opinião
Diretor de Assuntos Públicos na ALL Comunicação e ex-adjunto nos Governos de António Costa

A Montenegrização de Luís Montenegro

15 abr 2025, 16:43

Luís Montenegro venceu o debate de ontem com Rui Rocha – é justo reconhecê-lo. Estava confortável, confiante, e quis marcar a noite com uma frase que provavelmente já levava preparada: “há uma certa montenegrização do pensamento político dos partidos políticos da oposição”. Uma frase que cumpre os objetivos mínimos de um bom soundbite, que nos convida a analisá-la no day after e que marca o debate. Infelizmente, brilhou mais pelo egocentrismo do que pelo rigor.

Montenegro quis dizer que a Iniciativa Liberal se está a moderar para se aproximar da AD. E que Pedro Nuno Santos, em temas como a imigração, foi dar razão ao discurso da direita. Poderia ser apenas uma observação sobre a convergência de discursos. Mas não: é uma tentativa de apropriação. Como se o país estivesse, em bloco, a mover-se em torno de Luís Montenegro. Como se a história política portuguesa, neste momento, se escrevesse ao ritmo da sua cartilha pessoal.

A verdade, porém, é bem mais simples. O mundo virou à direita – Portugal, como era de esperar, foi atrás. A política de imigração está a ser repensada em praticamente todos os países europeus. A moderação da IL é tão previsível como estratégica: serve para ir buscar votos ao centro, sim, mas também para facilitar um eventual acordo pós-eleitoral com a AD. E o PS, nas mãos de Pedro Nuno Santos, é menos “montenegrizado” do que é pragmático – está a jogar com as cartas que a mesa lhe dá. As ideias flutuam, os ventos mudam – e ninguém está a copiar Montenegro. Estão, quando muito, a ler as sondagens.

Ironia das ironias, o próprio Luís Montenegro foi o primeiro a afinar o discurso em função do adversário. Herdou a tática de António Costa com gosto e zelo: aumentos de pensões, devoluções de rendimentos, melhorar as condições de certas carreiras profissionais, juras de investimento público mais robusto. Tudo aquilo que criticou em campanha, passou a defender no Governo. E agora quer ser o teórico da coerência política nacional.

É um caso curioso: Montenegro é o primeiro-ministro que acusou os outros de se montenegrizarem, depois de passar meses a tentar costizar-se. É como o aluno que copia o teste do colega e, a seguir, se queixa de que lhe estão a plagiar o estilo. Mas onde Costa o fazia com o instinto de quem sempre soube operar no centro político, Montenegro repete-lhe os gestos com o esforço visível de quem está a representar um papel. Não é só um reposicionamento – é um desvio da personagem. E isso custa a quem, não há muito tempo, se mostrava tão entusiasmado a defender as medidas mais duras da era Passos Coelho.

Ainda assim, o mais revelador de tudo isto não é o diagnóstico: é o nome que lhe quis dar. “Montenegrização”. Como se tivesse inventado um movimento. Como se fosse um ismo. Como se estivéssemos, todos, apaixonados pela forma como Luís Montenegro vê o mundo.

Não estamos. E é por isso que esta tentativa de empurrar o centro político para o seu nome próprio – mais do que reveladora de um momento – é sintoma de um pequeno deslumbramento. Montenegro quer deixar marca, mas corre o risco de confundir espelho com legado.

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