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Como a Estação Espacial Internacional mas no Oceano. Esta empresa quer "tornar os humanos aquáticos"

CNN , Amy Gunia
27 out 2024, 17:00
Sentinel (DEEP)

Quando um centro de mergulho numa pedreira inundada perto de Bristol, no Reino Unido, foi subitamente encerrado no início de 2022, muitos mergulhadores recreativos ficaram a coçar a cabeça.

Quase dois anos depois, obtiveram algumas respostas. A DEEP, uma empresa britânica de tecnologia oceânica que adquiriu o local de mergulho como centro de investigação e campus da empresa, saiu do modo furtivo em setembro passado, revelando a sua missão de “tornar os humanos aquáticos”.

O objetivo do seu plano é criar um habitat subaquático designado sistema Sentinel, que, segundo a empresa, permitirá que as pessoas vivam e trabalhem a uma profundidade de 200 metros durante um mês.

O sistema Sentinel é composto por módulos interligados e pode ser utilizado para fins que vão desde a recolha de dados sobre a química dos oceanos até à escavação de naufrágios históricos. O habitat escalável pode ser configurado em diferentes formas, tornando-o adequado tanto para uma missão de seis pessoas como para uma estação de investigação de 50 pessoas, segundo a DEEP.

A empresa espera que os seus habitats possam incentivar a presença humana permanente debaixo de água, tal qual a Estação Espacial Internacional (ISS) - que, desde 2000, permite aos seres humanos viver e trabalhar no espaço - mas, no caso, para o oceano.

Na semana passada, a DEEP anunciou um precursor do Sentinel, um habitat subaquático mais pequeno, que a empresa utilizará para desenvolver sistemas para o Sentinel, mas que também será lançado como um produto separado.

O Vanguard, um habitat de 12 metros por 7,5 metros com espaço suficiente para três pessoas permanecerem debaixo de água durante uma semana, estará pronto para ser lançado à água no campus da DEEP no Reino Unido no início de 2025.

A imagem de uma maquete do Vanguard, o habitat submarino-piloto da DEEP
Uma representação em grande escala de um sistema Sentinel em construção. Será usado para treinar mergulhadores (Imagem: DEEP)

À CNN, o presidente da DEEP, Sean Wolpert, afirma que este habitat-piloto poderá ser importante em alturas em que é necessária uma ação imediata, como a missão de busca, em agosto, dos sobreviventes de um super-iate que se afundou ao largo da Sicília.

No caso, com a embarcação a afundar-se a uma profundidade de 50 metros, os mergulhadores só puderam permanecer debaixo de água durante cerca de 12 minutos antes de voltarem à superfície. Um habitat subaquático colocado no fundo do mar perto do naufrágio poderia servir de base para os mergulhadores, teoriza Wolpert.

Atualmente, existe apenas um laboratório de investigação submarina operacional no mundo, gerido pela Universidade Internacional da Flórida, que é utilizado por todos, desde investigadores que estudam corais a astronautas da NASA em treinos em ambientes extremos. Se tudo correr como planeado, o Sentinel estará pronto a funcionar em 2027, e Wolpert espera vê-los implantados em todo o mundo. Mas a DEEP reconhece que será necessário um grande esforço para atingir os seus ambiciosos objetivos.

“Porque não foi feito antes da forma que estamos a tentar fazer?”, questiona Wolpert. “Porque é muito difícil. Por isso, temos estado a trabalhar incansavelmente”, acrescenta.

O campus de 20 hectares da DEEP, perto de Bristol, no Reino Unido, é o lar de uma pedreira de calcário inundada, que já foi usada como local de mergulho no interior. O habitat Vanguard será testado lá em 2025 (Imagem: DEEP)

“Um catalisador para novas carreiras”

Os módulos do Sentinel vão ser impressos em 3D por um conjunto de seis robôs, utilizando aço reforçado com uma superliga à base de níquel chamada Inconel, que pode resistir a condições extremas e tem sido utilizada em componentes para o Space Shuttle e foguetes para a SpaceX.

Dependendo da pressão em que opera, o sistema Sentinel pode ser acedido por um submarino, que bloqueia com o habitat, ou por mergulhadores, que podem entrar através de uma abertura no fundo da “piscina lunar”.

O habitat inclui uma boia de apoio à superfície, que será equipada com uma interface Starlink para gerar conectividade, e será alimentado por fontes renováveis, como turbinas eólicas e painéis solares à superfície.

A empresa está em fase de pré-receita, mas está envolvida em discussões avançadas com organizações e governos de todo o mundo, garante Wolpert, que é um antigo gestor de fundos de cobertura. Os clientes podem alugar, comprar ou apenas partilhar espaço num habitat, dependendo das suas necessidades.

Os habitats, acrescenta, podem funcionar como catalisadores de novas carreiras e novos investimentos relacionados com o oceano, “à semelhança do que a Estação Espacial Internacional fez ao tornar o espaço novamente sexy”.

Outras utilizações poderão incluir a monitorização e a reparação de infraestruturas submarinas críticas, o turismo, a formação para o espaço, a recuperação de corais, a formação de mergulhadores navais e a investigação médica. Quando os trabalhos estiverem concluídos, o habitat pode ser recolocado num novo local.

Hoje, o Aquarius, em Florida Keys, é usado por todos, desde biólogos marinhos que estudam corais até astronautas que se preparam para viajar para o espaço. Imagem: OAR/Programa Nacional de Pesquisa Submarina (NURP); Universidade Fairleigh Dickinson

O trabalho da DEEP surge numa altura em que há um interesse crescente em utilizar os recursos dos oceanos - desde a energia eólica offshore até aos minerais das profundezas do mar.

