De terceira força política em 2009 (com mais de meio milhão de votos) a sétimo partido com apenas uma deputada: o BE caiu com estrondo
Em 26 anos de existência parlamentar, nunca o Bloco de Esquerda tinha sido partido de um rosto só no Parlamento. Vai sê-lo este ano, face à “grande derrota” nas eleições legislativas, que deixaram a nu um partido que se “esvaziou” nas suas próprias causas e que “infantilizou” a campanha eleitoral. Num ano, o partido liderado por Mariana Mortágua perdeu 163.103 votos. E há 26 anos que nunca tinha tido tão poucos votos: 119.211.
“O partido cresceu com uma agenda muito fraturante e com temas novos para a sociedade, mas esses mesmo temas foram ficando reconhecidos e legislados, deixaram de ser tema de campanha”, começa por dizer Bruno Ferreira Costa, politólogo e professor na Universidade da Beira Interior, que considera que o partido “esvaziou-se” a si mesmo com o passar dos anos, sendo incapaz de continuar a marcar a agenda política, sendo, por isso, os resultados destas eleições antecipadas uma queda já um tanto ou quanto esperada.
Também Paula Espírito Santo, especialista em Sociologia Política, olha para o Bloco de Esquerda como um partido que se “esvaziou em termos de argumento”, algo que se ia notando nos últimos anos. “O referendo da interrupção voluntária da gravidez foi o grande motor [inicial do partido], depois o casamento homossexual. O partido foi tendo sempre grande argumentos em grandes etapas, mas até estes foram sendo resolvidos”, continua a professora e investigadora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), apontando como resultado o afastamento daquele que foi, até então, o seu grande eleitorado, os jovens adultos, agora mais alinhados com partidos com uma visão “mais moderna, ecológica e europeísta”, como é o caso do Livre, diz Bruno Ferreira Costa, que, defende a socióloga, passou a ser “o grande competidor do Bloco de Esquerda”.
Mas este não é, para ambos os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, o único fator em jogo na “grande derrota” do Bloco de Esquerda, citando palavras da sua própria coordenadora nacional e agora deputada única. Houve em Mariana Mortágua “uma incapacidade muito grande de passar uma mensagem de confiança”, diz Bruno Ferreira Costa, apontando que os recentes casos polémicos no partido, como o despedimento de trabalhadoras mães, foram a gota de água para alguns dos eleitores bloquistas. “Os recentes episódios foram minando o partido”, diz o professor universitário. Paula Espírito Santo concorda: “Isso acaba por ter efeitos e antes já tinha havido um deputado associado à especulação imobiliária”, referindo-se ao caso de Ricardo Robles. “Estas situações acabam por não ajudar”, vinca a socióloga política.
A própria estratégia para as eleições deste ano e a forma como o Bloco de Esquerda conduziu a campanha podem também ter contribuído para o tombo do partido.
“Não teve efeito nenhum ir buscar os fundadores do partido para cabeças de lista [como Francisco Louçã] e a campanha pareceu-me muito infantilizada. O BE procurou fazer uma campanha nas redes sociais com muitos vídeos na cozinha, com convidados, mas mais parecia um reality show sem que transmitisse uma mensagem coesa”, diz Bruno Ferreira Costa, referindo-se aos vídeos que o partido foi partilhando nas últimas semanas nas redes sociais, alguns deles protagonizados pela deputada Joana Mortágua.
O politólogo aponta ainda o dedo à incapacidade de Mariana Mortágua “criar empatia” e de “resistir ao voto útil”, que terá resultado numa transferência de votos que seriam do BE “para o PS ou para o Livre”. “Isso coloca em causa a própria sobrevivência do Bloco de Esquerda, seja porque agora tem uma deputada única, seja pela subvenção”, que será menor.
