Às vezes ninguém perde um debate porque ambos o vencem - à sua maneira. E por vezes também vence quem não lá está. Análise ao debate mais visto até agora: 1,2 milhões de espectadores. Passou na TVI e na CNN Portugal
O politólogo e professor catedrático José Filipe Pinto não tem dúvidas: "Do debate de ontem não temos um vencido e um vencedor mas três vencedores".
O vencedor Pedro Nuno Santos capitalizou graças à "imagem de tranquilidade" - "uma postura de governante, de alguém responsável".
A vitória de André Ventura prende-se com "as suas bandeiras", principalmente a questão da imigração, mas também pela astúcia de quem conhece bem os bastidores de uma televisão: "O jogo que fez com a câmara foi muito interessante - o olhar diretamente para a câmara como se estivesse a falar não com o interlocutor que tinha à frente mas com o seu eleitorado", destaca José Filipe Pinto.
E, por fim, Montenegro, o "vencedor que, estando ausente, ganhou": "Ganhou uma vez que o seu partido não vai sofrer nenhuma erosão eleitoral decorrente de uma perda de votos para o Chega. A forma como André Ventura esteve contra Pedro Nuno Santos não lhe permite alargar a sua base eleitoral, mas simplesmente reter grande parte da mesma base que já conquistou. E assim Luís Montenegro percebe que algumas franjas do PSD e do CDS mais viradas para a direita evidentemente que se afastaram de uma possível adesão, ainda que momentânea, ao Chega, porque entenderam que o Chega é de um radicalismo que vai muito além da social-democracia e da democracia cristã".
O politólogo João Pacheco sublinha outro ponto: "Acho que não há tanto uma indecisão entre Montenegro e André Ventura, há até é mais um indecisão entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos. Mas claro que o grande momento será no debate entre a AD e o PS". Entretanto: "O grande objetivo de André Ventura é garantir que os eleitores que foi buscar à abstenção vão voltar a levantar-se do sofá, sair da sua zona de conforto e votar no Chega no dia 18 de maio, para que o partido não tenha menos um deputado que os 50 que conseguiu".

Caso se queira mesmo definir um só vencedor formal do debate de terça-feira, José Filipe Pinto discorda de grande parte das análises feitas nos órgãos de comunicação social - a maioria dos comentadores atribuiu notas melhores a Pedro Nuno Santos que a André Ventura, nalguns casos até com muita diferença. "Não penso que a derrota de André Ventura tenha sido assim tão substancial. Ele esteve a falar exclusivamente para o seu eleitorado com as suas bandeiras e usou-as de uma maneira muito, muito, muito intensa."
Ainda assim, o politólogo reconhece que "de facto há uma vitória de Pedro Nuno Santos", mas lembra que surge "por uma razão simples": "Pedro Nuno Santos conseguiu não perder a calma". "Mas atenção, quem liderou o debate foi André Ventura, que evidentemente usou o debate para vender a mensagem que lhe interessava vender. Mas Pedro Nuno Santos vence porque anda a cultivar desde o início da campanha eleitoral uma imagem de serenidade para tentar ofuscar a imagem que lhe colam de radicalismo e de representar uma ala do PS mais próxima do Bloco de Esquerda do que da essência do PS".
Para João Pacheco, é certo que "André Ventura foi exageradamente radical", mas isso não é propriamente mau, porque o "eleitorado do Chega saiu convencido". "André Ventura esteve sempre, sempre ao ataque - com mais rigor numas coisas do que noutras, mas de facto percebeu-se que, independentemente do que Pedro Nuno Santos pudesse ou não dizer, André Ventura tinha aquelas sucessivas mensagens para passar. No fundo, parecia que levava aquela preocupação única de dizer uma série de soundbites, fazer uma série de acusações, abordar uma série de temas, sem argumentos."
Quanto à performance de Pedro Nuno Santos, João Pacheco considera que "conseguiu adequar-se ao debate, à forma e à mensagem de André Ventura - sem deixar de ser um ponderado e, como ele referiu, com maturidade para ouvir, mesmo incomodado em relação à postura de André Ventura". "Pedro Nuno Santos usou o debate como uma oportunidade para alargar aquilo que é o seu eleitorado potencial, ou seja, o eleitorado flutuante - os indecisos". "Saiu daquilo que é a bolha, os limites e as fronteiras do eleitorado socialista tradicional", diz, lembrado que o candidato "conseguiu inverter a ideia de radicalismo, instabilidade e até a dimensão negativa da sua própria imagem".
"Embora tenha entrado muito contido, Pedro Nuno Santos quis falar o menos possível, dizer o máximo por poucas palavras, não quis errar nem cometer asneiras porque sabia que este debate era importante para sair além do seu eleitorado socialista e convencer o eleitorado que está indeciso. E penso que terá conseguido com sucesso esse objetivo", conclui João Pacheco.