Nem com uma nova dose de “Boa Sorte” Isaura se juntou à festa de Pedro Nuno: houve um “protesto” silencioso contra o amor de toda a vida

12 mai 2025, 07:10
Pedro Nuno Santos em Vila Nova de Gaia (JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA)

REPORTAGEM || Angeiras ensina que, na música e na política, não há amor como o primeiro. Mesmo quando o amor nos dá motivos para ficarmos desiludidos. É do berço à cova a ligação que esta comunidade piscatória diz ter com o PS. Fosse tão fácil para Pedro Nuno no resto do país como foi aqui, porque há tanto indeciso por conquistar. É neles que o PS agora pensa quando insiste na sua faceta moderada. Em Braga, com casa cheia, a música foi diferente. Houve Spinumviva depois de um concerto de Mónica Sintra. Afinal, há outro que quer ser primeiro-ministro

Zé Barbosa passou parte do sábado a criar um novo hino – uma “batida popular e top” - para dedicar a Pedro Nuno Santos. Mas, como se sabe, nestas coisas da música às vezes não há amor como o primeiro. Recebeu uma mensagem da comitiva do PS a pedir para não se esquecer do “Boa sorte, boa sorte”, a canção que em 2024 se tornou o hino de campanha involuntário.

No dia seguinte, este domingo, o povo de Angeiras, Matosinhos, vibra aos primeiros acordes. A estrela que aqui está é de categoria internacional. Todos sabem o refrão de cor. “Que tenha mais sorte do que da outra vez”, diz Zé Barbosa ao secretário-geral do PS. Vota antecipadamente este domingo porque no dia 18 tem concertos na Suíça.

foto José Sena Goulão/Lusa

Se o quiserem, Zé Barbosa lá estará, onde for preciso, socialista de alma e coração. “Ganhe ou perca, eu cantava em todo o lado.” Há quem por estas bandas gostasse de ver Zé Barbosa como deputado. “Animava o Parlamento”, reconhece Pedro Nuno num aparte aos jornalistas.

E logo avisam que o Zé Barbosa não sai de Matosinhos, que é preciso para animar as campanhas e os bailaricos cá na zona.

foto José Sena Goulão/Lusa

Em vez de quatro linguados, só um robalo para Pedro Nuno

Maria Celeste Correia, de 70 anos, caiu em casa há uns dias. Tem a mão esquerda coberta por ligaduras – do lado do coração e do partido político. Braço ao peito. Na mão direita, três bandeiras. Só lhe falta a de Portugal, que se arranja nos entretantos junto de um jota. “Vou pôr já à janela quando chegar a casa. Quando vejo o Pedro Nuno na televisão paro de fazer tudo. É o mais sincero deles todos.”

A filha, Ana Ribeiro, seguiu a profissão da mãe. É conserveira. Trata todos por jeitoso, sem necessidade de olhar à cara. Nem nós escapamos ao elogio. “Queria que ganhasse este santo. Ele é todo jeitosinho, que nem tenho explicação”.

O almoço deste domingo vai atrasar-se, não faz mal. “Ainda não fiz o comer para estar na festa”, diz a filha. Há de ser bacalhau frito. A mãe, a Pedro Nuno, dava-lhe era camarão e lagosta “para arrebitar”. Para o homem que querem primeiro-ministro só o melhor.

Onde a faina é pão não se muda de maré a meio da vida. Nasce-se socialista, morre-se socialista. E porque ser socialista faz parte da identidade, celebra-se. A festa enche o mercado de Angeiras, torna-se pequeno para tanta gente. “Isto vai entrar tudo no mercado? Ai, que a gente morre sem ar”, solta uma das peixeiras.

Da última vez que Pedro Nuno aqui veio, Isaura de Jesus era a alma da festa. Era vê-la a dançar como se não houvesse amanhã. Fez de tudo para que o candidato levasse quatro linguados na bagageira. Mas, desta vez, nem se aproxima. Nem se permite abanar a anca.

“Estou de protesto, mas vou votar nele. Não me apetece dançar, mas é por causa da Câmara [que é PS]. Aqui a gente paga luz, água, lugar. No [mercado] de Matosinhos não é assim.” Desta vez, já não lhe dava um linguado. Quanto muito um robalinho, é o que há na banca para vender.

Quando a comitiva deixa o mercado, a sinceridade vem ainda mais ao de cima. “Ele havia era de falar das merdas que faz”, diz uma das vendedoras. Mandam-se recados à presidente da câmara, Luísa Salgueiro, que também por cá anda. “A ver se vem arranjar o poste.”

Sermão aos peixes

O mar como pano de fundo. É tempo de falar aos peixes que votam. Começa Luísa Salgueiro, para defender um “homem que faz”, “que tinha condições de ter uma vida mais fácil e de ser feliz a fazer outra coisa”. “Mas ele quer servir o país.”

