Houve uma surpresa no Ártico que nos deu "mais algum tempo". Mas depois vem o pior

20 ago 2025, 15:16
O degelo no Ártico (AP Photo/David Goldman)

Processo de degelo no Ártico desacelerou nas últimas duas décadas. Mas as boas notícias são temporárias

Nos últimos 20 anos o derretimento do gelo no Ártico tem vindo a desacelerar dramaticamente. São boas notícias para o planeta (e para nós), mas os cientistas confirmam que esta desaceleração é apenas temporária.

Ao contrário do que se possa pensar, esta descoberta não quer dizer que o gelo do Ártico esteja a recuperar do processo de derretimento. De acordo com os cientistas, esta trégua é provisória, e é muito provável que o degelo se volte a intensificar ao dobro da velocidade média registada a um longo prazo nos próximos cinco a dez anos.

Mark England dirigiu o estudo na Universidade de Exeter, em Inglaterra, e apresenta uma explicação para este fenómeno: “A variabilidade natural cancelou em massa a perda de gelo marinho e isso deu-nos mais algum tempo, mas quando esta suspensão terminar, não serão boas notícias”, afirmou, em declarações ao The Guardian. Os cientistas avançam que estas variações naturais são fruto de flutuações com várias décadas nas correntes dos oceanos Atlântico e Pacífico, que alteram a quantidade de água aquecida que percorre o Ártico.

O artigo científico “Minimal Arctic Sea Ice Loss in the Last 20 Years, Consistent With Internal Climate Variability”, publicado no jornal Geophysical Research Letters, explica a investigação que decorreu sobre os níveis de gelo do Ártico. Os investigadores compararam dois conjuntos de dados dos níveis do gelo na zona, desde 1979 até aos dias de hoje. Depois de estas variações naturais serem observadas em diferentes modelos climáticos, a conclusão tornou-se clara: a desaceleração foi provocada pelas flutuações naturais do sistema. Pode parecer uma espécie de milagre, mas Mark England garante que “este não é um evento extremamente raro, uma vez que ao longo de um século é provável que aconteça algumas vezes.”

Ao mesmo tempo que a investigação confirma um degelo mais lento, dá também certezas à comunidade científica de que este fenómeno será compensado com uma aceleração da perda de gelo marinho. 

Apesar de a descoberta ter gerado surpresa, dado o aumento das emissões de carbono provenientes dos combustíveis fósseis e a sua capacidade de acumular cada vez mais calor, para os cientistas continua a ser fundamental falar sobre a necessidade de agir perante a crise climática que permanece “inequivocamente real”. Para Mark England não deixa de ser “surpreendente falar-se de uma desaceleração quando o debate público se centra na celeridade do aquecimento global.” 

Numa realidade onde os discursos negacionistas sobre as alterações do clima proliferam, o professor Andrew Shepherd, da Universidade de Nortúmbria, reforça ao The Guardian a importância de esclarecer esta alteração no processo de degelo do Ártico, sendo que “algumas pessoas podem tentar usar a descoberta para minimizar aquilo que se está a passar com a mudança do clima”. 

O Ártico continua ameaçado e prevê-se que esteja completamente “livre” de gelo até 2050. Este cenário representa um perigo para toda a população e vida selvagem, assim como para o aquecimento global que será potenciado pelo fenómeno. 

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