Montenegro vai ao debate com o PCP "porque Raimundo é menos acutilante". E evita "Mortágua e Rui Tavares porque são pesos pesados em TV"

27 mar 2025, 09:00
Debate entre Luís Montenegro e Paulo Raimundo. Créditos: Pedro Pina e Sérgio Queirós - RTP

Montenegro vai enviar Nuno Melo para debater nas televisões com BE, Livre e PAN; Montenegro vai enviar-se a si próprio para debater com PS, Chega, IL e PCP. A oposição não gostou, diz que Montenegro foge dos debates; Montenegro diz que não, que não foge de nada; os politólogos dizem que sim, que foge de "mais escrutínio" e "do perigo de ser encostado à parede nos debates". Por outro lado: quais são os critérios para Nuno Melo debater com BE, por exemplo, e Montenegro com o PCP?

Quem está habituado a analisar política compreende a estratégia de Luís Montenegro ao enviar Nuno Melo para os debates com o Bloco de Esquerda, Livre e PAN. Mas compreende ainda mais as críticas que lhe estão a ser feitas.

“É claramente uma desculpa de Luís Montenegro porque não há objetivo maior para um político em campanha eleitoral do que estar constantemente presente nas televisões, na primeira linha da campanha”, aponta o politólogo Riccardo Marchi.

Então porque usa Montenegro a “desculpa” da pluralidade de vozes da coligação? Para os analistas parece claro: a campanha será de desgaste da imagem do líder do PSD, feita em cima da polémica da empresa familiar Spinumviva.

“Por isso, a ideia que passa é de que Montenegro não está com disponibilidade e vontade de debater com todos - mais do que proteger o PSD ou o Governo, está a proteger-se a si próprio”, considera o politólogo João Pacheco.

“Não fujo a nenhum debate, mas a democracia deve respeitar que numa coligação possam intervir todos os parceiros com representação parlamentar.” Foi assim que Montenegro reagiu no X às críticas sobre a sua fuga ao debate: com o argumento da pluralidade.

Embora compreenda o argumento da pluralidade, mas também a necessidade de continuar a fazer o trabalho como primeiro-ministro, o politólogo José Filipe Pinto reconhece que Bloco de Esquerda, Livre e PAN podem sentir que “estamos perante uma segunda divisão” da política, com Montenegro a adotar uma posição que pode ser vista como “elitista”.

“É uma tentativa de secundarizar esses partidos e evitar oportunidades para mais escrutínio”, reforça João Pacheco.

Por outro lado, há isto: Montenegro vai ao debate com o PCP mas manda Nuno Melo ao debate com o BE - que critério há aqui? Não se trata de uma questão de tamanho: o PCP tem menos um deputado que o Bloco. Mas há isto: o líder do PSD já tinha tentado que Nuno Melo o substituísse nas legislativas anteriores no debate com o PCP, o que acabou por gerar contestação comunista e burburinho público. Montenegro acabou por fazer o debate na altura e vai fazer este porque lhe pode parecer aparentemente mais confortável. Como assim?

“Não é um debate que desgasta tanto o primeiro-ministro. Não disputam o mesmo eleitorado. Raimundo não tem a acutilância dos restantes. E tem um discurso mais fácil de desmontar”, considera José Filipe Pinto.

Por outro lado, Mariana Mortágua e Rui Tavares “são pesos pesados em termos de imagem televisiva e devem centrar muito a campanha na questão da ética na política”, diz Riccardo Marchi. “Iriam fazer-lhe um ataque ad hominem [personalizado], colocando em cima da mesa todos os casos em que está envolvido. E depois são partidos com enorme peso a nível mediático”, junta José Filipe Pinto.

Com Montenegro a passar a cadeira a Nuno Melo, não se cria nos portugueses precisamente essa sensação de que tem algo a esconder? Não pode ficar a perder com essa ausência? Os politólogos pensam de outra maneira: esta polémica vai desfazer-se mais depressa do que se criou, não ficará na memória dos eleitores.

“Irá ter muito menos efeitos do que o perigo de ser encostado à parede nos debates”, resume Riccardo Marchi.

No dia dos debates com Nuno Melo, essa mudança de protagonista vai ser argumento para a oposição, mas nada que dure. Os analistas vincam que ninguém deve recusar o frente a frente, até porque isso seria uma “oportunidade perdida”. Mais vale debater com Nuno Melo.

“Já agora: Nuno Melo é ministro da Defesa nacional e não da Defesa Pessoal”

Uma das primeiras reações à mudança veio de Pedro Nuno Santos, que considera ser “inaceitável” a “recusa” de Montenegro. “Participarei em todos os debates televisivos com os restantes líderes partidários ou de coligação. É assim que deve ser”, escreveu o secretário-geral do PS.

À CNN Portugal, fonte socialista garantiu que o partido não viu nesta mudança um motivo forte para um eventual boicote aos debates televisivos, embora condene a postura de Montenegro.

Entre os visados, as reações foram semelhantes. Mariana Mortágua veio acusar Montenegro de querer “escolher os seus adversários”, “além do mais sem qualquer critério que se possa compreender”. E embora haja abertura para debater com Nuno Melo, o que a bloquista recusa é que não aconteça um frente a frente com Montenegro. “Não aceito não debater com Luís Montenegro”, afirmou.

Reação do PAN: “Montenegro foge agora ao debate com todos os partidos com assento parlamentar e esconde-se atrás de Nuno Melo, que, já agora, é ministro da Defesa Nacional e não da Defesa Pessoal”, escreveu Inês de Sousa Real, porta-voz do partido, no X.

O Livre diz que reage esta quinta-feira. Contudo, pelo que aconteceu no ano passado, é possível antever a reação: em 2024, Rui Tavares mostrava total abertura para mudar a data do debate para quando Montenegro tivesse disponibilidade, acusando-o de “cobardia”.

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