Propostas ambiciosas para salvar as camadas de gelo do planeta, incluindo cortinas submarinas gigantes e o recongelamento do gelo do Ártico, estão a ganhar popularidade à medida que o planeta aquece. Mas nenhuma das ideias mais badaladas é viável - pior ainda, podem causar danos irreparáveis, de acordo com um novo estudo publicado em setembro.
O derretimento das vastas camadas de gelo polares tornou-se sinónimo de alterações climáticas; estas gigantescas paisagens geladas contêm água suficiente para causar um aumento catastrófico do nível do mar e estão a sofrer mudanças alarmantes à medida que as temperaturas aumentam.
Como resultado, as ideias para arrefecer artificialmente o Ártico e a Antártida, conhecidas como “geoengenharia polar”, estão a ganhar destaque. Os académicos lançaram projetos de investigação, as start-ups estão a proliferar e os investidores estão a aderir em massa.
Os defensores da geoengenharia dizem que a urgência da crise climática torna vital a investigação dessas possíveis soluções. Os autores do relatório, publicado na revista Frontiers in Science, dizem que estas medidas são uma distração perigosa.
“Essas ideias geralmente são bem-intencionadas, mas têm falhas”, explica Martin Siegert, glaciologista da Universidade de Exeter e autor do estudo. Juntamente com uma equipa de cientistas internacionais analisaram cinco das ideias mais divulgadas:
- Bombear água do mar sobre o gelo para engrossá-lo artificialmente ou espalhar esferas de vidro para tornar o gelo marinho mais refletivo;
- Ancorar cortinas gigantes no fundo do mar para impedir que a água quente derreta as plataformas de gelo;
- Pulverizar partículas refletoras do sol na estratosfera, também chamada de geoengenharia solar, para arrefecer o planeta;
- Perfurar para bombear água por baixo dos glaciares para diminuir o fluxo da camada de gelo;
- Adicionar nutrientes como ferro aos oceanos polares para estimular o plâncton que absorve carbono.
Os cientistas avaliaram cada proposta quanto à sua eficácia, viabilidade, riscos, custos, questões de governança e escalabilidade. Nenhuma das cinco ideias “passou no escrutínio” e todas “seriam ambientalmente perigosas”, concluiu o relatório.
O Ártico e a Antártida estão entre os ambientes mais hostis do planeta, e essas ideias - muitas das quais vão além de tudo o que os humanos já tentaram antes - não levam em consideração esses desafios, alerta Siegert.
Nenhum dos métodos foi testado de forma robusta em escala, sem nenhuma experiência no mundo real para cortinas marítimas, pode ler-se no relatório, que concluiu que cada uma das cinco ideias apresentava risco de “danos ambientais intrínsecos”.
As cortinas marítimas poderiam perturbar os habitats de animais marinhos, incluindo focas e baleias; a perfuração de buracos para remover água debaixo das geleiras poderia contaminar um ambiente intocado; e a pulverização de partículas na estratosfera poderia alterar os padrões climáticos globais, de acordo com o relatório.
A proposta de espalhar pequenas esferas de vidro na superfície do oceano para impedir que absorva o calor do sol foi uma das mais preocupantes, apontam os autores do relatório.
A investigação realizada pelo Arctic Ice Project sobre o impacto das esferas de vidro no oceano foi encerrada no início deste ano depois de testes ecotoxicológicos “revelarem riscos potenciais para a cadeia alimentar do Ártico”, de acordo com uma declaração no site da organização. Também culpou um “amplo ceticismo em relação à geoengenharia”.
O preço destas intervenções também seria exorbitante, com cada uma a custar pelo menos 10 mil milhões de dólares (cerca de 8,5 mil milhões de euros) para ser instalada e mantida, de acordo com o relatório. As cortinas marítimas estavam entre as mais caras, com um custo projetado de 80 mil milhões de dólares (aproximadamente 68 mil milhões de euros) ao longo de uma década para uma cortina de 50 milhas (perto de 81 quilómetros).
Mesmo que os projetos pudessem superar obstáculos significativos, nenhum poderia ser implementado em escala suficiente e com rapidez necessária para atender à urgência da crise climática, conclui o relatório. “As medidas tornam-se uma distração do que sabemos que precisamos fazer... que é reduzir as nossas emissões”, aponta Siegert.
Mas alguns cientistas, embora endossem a necessidade de reduzir drasticamente a poluição que aquece o planeta, alertaram contra o corte de pesquisas em geoengenharia polar.
“Infelizmente, enfrentamos graves danos ambientais sem a geoengenharia”, refere Shaun Fitzgerald, diretor do Centro de Reparação Climática da Universidade de Cambridge, que está envolvido em projetos de engenharia climática. “Em vez de dizer que não devemos aprofundar a geoengenharia, devemos procurar um debate sobre os riscos relativos”, aponta.
Pete Irvine, professor assistente de investigação em ciências geofísicas na Universidade de Chicago, considera o relatório “uma análise unilateral das propostas de geoengenharia polar que enfatiza apenas os efeitos colaterais, as desvantagens e o potencial de uso indevido”.
Em que se pode ler que a geoengenharia solar, por exemplo, não era um substituto para a redução das emissões, “mas essas intervenções podem contribuir significativamente para a saúde do nosso planeta”.
Alguns alertaram que o mundo está agora tão longe do caminho certo em relação às ações climáticas que é vital continuar a estudar a geoengenharia polar. É “essencial e urgente, particularmente nas regiões árticas, onde os impactos são mais evidentes”, alerta Hugh Hunt, vice-diretor do Centro para Reparação Climática da Universidade de Cambridge.
No entanto, outros cientistas disseram que o estudo oferece uma análise completa e muito necessária dos riscos.
“Fundamentalmente, o artigo mostra de forma clara e perspicaz que estas intervenções de geoengenharia polar são uma distração perigosa da redução das emissões de carbono e não representam uma solução realista ou económica”, afirma Bethan Davies, catedrática de glaciologia na Universidade de Newcastle.
Tina van de Flierdt, chefe do departamento de Ciências da Terra e Engenharia do Imperial College London, afirmou: “Como alguém que realizou trabalhos de campo desafiadores na Antártida, quero enfatizar que todos os métodos sugeridos são cientificamente falhos, não comprovados, perigosos ou logisticamente inviáveis.”
Siegert diz que entende o apelo desses projetos milagrosos, mas alertou que “as regiões polares são sistemas frágeis e intocados e, uma vez perturbados e destruídos, ficam arruinados para sempre”.