Mas os habitats poderão também permitir aos biólogos marinhos compreender o oceano de uma forma que não é possível durante viagens mais curtas, através de mergulho ou da utilização de embarcações submersíveis.

Bill Dennison, professor de ciências marinhas no Centro de Ciências Ambientais da Universidade de Maryland, passou algum tempo a estudar as ervas marinhas a bordo do Hydrolab, um dos primeiros habitats de investigação submarina, ativo até 1985 nas Ilhas Virgens Americanas. “Aprendi mais sobre o oceano naquela semana do que em todos os outros milhares de mergulhos que já fiz”, afirmou. “Ficamos com uma noção do fluxo da vida submarina.”

Mesmo assim, Bill Dennison entende porque não existem mais habitats submarinos. “São perigosos e caros. É preciso muito equipamento atualizado e de qualidade, e é preciso pessoal atualizado e qualificado”, explica.

De acordo com Wolpert, o que dá à DEEP uma vantagem competitiva é o apoio do seu fundador, que ele não quer nomear, afirmando apenas que é um “empresário tecnológico norte-americano que gosta de ser bastante reservado”, e que queria promover a compreensão dos oceanos e do seu papel fundamental para a humanidade.

O Hydrolab do tamanho de um SUV da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, usado entre 1970 e 1985, permitiu que quatro pessoas permanecessem debaixo de água durante dias ou semanas. Mas tinha apenas três beliches, pelo que os ocupantes tiveram que se revezar para dormir. Imagem: OAR/Programa Nacional de Pesquisa Submarina (NURP) 
A Aquarius substituiu o Hydrolab. Tinha alguns confortos extras, como um banheiro. Esta foto mostra o quarto de beliche de Aquarius, que acomoda seis pessoas. Ainda está em operação hoje em Florida Keys. Imagem: OAR/Programa Nacional de Pesquisa Submarina (NURP)

Dennison, da Universidade de Maryland, descreve o Hydrolab como um espaço húmido, apertado, que não tinha canalização interna e incluía apenas três camas para quatro ocupantes.

Em contrapartida, o Sentinel terá beliches insonorizados e um salão comum para refeições e convívio. “Não vai ser uma suite Four Seasons, mas quando sair de lá, certamente vai querer voltar”, graceja Wolpert.

Pode parecer uma fantasia de ficção científica, mas há quem esteja impressionado com os progressos da empresa. “Estão a reunir um grupo de pessoas muito bom. Parece ser um projeto bem pensado”, afirma à CNN Craig McLean, antigo administrador adjunto para a investigação na Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), que não está envolvido no trabalho da DEEP.

O início de uma nova onda

O interesse do público pelos habitats submarinos foi inicialmente despertado pelo famoso oceanógrafo francês Jacques Cousteau, que na década de 1960 procurou determinar se os “oceanautas” poderiam viver e trabalhar na água. As suas missões para construir “aldeias subaquáticas” - designadas Conshelf I, II e III - atraíram a atenção dos meios de comunicação social em plena corrida espacial.

Seguiu-se uma série de outros habitats subaquáticos, mas o interesse do público pelos oceanos diminuiu posteriormente, lembra McLean.

A NOAA operou o Hydrolab, o seu primeiro laboratório submarino, de 1970 a 1985. Em 1988, instalou outro, o Aquarius, em St. Croix, também nas Ilhas Virgens Americanas. O habitat, que é ligeiramente maior do que um autocarro escolar, tem seis beliches e dispõe de microondas, casa de banho, frigorífico, chuveiro e acesso à Internet.

Atualmente, está localizado no Santuário Marinho Nacional de Florida Keys, onde continua a ser o único laboratório subaquático operacional do mundo dedicado à investigação.

Mas o processo nem sempre tem sido fácil. McLean teve de tomar a difícil decisão de transferir as operações do Aquarius da NOAA para a Universidade Internacional da Florida, sediada em Miami, que assumiu as operações em 2013. “Infelizmente, foi o que tive de fazer com base nas finanças disponíveis”, explica McLean. “O investimento da sociedade nos oceanos tem sido subfinanciado.”

Mais recentemente, a exploração dos oceanos têm conseguido financiamento junto de investidores privados.  A OceanX, apoiada pelo fundador do fundo de investimento Ray Dalio, levou as missões submarinas para as salas de estar através do seu braço mediático. O financiador Victor Vescovo, o primeiro ser humano a viajar aos pontos mais profundos de todos os cinco oceanos da Terra, também capturou as suas missões para a televisão.

“Há uma grande desconexão entre a raça humana e o oceano”, diz Sean Wolpert, presidente do DEEP

Iniciativas como a DEEP e a Proteus - um observatório subaquático e uma estação de investigação anunciados em 2020 pela empresa de tecnologia oceânica fundada por Fabien Cousteau, neto do lendário explorador - podem ajudar a aumentar o interesse e o entusiasmo do público pelos oceanos, observa McLean.

Para Wolpert, a DEEP é mais do que um habitat - é também uma plataforma para envolver a próxima geração. A DEEP está a trabalhar num programa de sensibilização STEM financiado pelo Gabinete de Investigação Naval dos EUA, que visa envolver os estudantes numa série de desafios de conceção tecnológica de habitats.

A empresa também está a trabalhar no desenvolvimento de um instituto e um currículo para formar os futuros tripulantes do Sentinel. “Se as pessoas não puderem utilizar os habitats de forma produtiva e segura, não passarão de objetos brilhantes no fundo do mar”, afirma Wolpert.

O presidente da DEEP espera que a abordagem holística da empresa ajude a manter a onda de interesse pelos oceanos. “Há uma grande desconexão entre a raça humana e o oceano”, lamenta Wolpert. “O nosso objetivo é promover essa mudança geracional e voltar a ligar a humanidade ao mar.”

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