Lembram-se de novembro? Seguro: "Se André Ventura quer debater com o PS, eu dou-lhe o número de José Luís Carneiro". Ventura: "Segundo as sondagens, eu estou à frente" de Seguro

27 jan, 08:00

Foi um dos instantes marcantes do debate de novembro entre ambos, sobretudo porque antecipou uma estratégia: enquanto Ventura tentava colar Seguro ao PS - retórica que está a reforçar para a segunda volta -, Seguro argumentava que "há uma diferença entre ser o candidato de um partido e o candidato apoiado por um partido". E por entre a retórica mais filosófica houve retórica mais irónica - a dado momento, Ventura comentou que Seguro estava a rir-se sobre a herança do PS e que não o devia fazer, Seguro respondeu que estava a rir-se, sim, mas de Ventura - que a dado momento celebrou estar à frente de Seguro nas sondagens. Hoje, pelas 20:30 na TVI/CNN, veremos o que há mais, por enquanto vejamos o que houve em novembro

Da última vez que se cruzaram num frente a frente, o país vivia em contagem decrescente para uma greve geral e as sondagens colocavam André Ventura à frente de António José Seguro na corrida à primeira volta das presidenciais. Essa tendência foi-se invertendo e Seguro acabou por sair líder nas eleições de janeiro com a mais recente sondagem a dar-lhe a vitória com 70% dos votos na segunda volta. 

Muito mudou desde esse confronto em novembro, que ficou marcado por dezenas de interrupções e por um tom permanentemente confrontacional. Mas há estratégias que vieram para ficar: foi naquele debate que Ventura ensaiou a colagem de Seguro à herança governativa do Partido Socialista, um argumento de que não mais se afastaria. E em que Seguro tentou posicionar-se como suprapartidário, um caminho que viria a seguir no seu discurso de vitória na primeira volta.

Seguro e Ventura inauguraram o primeiro debate para as presidenciais, em novembro foto Rui Valido

A primeira grande fratura abriu-se logo na discussão sobre a revisão da lei laboral e a greve geral convocada pelas centrais sindicais. Seguro rejeitou frontalmente a proposta do Governo, acusando-a de desequilíbrio e de falta de legitimidade democrática: “O país não precisa de revisão de legislação laboral nesses termos. Os termos são profundamente desequilibrados, não foram a votos, porque não fez parte do programa eleitoral dos partidos que fazem parte do Governo - e atentam contra direitos dos trabalhadores”. 

Já Ventura clarificou também a sua discordância com a revisão laboral nos termos do Governo. “Para nós, não faz sentido estarmos num país que tem os problemas de natalidade que tem e estarmos a reduzir direitos às mães para a amamentação. Isso não faz sentido nenhum”, mas aproveitou para atacar o papel dos sindicatos, especialmente por causa dos impactos da greve. “Já chega de termos esta coisa a que chamam 'os sindicatos' em todo o lado, tipos que não trabalham há 20 ou 30 anos. Eu dirijo-me aos milhões de pessoas que ficam sem comboio para ir ao hospital, para ir trabalhar, quando pagaram o passe e não recebem compensação nenhuma.” 

Mas aquilo que parecia ser uma frágil concordância entre ambos os candidatos sobre os planos do Governo para rever a lei laboral foi o ponto de partida para Ventura regressar a uma analogia que já tinha experimentado contra outro ex-líder do PS, Pedro Nuno Santos, no confronto para as eleições legislativas de 2024: o “Melhoral”. Mas se na altura atacava a propostas do PS que dizia serem inúteis para combater a corrupção, desta vez atacava Seguro por aquilo que via como uma incapacidade de se comprometer sobre se as pessoas afetadas pela greve deviam ser compensadas.  “Isto é uma questão de sim ou não, não é do ‘ai, estamos à espera de um consenso e tal’. Mas que consenso? Nós temos é de decidir.” 

Depois, no momento em que a palavra é devolvida a Seguro para a réplica, Ventura interrompeu para o marcar como o candidato do PS. “Com quem é que eu estou a debater aqui? Com o candidato do Partido Socialista? Ou com alguém que parece que chegou agora, que se sentou aí e diz que o país está todo errado?”. 

