Tetraplégica é deixada sozinha num avião durante hora e meia

7 jun, 19:46
Mulher tetraplégica é esquecida num avião durante uma hora e meia (Twitter: Sonia Sodha)

Victoria Brignell reservou uma equipa de assistência com três meses de antecedência, mas mesmo assim viu-se esquecida. O aeroporto já pediu desculpa e garantiu estar a averiguar a situação, perante a revolta de ativistas e pessoas com deficiência

Victoria Brignell é tetraplégica. "Não consigo usar nem os braços nem as pernas", explicita. A sua condição exige cuidados específicos em várias ocasiões do quotidiano - e também quando viaja. São precisas duas pessoas para a levantar do lugar, instalá-la numa cadeira de rodas especificamente concebida para o corredor estreito do avião e, por fim, elevá-la até à cadeira de rodas que a espera no exterior.

Consciente da necessidade de mobilização de profissionais, Victoria contactou uma equipa do aeroporto de Gatwick, em Londres, com três meses de antecedência. Duas semanas antes do voo, entrou novamente em contacto para confirmar que tanto os profissionais como os equipamentos de apoio à mobilidade estariam disponíveis à chegada. "Não foi como se tivesse simplesmente aparecido. Sabiam que estava a caminho", frisa. "Mesmo assim, não tive o serviço que seria suposto ter." 

Inicialmente, foi-lhe dito que teria de aguardar 50 minutos pela equipa de apoio. Uma hora e meia depois de o avião ter aterrado no aeroporto de Gatwick, o segundo mais transitado da capital britânica, Victoria Brignell ainda esperava pelos serviços que tinha reservado.

"A cadeira de rodas chegou sem demora, mas as pessoas que seria suposto ajudarem-me a sair do avião não apareceram - estavam ocupadas em qualquer outro sítio", ironiza, citada pela BBC News

No período de tempo em que permaneceu no lugar, sem qualquer alternativa que permitisse a locomoção, viu-se também impossibilitada de usar a casa de banho. 

O atraso obrigou a que os assistentes de voo da British Airways permanecessem no interior do avião, hora e meia após o fim dos turnos. Ainda assim, Victoria conta que os colaboradores da companhia aérea se revelaram empáticos com a situação e que lhe trouxeram bebidas, numa atitude que elogiou como "fantástica". 

Os passageiros que aguardavam no aeroporto viram, também, adiados os seus planos de viagem. 

A partilha de uma foto de Victoria no interior do avião deserto percorreu as redes sociais e motivou uma resposta por parte do aeroporto de Gatwick, que reconheceu a situação como "inaceitável" e pediu "as mais sinceras desculpas" à passageira. 

"O aeroporto e Wilson James, o nosso fornecedor de assistência, estão a investigar o que poderá ter acontecido com a maior urgência", acrescentou fonte do aeroporto. Um porta-voz de Wilson James acrescentou ainda que a equipa está "profundamente desapontada por ter prestado um mau serviço nesta ocasião". 

"A experiência da Ms. Brignell é inaceitável e fica muito aquém dos nossos valores e objetivos", lamenta a mesma fonte. 

O pedido de desculpas não é, contudo, suficiente, e Victoria pretende apresentar queixa. 

"Os aeroportos do Reino Unido precisam de organizar antecipadamente os seus colaboradores, de forma apropriada", sublinha. "Simplesmente sinto que, em 2022, as pessoas não deveriam estar presas num avião durante tanto tempo.

Histórias de "terror" e desigualdade

Victoria voltava de Malta, naquela que era a sua quarta viagem de avião. Raramente viaja e aponta motivos para isso: "Sempre me senti muito nervosa com viagens de avião, porque tinha ouvido imensas histórias de terror sobre cadeiras de rodas desaparecidas." 

De facto, relatos de experiências semelhantes têm vindo a acumular-se ao longo dos últimos anos. A baronesa Tanni Grey-Thompson, política e atleta paralímpica galesa, mostrou-se solidária e disse ter sofrido uma experiência semelhante com outra companhia aérea. 

"Não me deram indicações claras sobre quando viria a assistência. A minha cadeira de rodas estava à saída, pelo que decidi arrastar-me, no chão, para fora do avião". 

Frank Gardner, um jornalista britânico da BBC com mobilidade reduzida, testemunhou que estas situações estão a tornar-se "deprimentemente familiares". 

"Os aeroportos parecem estar a retroceder. O nível de investimento e esforço que é usado para ganhar dinheiro não é igualado pelo esforço necessário para tirar os passageiros com deficiência dos aviões, ao mesmo tempo que todos os outros." 

O caso de Victoria reacende a discussão sobre o tratamento de pessoas com deficiência na maioria dos aeroportos, ainda pouco inclusivos. Mas os ativistas realçam: esta não é apenas uma questão de mobilidade. Trata-se, acima de tudo, de uma discussão sobre direitos humanos e igualdade.

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