a sociedade não tem noção de que Alzheimer é uma doença cerebral que, muitas vezes, provoca alterações no humor e no comportamento do sono”, disse o Dr. Richard Isaacson, diretor da Clínica de Prevenção de Alzheimer no Center for Brain Health da Faculdade de Medicina Schmidt da Florida Atlantic University.

“As sestas excessivas podem ser uma das muitas pistas de que a pessoa poderá estar a caminho do declínio cognitivo e desencadear uma avaliação pessoal com um médico especializado”, disse Isaacson, que não esteve envolvido no estudo.

Aumento da necessidade de sestas

A quantidade e a qualidade do sono não se deterioram com a idade, muitas vezes isso deve-se a dores ou complicações associadas a doenças crónicas como idas mais frequentes à casa de banho. Contudo, os idosos tendem a fazer sestas com maior frequência do que faziam quando eram mais novos.

Mas as sestas diurnas podem ser um indicador de alterações cerebrais que “não têm que ver com o sono noturno”, disse Leng. Ela fez referência a estudos anteriores que sugeriam que o desenvolvimento de emaranhados neurofibrilares - um sinal característico da doença de Alzheimer - poderão afetar os neurónios promotores da vigília em áreas chave do cérebro, perturbando assim o sono.

Durante 14 dias por ano, os participantes do estudo usaram um aparelho que registava os dados dos seus movimentos. Nenhum movimento durante um período prolongado entre as nove da manhã e as 19 horas era interpretado como uma sesta.

Apesar de ser possível as pessoas estarem a ler ou a ver televisão, “desenvolvemos um algoritmo único para definir as sestas e diferenciar as sestas da não atividade. Não definimos um período específico para ‘sesta prolongada’, mas estávamos mais centrados nos minutos acumulados de sestas por dia e na alteração da duração das sestas ao longo dos anos”, disse Leng à CNN, via e-mail.

“Mais estudos são necessários com aparelhos validados para detetar o sono versus comportamento sedentário”, disse Isaacson. “Mas, ao mesmo tempo, ser sedentário e não se mexer durante longos períodos é um conhecido fator de risco para um declínio cognitivo e Alzheimer.”

“Independentemente da razão, adormecer durante o dia ou sestas excessivas deixa-me em alerta e tento determinar se a pessoa poderá correr um risco alto de desenvolver doença de Alzheimer ou declínio cognitivo”, disse ele.

Ao longo dos 14 anos, o estudo apurou que as sestas diurnas aumentaram em média 11 minutos por ano para os adultos que não desenvolveram alteração cognitiva. Contudo, um diagnóstico de alteração cognitiva ligeira duplicou o tempo da sesta para um total de 24 minutos por dia. As pessoas que foram diagnosticadas com Alzheimer quase triplicaram a duração da sesta, para uma média de 68 minutos por dia.

O “aumento drástico” da duração e frequência da sesta ao longo dos anos parece ser um sinal particularmente importante, disse Leng.

“Creio que não temos evidências suficientes para tirar conclusões sobre a relação causal, que é a própria sesta que causa o envelhecimento cognitivo, mas a sesta excessiva diurna poderá ser um sinal de envelhecimento acelerado ou processo de envelhecimento cognitivo”, disse ela.

O que fazer?

Os adultos devem, de preferência, limitar as sestas diurnas a 15 ou 20 minutos antes das 15 horas para tirarem proveito dos benefícios mais revigorantes da sesta e não prejudicarem o sono noturno, disse Leng.

Para além disso, os adultos mais velhos e os cuidadores de pessoas com a doença de Alzheimer deviam prestar mais atenção ao comportamento das sestas diurnas e estar atentos aos sinais de maior número de sestas ou sestas excessivas, disse ela.

Qualquer aumento significativo de sestas deveria ser comunicado a um médico, disse Isaacson.

“Creio que nunca é tarde demais para alguém fazer uma mudança saudável no estilo de vida cerebral ou prestar mais atenção à saúde cerebral”, disse Isaacson. “Tornar o sono uma prioridade, prestar atenção à qualidade do sono e falar com o nosso médico sobre o sono são três coisas fundamentais.”

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