A isto, Seguro vincou o passado recente em que esteve ausente da vida política. “Sr. deputado André Ventura tem mais anos de atividade partidária neste século do que eu, contando com os anos que esteve no PSD e, agora, no Chega”. E procurou salientar como a avançou para a sua candidatura sem o apoio inicial do PS. “Há uma diferença entre ser o candidato de um partido e o candidato apoiado por um partido. Eu tenho muito orgulho em ser um candidato que se afirmou com a sua coragem, que apresentou a sua candidatura e que, passado quatro meses, o Partido Socialista veio reconhecer que devia apoiar.” 

Por entre as tentativas de Ventura colar Seguro ao PS aconteceu este momento (a partir dos 29m45s no vídeo no topo do artigo):

André Ventura Sei que muitos imigrantes que para cá vêm vêm em busca de trabalho, que vêm em busca de uma vida melhor… E eu não tenho nada contra isso. Eu tenho uma coisa contra outra coisa que o seu partido fez: foi abrir as portas de forma despudorada a toda a gente, criminosos, bandidos e outros que para cá vieram. Não se ria, como se o senhor se está a rir, da desgraça que o Partido Socialista deixou.

António José Seguro Não me estou a rir, estou a rir-me do senhor.

 O frente a frente que abriu o ciclo de debates foi líder de audiências foto Rui Valido

Seguro aproveitou as tentativas de Ventura para colá-lo ao PS dizendo assim:

Se o Sr. deputado quer debater com o Partido Socialista, eu dou-lhe o número de telefone do dr. José Luís Carneiro e o sr. deputado debate com ele. Eu, aliás, acho que o sr. deputado está na eleição errada porque, verdadeiramente, o senhor devia estar era nas eleições legislativas. Ainda há seis meses andou a pedir aos portugueses para votarem em si e, neste momento, borrifou-se para esses votos dos portugueses e está-se a candidatar a Presidente da República. Não acha que isso fere o contrato de confiança que os portugueses lhe deram quando votaram em si?

André Ventura Sabe o que é que eu acho que fere o contrato de confiança de quem votou em nós? É quando nós vimos com uma herança atrás e queremos escondê-la. Isso é que fere…

António José Seguro O sr. deputado está enganado…

André Ventura Sabe o que é que parece? É que tem vergonha da herança do Partido Socialista…

António José Seguro Não, não, não…

André Ventura É que chega aqui agora… É militante do…?

António José Seguro O Sr. deputado está na eleição errada…

André Ventura Isso é com os portugueses. E segundo todas as sondagens, menos a da Pitagórica, estou à sua frente. Mesmo assim estou a fazer melhor… Se eu estou na eleição errada, imagine a sua [candidatura].

Momentos mais tarde, os dois viriam a chocar sobre a forma como Marcelo reagiu, em novembro, quando esteve em Angola e ouviu João Lourenço a criticar a herança do colonialismo português, que deixou o país “oprimido e escravizado durante séculos”. 

A acusação abriu um dos momentos mais tensos do debate. Ventura trouxe para o centro da discussão o episódio ocorrido dias antes em Angola, acusando Marcelo Rebelo de Sousa - e, por arrasto, Seguro - de falta de firmeza institucional. “O nosso Presidente da República nunca devia ter permitido a humilhação que teve. Foi humilhado pelo presidente angolano e vi-o em silêncio sobre isso”, disse, antes de acrescentar que, se o chefe de Estado “já que não serve para nada, ao menos que sirva para defender os portugueses”. 

Neste ponto, Seguro tentou responder, foi sucessivamente interrompido. Mas entretanto afirma assim: “O sr., na retórica, não há quem lhe ganhe. Mas o sentido de Estado é essencial para um presidente republicano”, afirmou, defendendo que a reação de Marcelo foi adequada ao cargo. Ventura cortou de imediato: “Conversa da treta, António José Seguro. Conversa da treta há 50 anos. É isso que nos tem levado a humilhar-nos perante as antigas colónias”.

