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Debates: quando perder hoje é ganhar amanhã?

10 jan, 09:52

O que é ganhar um debate? Falar mais alto? Falar mais tempo? Ter a última palavra? Lançar uma questão que deixa o outro sem resposta? Mostrar carisma? Ou manter serenidade? Dominar tecnicamente determinado dossier? Ou conquistar a audiência ‒ ou a sua audiência ‒ com um soundbite?

Ao fim de uma semana de embates televisivos, a campanha eleitoral para as legislativas ganhou protagonistas, confirmou tendências e trouxe surpresas. Houve empates esporádicos, derrotas pronunciadas e triunfos inesperados. Mas, na avaliação dos confrontos entre candidatos no pequeno ecrã, a concordância e a coerência são dificultadas pela disparidade de critérios.

O que é, afinal, ganhar um debate? Torna-se impossível garantir um consenso entre quem os analisa por uma razão simples: do mesmo modo que os comentadores não opinam sob os mesmos preconceitos, os protagonistas também não se enfrentam com os mesmos objetivos.

Uma avaliação séria ‒ e justa ‒ da primeira leva de debates não pode, por isso, ser feita duelo a duelo. Num modelo de 25 minutos, que beneficia os pequenos partidos, deve antes ser feita expectativa a expectativa, entre os dois homens que disputarão a vitória no dia 30: António Costa e Rui Rio.

A eco-gravata e a eco-alternativa

Costa e a sua omnipresente gravata verde partiram para a campanha eleitoral com ganas de PRR e a confiança de que a pandemia lhes ofereceria o mérito de lhe terem sobrevivido. O regresso às aulas presenciais, o sucesso da vacinação, a devolução de rendimentos convertida na promessa de os aumentar, o fantasma da direita austeritária (que Rui Rio tanto fez por afugentar do seu PSD), o tímido ‒ ainda que constante ‒ apelo à maioria absoluta.

Costa, na semana que passou, esmagou apenas num debate: com Jerónimo de Sousa. Sem dó nem piedade, e independentemente da proximidade pessoal entre ambos, o primeiro-ministro não poupou o secretário-geral do PCP. De rajada, recordou os apoios sociais que o chumbo do Orçamento do Estado atrasou ou impossibilitou ‒ e tudo indica que servirá a mesma inimizade a Catarina Martins esta terça-feira. Diante dos seus antigos parceiros parlamentares, Costa parece ter perdido a paciência e desenhado um propósito: sugar o seu eleitorado para um abraço de urso chamado voto útil.

Com Rui Tavares e Inês Sousa Real, por outro lado, não foi assim. Na vez da rutura, houve namoro. Costa não hostilizou e deu espaço “ao Professor Rui Tavares” e “à senhora deputada, que conheço bem” para exporem as suas propostas e irem por si próprios às parecenças com o PS, insistindo no pedido de uma maioria na Assembleia. Os melhores debates de Tavares e Sousa Real foram contra António Costa e isso não é coincidência.

A semana, nesse sentido, correu bem ao primeiro-ministro. A porta-voz do PAN acabou a admitir que está mais próxima dos socialistas do que da oposição e o cabeça-de-lista do Livre já fala numa eco-geringonça ‒ composta com o seu apoio e o do partido dos animais ‒ como alternativa à original. A António Costa, que já avisou não pretender regressar aos antigos aliados e tão pouco conversar com o PSD, pode muito bem restar-lhe isso. E, afinal, por que não?

"Por mim você não passa" (mas pelo dr. Rio era bom que passasse)

Para tal suceder, claro, o PS tem de conquistar o primeiro lugar na ida às urnas. E essa necessidade ajuda a desvendar os debates em que Costa enfrentou os líderes à direita de Rui Rio. Contra André Ventura, o primeiro-ministro fez mais uma vez por secar a esquerda que lhe chumbou o Orçamento. Encheu o peito e arriscou pisar o terreno dos ataques pessoais e das insinuações, onde o Chega é tradicionalmente rei e senhor. A repetida referência à frase da pasionaria Dolores Ibárruri ‒ “Por mim você não passa”, “No Pasarán! ‒ piscou o olho a comunistas e bloquistas, que também preferem o combate ideológico a Ventura à apresentação de um programa que o desmonte. Ora, Costa fez justamente isso. No debate com o líder do Chega não respondeu a uma questão sobre o país, nem apresentou uma proposta do seu partido. O fato de primeiro-ministro ficou pendurado no bengaleiro da RTP. O secretário-geral do PS permitiu que Ventura ‒ nesse debate metamorfoseado na sua versão moderada ‒ brilhasse enquanto tal. Isto é, que entrasse no eleitorado do PSD, enfraquecendo um score futuro de Rui Rio.

Dito de outra maneira: Costa perdeu em 25 minutos para tentar ganhar em 25 dias.

Contra Francisco Rodrigues dos Santos, um candidato por legitimar internamente e sem qualquer experiência televisiva, o primeiro-ministro também não fez por ganhar, sofrendo golpe a golpe, raramente ripostando. A estratégia era a mesma. Dar todo o espaço ao CDS para se imiscuir no espaço do centro-direita e impedir Rio de ser o mais votado ‒ única circunstância em que o líder do PSD concede ser primeiro-ministro.

Perante um veterano da política como Costa, ‘Chicão’ não se fez rogado. Tal como Ventura frente ao primeiro-ministro, venceu o debate.

Roll over, play dead

E Rio? Como lhe é costume, quanto menos evidente melhor. Do mesmo modo que os seus quatro anos de líder da oposição foram tão discretos que quase ausentes, a sua passagem pelos debates tem sido insípida. Sorri muito, é afável com todos e nunca se zanga. O tom coloquial confere-lhe uma autenticidade importante para os eleitores. O realismo (“Não há alívio fiscal se a economia não permitir”) garante-lhe um capital de honestidade precioso na incerteza do pós-pandemia. A sua simplicidade torna as propostas ‒ em especial na economia, onde está mais à vontade ‒ fáceis de entender.

Rui Rio desarma os oponentes com a simpatia de alguém que não se importa realmente com o momento do debate, chegando a subscrever ideias de adversários como Catarina Martins (“Eu concordo consigo!”) e até a aconselhar o voto no CDS como “alternativa moderada” ao seu PSD. Não leva notas, nem rancores, nem deixas. Contra ele, é impossível polarizar um debate ‒ algo que tem deixado os habituais polarizadores levemente desorientados. Nessa linha, nunca ganha um confronto. Mas, sobretudo, nunca o perde.

Esta quinta-feira, contra Costa, a estratégia será forçosamente outra ‒ a bipolarização que ambos desejam assim obriga. Mas esta, até agora, tem funcionado em pleno para manter o posicionamento onde Rio se sente mais confortável: ao centro, sem hostilizar nenhum oponente ‒ e, mais do que isso, sem abdicar de nenhum eleitor.

Também ele, como o primeiro-ministro, não se importou de perder nas televisões para arriscar ganhar nas urnas.

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