Houve uma revolução recente no mundo da Inteligência Artificial. Não, não é essa. Outra. Uma revolução dentro da revolução. Uma equipa de investigadores chineses acaba de lançar a família de modelos DeepSeek-R1. Os testes feitos até à data da escrita deste artigo dão a entender que a sua performance é quase tão boa como o modelo tido em conta como o melhor no mercado, o GPT-o1 da OpenAI, conhecidos pelo famoso interface ChatGPT. A revolução consiste em como foi treinado e na maneira como o DeepSeek-R1 chegou ao público: numa licença de código de fonte aberta. Qualquer pessoa consegue auditar como o código foi feito e adaptá-lo à sua medida. Poderá este pequeno gesto ter sido capaz de ter posto em causa o modelo económico de todo o setor de IA? Não só nos Estados Unidos mas inclusive na própria China. A equipa que desenvolveu este modelo fê-lo como um projeto secundário, não como investigação principal. O modelo foi criado sem hardware topo de gama (mas bastante bom na mesma) mas de um modo muito mais eficiente. Toda a história merece ser acompanhada de perto nos próximos tempos, mas para já fica uma certeza. O projeto StarGate recentemente anunciado pela OpenAI pode ter já sido posto em causa. Este projeto previa o investimento de 500 mil milhões de dólares no desenvolvimento da infraestrutura de próxima geração de IA dos Estados Unidos. A inovação nas companhias de IA diz-se já ter estagnado devido a terem ficado demasiado balofas demasiado depressa. Os novos modelos “são apenas” iterações maiores da mesma arquitetura dos anteriores. Com o DeepSeek-R1, houve de facto inovação, tornando o modelo muitíssimo mais barato e eficiente. As companhias americanas da IA acusam o DeepSeek de ser um cavalo de Tróia do Partido Comunista Chinês (PCC) ou uma estratégia de dumping para comprometer a economia americana. Mas será assim? Mesmo depois do código ter sido aberto ao mundo?
A resposta que consigo dar por agora é: depende. Uma coisa é utilizar a app que acede ao modelo(o seu equivalente ao ChatGPT), outra é instalar o modelo num dispositivo nosso. A app tem dispositivos de segurança (guard rails), provavelmente mais próximo de censura em definição, acerca de perguntas que se podem ou não fazer. Se perguntarem na app por eventos negados pelo PCC, não obterão resposta. Em relação aos dados dos utilizadores, de certeza que os recolhe, assim como todas as outras apps. Já instalar o modelo de código fonte aberta é outra história e é nesta modalidade que eu penso que a revolução aconteceu. Não tanto na questão “China VS EUA”, mas no modelo de entrega ao público: “Fonte Aberta VS Fonte Fechada”.
Voltando à eficiência do modelo. Quer isto dizer que os gastos da IA em energia irão diminuir? É aqui que entra o paradoxo de Jevons. O paradoxo, de modo simplificado, diz que “o aumento na eficiência da obtenção de um recurso diminui tanto o seu custo que a procura por esse recurso pode aumentar”. De uma maneira mais simples, com um exemplo: se a eficiência na geração de eletricidade aumentar consideravelmente, o seu custo cairá. Se o seu custo cair, as pessoas utilizarão mais, e não menos eletricidade. Novos negócios aparecerão que eram inviáveis antes da redução do custo. Os negócios que já eram viáveis vêem um factor de custo desaparecer e irão crescer. A eficiência energética é portanto um vector de desenvolvimento económico, e não uma maneira encapotada de forçar as pessoas a vidas mais austeras, como os decrescentistas gostariam que fosse. É altamente provável que a libertação de ferramentas de IA state of the art em código aberto altere drasticamente o modelo de negócio das grandes tecnológicas. É também provável que aumentem o consumo de eletricidade, visto que qualquer um terá acesso a um assistente pessoal competente no seu telemóvel, portátil, TV, carro, etc.. As vendas de placas gráficas e outros elementos de computação poderão também aumentar, visto que agora a possibilidade de novas formas de utilizar IA em modo faça-você-mesmo aumentou exponencialmente. Jevons far-se-á sentir quando surgirem novos casos de negócios para empresas.
Já outra revolução está neste momento a fermentar. A primeira revolução verde deu-se no século XX, entre as décadas de 60 e 80. Esta última assentou num melhor uso de fertilizantes, pesticidas, variedades de alto rendimento, políticas de utilização de solos, e mecanização. A produção agrícola aumentou drasticamente, utilizando-se a mesma área de terrenos de cultivo. Uma das figuras chave da revolução verde foi Norman Borlaug, que viria a ganhar o prémio Nobel da paz em 1970. Acredita-se que Borlaug tenha salvado algo como mil milhões de pessoas de morrer à fome. A segunda revolução verde pode já ter começado a sério e ainda não nos termos apercebido. Mais mecanização, com drones a executar a aplicação de fertilizantes e pesticidas com precisão cirúrgica. Modificações genéticas com técnicas como CRISPR para tornar as variedades actuais mais resilientes a um planeta com um clima mais instável ou mesmo para tornar certas variedades viáveis em algumas partes do mundo. A fermentação de precisão, o mesmo método que hoje cria toda a insulina que usamos, poderá ser a fonte de proteína barata que mudará o paradigma alimentar. Novamente, vemos a China altamente empenhada em inovar em todas as frentes, reforçando ao máximo a sua segurança alimentar. Nos Estados Unidos, no entanto, temos Robert Kennedy Jr como uma personagem altamente influente da administração Trump. Mesmo não ficando com a pasta da agricultura, RFK Jr poderá exercer a sua influência e pôr em causa a segurança alimentar dos EUA. A resposta simples dos EUA à inovação exterior, quer na agricultura quer na IA, parece ser protecionismo. Isto é apenas pôr um pequeno penso na ferida e não a grande operação cirúrgica necessária.
E o que é que as duas revoluções têm em comum? Ambas necessitam de uma enorme quantidade de eletricidade, de preferência constante, fiável, e de baixo carbono. Caso não seja possível, a nossa dependência de combustíveis fósseis poderá aumentar.
A Hipótese da Rainha Vermelha (inspirada por Alice no País das Maravilhas) é uma teoria em biologia evolutiva que diz que uma espécie se deve adaptar constantemente e o mais rápido possível apenas para manter o seu lugar na cadeia alimentar. Todos os elos da cadeia alimentar estão sob pressão para evoluir e ganhar a vantagem que os tornarão dominantes. Os elos que não o conseguirem fazer poderão enfrentar a extinção. É verdade também para civilizações. Manter o lugar de topo é uma luta constante. Quando uma civilização ameaça a hegemonia de outra, o resultado é a guerra. Irá o mundo cair na famosa Armadilha de Tucídides? O custo poderá ser demasiado elevado e sem interesse de ambas as partes.
Sou optimista ao ponto de crer que haverá inovação suficiente para que qualquer um tenha acesso à alimentação, saúde, energia, e informação necessárias para poder cumprir todo o seu potencial em vida. Para ser feliz. Numa economia de pós-escassez, pode ser possível desarmadilhar Tucídides.