Quando conseguiu retomar a palavra, Seguro explicou que, naquele contexto, “a dignidade de Estado exigia que o Presidente da República ouvisse e respondesse com inteligência e sentido de Estado no momento certo”, sublinhando que teria agido “da mesma forma como agiu o atual Presidente da República”. A resposta abriu nova vaga de interrupções. “Ou seja, tinha-se vergado”, insistiu Ventura, classificando a atitude como “traição”. A troca terminou num choque frontal. “O senhor não me dá lições de patriotismo”, afirmou Seguro. Ventura devolveu: “Olhe, mas parece que dou”. 

Mudança de regime e uma tese de 2013 

Saúde, mudanças de regime e imigração marcaram o debate entre os dois candidatos na primeira volta foto Rui Valido

Outro dos pontos que colocou mais a nu as divergências sobre as visões de Ventura e Seguro sobre o regime veio de uma pergunta: "O regime político português é definido como semipresidencialista. Este regime deve manter-se?"

Para Ventura a resposta é não. “O Presidente é eleito por voto direto, universal, tem de ter mais de 50% dos votos. É o único órgão nacional com este tipo de legitimidade”, argumentou, defendendo que essa legitimidade deve traduzir-se num papel “mais vigilante” e “mais atuante”. “O Presidente da República, se é eleito por voto direto, que sirva para alguma coisa, que não seja um rei figurante.”

Quando a palavra passou para António José Seguro, a resposta foi de recusa total de qualquer revisão do modelo constitucional. “Não, não vejo absolutamente nenhuma necessidade, muito menos no âmbito de uma campanha eleitoral”, afirmou. Para o antigo líder socialista, “o problema não está no sistema de governo, está na maneira como se governa”. Seguro tentou deslocar a discussão para aquilo que apresentou como a urgência do país: a saúde. “É inaceitável que os portugueses estejam semanas e meses à espera de uma consulta, que tenham meses e anos à espera de uma intervenção cirúrgica”, disse, descrevendo “o calvário aos fins de semana” nas urgências e anunciando como prioridade do primeiro ano de mandato “contribuir para que haja um pacto para a saúde, para promover o acesso, a tempo e horas, dos portugueses à saúde”.

Ventura interrompeu de imediato para descredibilizar a solução, reduzindo-a a “mais um dos pactos que PS e PSD fizeram em 50 anos, que deram zero”, acrescentando que “tudo o que está aqui a dizer deu zero resultado”. Seguro, sem recuar, tentou concretizar e transformou a promessa de pacto num gesto performativo, oferecendo a Ventura um “guião” com os eixos do documento: “reafirmação do papel central do Estado (…) através do SNS”, “redução progressiva da despesa direta das famílias”, “integração efetiva entre níveis de cuidados”, “reforço da gestão”, “digitalização”.

Por outro lado, o líder do Chega respondeu com um ataque em duas frentes: primeiro, acusou Seguro de repetir “a mesma conversa” que conduziu ao estado de “um milhão de pessoas sem médico de família” e “mais de 100 mil pessoas à espera de cirurgias graves”; depois, deslocou a discussão para um terreno que viria a dominar a reta final do debate: imigração e prioridade nacional. “Vou dizer-lhe uma [solução]: é pôr os portugueses em primeiro lugar”, afirmou, acusando Seguro de aceitar que “chegue alguém do Bangladesh, da Índia, do Paquistão e passe à frente dos portugueses na saúde”, e defendendo o fim do que chamou “bar aberto para o mundo inteiro vir cá tratar-se, curar-se, à nossa custa”.

Só que, sobre imigração, Seguro puxou trazia um trunfo para o debate: o currículo académico do adversário. “Eu recomendo-lhe… sabe o quê? Uma tese de doutoramento de 2013, do estudante, na altura, André Ventura, em que chamava a atenção, precisamente, para essa estigmatização e para o aproveitamento…” Naquele segundo, Ventura tentou cortar a linha argumentativa com o lema que repetia desde o início da discussão: “Pôr os portugueses em primeiro lugar”. Mas Seguro insistiu, lendo um excerto da tese de doutoramento de Ventura em que o líder do Chega criticava a expansão do poder das polícias e a discriminação de minorias. “Dá-me licença? Não quer ouvir, não é? O senhor chamava a atenção, nessa altura bem, estava do lado certo, que havia uma estigmatização de minorias”.

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