Na Europa, surge um dilema recorrente sempre que se aborda o tema da defesa. Por um lado, existe uma clara vontade política de avançar para uma autonomia estratégica partilhada e pan-europeia. Por outro, persistem modelos que tendem a concentrar a atividade em silos nacionais. É, por isso, imperativo encontrar uma solução que combine ambas as abordagens para alcançar a necessária autonomia europeia da forma mais ágil e eficiente possível.
Num tabuleiro geopolítico tão complexo como o atual, o modelo de concentração puramente nacional ou fragmentado levanta várias questões. A invasão da Ucrânia, a dependência tecnológica crítica de terceiros países, as incertezas sobre o compromisso contínuo dos EUA na defesa da Europa ou o novo impulso de Bruxelas à indústria europeia de defesa exigem, mais do que nunca, uma reflexão profunda.
Para Portugal, tal como para os restantes parceiros europeus, as questões são prementes: Podemos realmente dar-nos ao luxo de continuar a apostar em estruturas fragmentadas, duplicadas e, em muitos casos, ineficientes? Que modelo alternativo seria capaz de atender de forma efetiva às necessidades das Forças Armadas e do Estado?
Neste contexto, acreditamos que faria sentido propor a criação de clusters por cada segmento do mercado de defesa, onde exista uma liderança europeia apoiada por parceiros e "delegados" a nível nacional. Esta abordagem impulsionaria a eficiência e a agilidade no desenvolvimento, permitindo reutilizar de forma transversal equipamentos e sistemas já comprovados, sem a necessidade de "reinventar a roda" em cada país, mas assegurando sempre a participação ativa da indústria nacional e do talento da engenharia portuguesa.
Perante este cenário, cabe perguntar se cada país dispõe, isoladamente, tem capacidade real para fazer as entregas às Forças Armadas em tempo útil, cumprindo com os compromissos atuais e as necessidades efetivas no terreno. A realidade demonstra que, sem a participação real de todo o ecossistema, que une grandes empresas, PMEs, academia, atores nacionais e internacionais, esta parece uma tarefa ímproba.
Esta questão remete-nos para a disjuntiva clássica entre eficiência e duplicação de capacidades. Como assinalou Josep Borrell, Alto Representante da UE, há cerca de três anos: "A Europa não precisa de 27 modelos de tanques". Contudo, os países europeus continuam a investir de forma redundante, um facto que se agrava quando se impõem barreiras à entrada de soluções partilhadas.
Se dentro da Europa já existe uma determinada capacidade tecnológica, que sentido faz começar do zero em cada país? Do ponto de vista da gestão eficiente dos recursos públicos e dos tempos de resposta, nenhum. Não deveria ser aceitável que cada nação procure soluções proprietárias para todos os sistemas, iniciando desenvolvimentos locais num momento em que dispor de capacidades a curto prazo é vital para a segurança do continente.
Existe ainda uma terceira reflexão, vinculada à inovação e à dependência tecnológica: como determinar os modelos que gerem estruturas competitivas, incentivem a inovação e promovam a colaboração transnacional?
Esta opção deve estar alinhada com a agilidade que hoje a indústria de defesa requer perante novos desafios. É urgente avançar em tecnologias estratégicas como a Inteligência Artificial, a computação quântica e a cibersegurança, áreas onde Portugal tem demonstrado um talento notável e capacidade de contribuição. A questão chave deve ser como definir um modelo europeu que favoreça este cenário partilhado.
Por último, e não menos importante, convém construir um modelo onde a transparência seja um pilar essencial na geração de capacidades europeias, ao mesmo tempo que se reforçam os interesses industriais nacionais. A Europa deve caminhar para uma integração mais real. Tal só será possível se garantirmos que a soberania tecnológica seja um conceito europeu e se priorizarem critérios técnicos e estratégicos, como a interoperabilidade. Tudo isto dentro de um modelo inclusivo que integre todos os atores do ecossistema.
O diagnóstico está feito: Portugal, e a Europa, precisam de empresas que coloquem a inovação, a tecnologia, a eficiência e a interoperabilidade ao serviço de um projeto comum. Essa é a genuína visão europeísta e o caminho que, creio, todos devemos defender.