A invasão da Ucrânia e o recente agravamento das tensões no Médio Oriente aceleraram definitivamente uma mudança estrutural na Europa. O orçamento destinado ao sector da Defesa deixou de ser visto como uma despesa e passou a ser encarado como um investimento estratégico, essencial para assegurar a autonomia e a soberania dos países europeus, durante anos “adormecidos” sobre o manto tranquilizador da NATO.
Se dúvidas houvesse, quanto à priorização da Defesa enquanto sector estratégico e estrutural, os sinais dados pelos Governos são evidentes: reforço dos orçamentos públicos destinados a despesas militares, consequente reforço do orçamento da NATO, e estabelecimento de programas europeus de defesa conjunta, com um reforço claro da base industrial de defesa.
Portugal prevê alocar qualquer coisa como 6 mil milhões de euros do seu orçamento de Estado a equipamentos de Defesa, nomeadamente em fragatas adquiridas à Itália, um investimento histórico nas Forças Armadas, sendo mesmo o maior investimento dos últimos 50 anos.
Todo este investimento público, de Portugal e não só, mobiliza necessariamente uma série de outros equipamentos e serviços associados, representando por isso uma enorme oportunidade para investidores e empresas se mobilizarem, naquilo a que já podemos começar a designar de “Economia de Defesa Europeia”.
Como é natural, os mercados financeiros estão atentos às oportunidades e por isso mesmo, em Julho de 2025, a Euronext lançou as “European Defence Bonds”, instrumentos de dívida, em tudo idênticas às obrigações tradicionais, mas sob uma classificação que indica claramente aos investidores que estas obrigações se destinam a entidades e a projetos ligados à defesa, à segurança ou a dual technologies (i.e., tecnologia com aplicações simultaneamente civis e militares).
No fundo, o que este selo visa é criar no mercado de capitais um enquadramento mais transparente e alinhado com as prioridades estabelecidas pela União Europeia, institucionalizando o sector da Defesa como uma opção estratégica, levando a um crescente envolvimento e a uma maior apetência e aceitação, do ecossistema de investidores, da Defesa enquanto prioridade de investimento.
E tudo aponta, de facto, para uma verdadeira consolidação da economia de defesa europeia. A base industrial está a ser claramente reforçada, a inovação tecnológica, nomeadamente a dual, ganha escala e o financiamento começa a deixar de depender exclusivamente de orçamentos públicos, mobilizando-se também o investimento privado para fins de segurança e defesa.
Para as empresas portuguesas, isto representa uma enorme oportunidade. Há, pela primeira vez, acesso a financiamento especializado em matéria de defesa. Este alinhamento, no qual se inclui o selo das “Defence bonds”, permite a investidores, mas também a empresas, identificar parceiros estratégicos, potenciando a possibilidade de integração em consórcios e em cadeias de valor europeu.
Para o mercado de capitais português, é também uma oportunidade clara para se posicionar enquanto plataforma de captação de investimento, nomeadamente de investimento direto estrangeiro, para o sector da defesa e segurança. Arrisco-me a dizer que estamos perante uma mudança de paradigma semelhante à que aconteceu com a transição energética, mas aplicada à segurança e autonomia estratégica.
Definitivamente, a questão deixou de ser “Quanto gastar em Defesa” para ser “Como financiar estrategicamente a Defesa”, dando-se início a um novo ciclo de investimento estrutural para Portugal, em particular, e para a Europa, em geral.