Montenegro é tão bom que "devia fundar uma consultora". Ao ataque a Montenegro no derradeiro debate

5 mai 2025, 12:36

Partidos concordam com o motivo que levou o país para eleições

"Quem mistura negócios com política não pode ser primeiro-ministro". Spinumviva volta a ser tema

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Frente a frente dos representantes dos partidos com assento parlamentar ficou marcado pelo adensar das críticas à gestão do Governo durante o apagão e à clareza quanto aos poucos pontos de consenso entre a AD e o PS

Foram duas horas em que pouco ou nada se debateu sobre aquilo a que os partidos chamam de problemas reais da vida dos portugueses: não houve propostas para os salários, para o Serviço Nacional de Saúde, para a educação nem para a habitação. Houve, e não foi pouco, foi bastante até, um rol de críticas, subidas de tom e atropelos. O consenso chegou apenas na hora de criticar a ação do Governo e de Luís Montenegro durante o apagão e numa possível concordância da AD e do PS para reformar a Justiça.

Num debate em que as grandes feridas ficaram de fora, foi a ferida ainda aberta de Luís Montenegro a marcar o arranque nas rádios - moderado pela Antena 1, Observador, TSF e Rádio Renascença. Pedro Nuno Santos ecoou o que tem dito nas últimas semanas, vincando que “quem mistura negócios com política não pode ser primeiro-ministro”, num claro ataque às condições éticas de Luís Montenegro, Mas o tema da empresa familiar do primeiro-ministro foi sol de pouca dura e gatilho para chamar a Justiça à conversa, trazendo um dos muitos poucos temas onde poderá haver um consenso entre a AD - Coligação PSD/CDS e o Partido Socialista: a reforma do setor.

O presidente do PSD e primeiro-ministro, Luís Montenegro, disse estar disponível para “aprofundar tudo aquilo que possa colaborar para algum funcionamento da Justiça” em particular na questão da celeridade processual. O secretário-geral do PS - que revelou que ainda não foi ouvido pela PGR a propósito da averiguação preventiva de que é alvo, mostrando-se disponível para o fazer ainda durante a campanha - defendeu que “num estado de direito e numa democracia temos de garantir que todos têm acesso à Justiça, independente das suas condições económicas, e isso implica que tenhamos de fazer uma revisão em baixa das custas ao acesso à Justiça” e, que, por isso, a Justiça é uma área na qual deve “haver um consenso alargado”.

Quanto a cenários de governabilidade, todos os partidos fizeram um apelo ao voto, com André Ventura a virar o jogo para o Chega, que acredita que será o grande vencedor de dia 18 de maio, aproveitando para espicaçar Luís Montenegro para uma coligação à direita. “O cenário que vamos voltar a ter, com toda a probabilidade, é uma maioria do PSD com Chega. O mundo real é este”, atirou Ventura, embora tenha admitido que ainda reina a imprevisibilidade: “Temos um primeiro-ministro que tinha uma maioria e desperdiçou”, disse, num claro lembrete ao “não é não” de Luís Montenegro nas eleições do ano passado.

O co-porta-voz do Livre juntou-se aos apelos dos restantes partidos de esquerda, mas sempre numa ótica de viabilização de governabilidade: “Ou a esquerda tem clareza e mobiliza os votos progressistas e democráticos ou podemos estar em face de uma situação que é constitucionalmente perigosa para o país”, vincou Rui Tavares, que foi, aliás, o único líder partidário a admitir uma “reflexão pessoal, individual” caso o partido tenha um resultado inferior ao obtido em março do ano passado. Já todos os outros líderes partidários dizem não equacionar uma saída das respetivas lideranças - nem mesmo André Ventura, apesar de agora reconhecer que está “certo que haverá muitas alternativas no partido”, ou Inês Sousa Real, deputada única do PAN que deixa a sua decisão para depois das autárquicas.

"Foi preciso um apagão para que se fizesse luz"

A frase é do secretário-geral do PCP Paulo Raimundo, também crítico à atuação do Governo durante o apagão de segunda-feira, que acabou por ser o tema quente deste debate, com Luís Montenegro a admitir que “houve indicação para ser enviado o SMS [da Proteção Civil] à hora que foi”. “A responsabilidade daquele dia foi toda minha, e fico muito satisfeito com os resultados que tivemos”, disse o primeiro-ministro, apesar do rol de críticas e acusações de “incompetência”.