O cenário é perfeito para responder a Montenegro, que se definiu como o “farol” de que o país precisa. Pedro Nuno ignora a comparação na hora de criticar a falta de “realismo” do primeiro-ministro perante um contexto internacional de incerteza. Insiste na ideia o dia todo.

foto José Sena Goulão/Lusa

“Ainda não tivemos até agora uma única palavra de realismo de Luís Montenegro sobre o horizonte que está à nossa frente”, diz Pedro Nuno Santos. Ainda há tempo para apontar Fernando Araújo, médico, cabeça de lista pelo Porto, antigo diretor-executivo do SNS, como o nome que encaixa na “confiança” que um ministro da Saúde tem de despertar.

E é Fernando Araújo, já no almoço-comício em Vila Nova de Gaia, quem responde ao “farol” de Montenegro. “No sábado ouvi o líder da AD a referir-se a si próprio com um farol do país. Não sei se foi o apagão. Mas alguém devia dizer que o farol não está a funcionar. Os barcos estão todos a encalhar.”

foto José Sena Goulão/Lusa

Não é de graça, como diz o Governo

Benedita, uma varina daquelas que cabem no colo, quer experimentar todos os braços que ouvem os discursos no pequeno palco instalado junto à praia de Angeiras. Trezes meses de vida, os olhos tão redondos como o sol que aquece o dia.

E, no outro extremo da mesma rua, sentada numa cadeira vermelha, Fátima Pereira. Uma carroça carregada de legumes. Caixas de plástico com o que há para vender. Faz isto há 40 anos. “E continuo até poder. Eu gosto disto, mas a reforma também é pequena e não chega para tudo.”

Responde sem precisar de perguntas. “Vou buscar os remédios para os diabetes, dizem que são de graça, mas é só a insulina.” O resto é tudo pago. “Não são de graça, não senhora, como diz o Governo.” Descasca as favas, gostava que Pedro Nuno Santos as provasse, cozinhadas com um dos tomates gigantes que não precisaram de químicos para crescer.

Angeiras serve-nos sempre o país real. O país onde Conceição Faria estende a roupa ao domingo de manhã numa marquise do rés-do-chão. Não quer ir para a festa socialista, mas tem recados. “Ele que olhe mais para os reformados, que andam para aí muitos malandrões a receber sem trabalhar.” Ri-se com o cabeçudo no canto da rua, o mesmo que anima a multidão na festa socialista. “Parece o Trump”, ri-se. O boneco nem cabelo louro tem. A cunhada, Alice Maio, é a única a aceitar uma fotografia. “Sou socialista, mas a asma não me deixa ir para o meio de tanta gente.”

Montenegro, o 12.º apóstolo de Passos

Em dia de voto antecipado, todas as oportunidades são boas para tentar convencer os indecisos. Pedro Nuno insiste que o PS “nunca falhou” nos momentos de crise, acena com o fantasma da austeridade de Pedro Passos Coelho, lembra que Montenegro enquanto líder parlamentar do PSD nesses tempos era um “12.º ministro”.

Os convidados da caravana vão, um por um, confirmando que o PS não deitou ainda toalha ao chão, apesar das sondagens. Almoço-comício, Gaia, mesas cheias. O eurodeputado Francisco Assis acusa a Aliança Democrática de “vender banha da cobra” no seu programa económico” e de promover um “insulto à memória de Mário Soares” quando fala em “radicalismo” e divisões no PS. “O PS é, na sua essência, um partido profundamente moderado.”

foto José Sena Goulão/Lusa

Ao final da tarde, o caso Spinumviva regressa à campanha socialista no Theatro Circo, em Braga, na voz de José António Vieira da Silva. “Não pode haver este conflito, esta confusão. E não pode haver alguém que tendo cometido essa ilegalidade, ou pelo menos essa imoralidade, que nunca tenha tido a coragem de falar a verdade”, defende o antigo ministro do Trabalho. 

Vem depois o cabeça de lista por Braga, José Luís Carneiro, compor a argumentação: “Quando um primeiro-ministro não sabe que não pode receber dividendos de funções executivas, não está preparado para a função que está a exercer”.

foto José Sena Goulão/Lusa

A casa, cheia, aplaude. Mais de 800 cadeiras. E mais lugares houvesse, mais o Theatro Circo tinha enchido. Há quem veja tudo a partir do ecrã gigante instalado na rua. É por isso que, à chegada, Pedro Nuno se confronta com um homem com os ânimos aquecidos, a pedir um bilhete para entrar. Em palco, acaba a pedir aos que ficaram do lado de fora para não se “zangarem muito”, são as regras de segurança. E sinal do “extraordinário apoio” recebido nestes dias a norte.

Ah, houve também miniconcerto de Mónica Sintra para o aquecimento. É preciso jogar com os trunfos que se pode. Afinal, há outro que também quer ser primeiro-ministro.

foto José Sena Goulão/Lusa

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