“Luís Montenegro, com as perceções [é] muito bom, devia fundar uma consultora. Com a realidade ficou aquém”, disse Rui Tavares, que voltou a destacar que o Governo deveria ter recorrido à rádio como forma de apagão e até mesmo a “infraestrutura [que está em Portugal] preparada pelo sinal de base rádio”, em que um áudio é convertido em texto. Já André Ventura afirmou que “um problema para a segurança interna foi a incompetência e desorientação do Governo”, lembrando que nem o Presidente da República recebeu o SMS enviado pela Proteção Civil. “Senhor primeiro-ministro, foi puramente incompetente na gestão de uma crise em que precisamos de um primeiro-ministro forte”, atirou o presidente do Ventura.

Paulo Raimundo e Mariana Mortágua concordaram que o apagão deixou a nu as fragilidades do país no que toca à soberania. “Foi preciso um apagão para que se fizesse luz perante as debilidades do país em matéria de soberania, de dependência, de dificuldades estruturais”, disse o secretário-geral do PCP, cabeça de lista da CDU para estas eleições. A coordenadora do Bloco de Esquerda continuou, lamentando que a soberania do país está dependente de “meia dúzia de empresas privadas que têm o poder de ligar e desligar o botão”.

Pedro Nuno Santos aproveitou o tema para trazer o INEM à baila. “Em matéria de crises, este Governo tem currículo. Durante a greve da INEM, tivemos 11 mortos e ainda não tivemos uma palavra do primeiro-ministro. Em matéria de gestão de crises, este Governo é profundamente incompetente”. O secretário-geral do PS aproveitou ainda para devolver as críticas feitas ao SIRESP: “O SIRESP foi alvo de investimento a seguir a 2017. É fácil culpar o SIRESP porque não fala. Ainda não sabemos o que é que falhou (...) O PSD fala há muitos anos do SIRESP. Estiveram lá um ano e só agora vão começar a estudar o SIRESP. É conveniente”.

Direita isolada em temas como redes sociais e eutanásia

Foram vários os momentos de tensão durante o debate, com subidas de tom e acusações menos amigáveis. André Ventura, por exemplo, acusou Inês Sousa Real de ter “inveja” de Cristina Rodrigues, deputada do Chega que, lembrou a porta-voz do PAN, começa esta segunda-feira ser julgada no caso dos e-mails apagados dos computadores do PAN, quando ainda era deputada deste partido.

Também Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos tiveram um momento mais crespo, com o primeiro-ministro a acusar o líder da oposição de ter adotado uma postura que não a sua para os anteriores debates. “O verdadeiro Pedro Nuno Santos reapareceu, eu bem disse que era tudo maquilhagem”, atirou Montenegro. “Pedro Nuno Santos fez um restyling para esta campanha eleitoral, esta semana aparece nervoso”, continuou o líder da AD, com Pedro Nuno a responder: “Não faça esse número”.

Já no final do debate, temas como o financiamento da defesa, a regulamentação das redes sociais e o referendo à eutanásia mostraram a falta de consenso dos partidos nas mais variadas matérias. 

O Chega e a IL ficaram isolados na necessidade de regulamentar acesso a redes sociais por parte dos mais novos, com o partido de André Ventura a dizer que não vai “contribuir para limitar a liberdade em Portugal” e Rui Rocha a chutar a responsabilidade para os pais e educadores, dizendo que “o Estado não se deve substituir ao papel das famílias”. Luís Montenegro foi mais longe e disse mesmo que deve “haver regras e limitação” no acesso e uso.

No que toca a um possível referendo à eutanásia, só a AD e o Chega se mostraram favoráveis. Luís Montenegro afirmou que continua a defender o referendo nesta matéria e André Ventura disse que “não devemos avançar com tema tão sensível sem ter cuidados paliativos em Portugal”. 

O consenso de forma unânime chegou com a defesa. Nenhum partido se mostrou favorável à criação de um imposto europeu para financiar a defesa, apenas Rui Tavares disse que há estudos que mostram efeitos positivos deste imposto em “super-ricos”, ainda assim, sem defender esta medida.

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