Rui Rio quer reduzir impostos, mas Rui Tavares não acredita nos "milagres" do PSD

8 jan, 21:32

Um quase frente a frente, já que o presidente do PSD esteve nos estúdios do Porto e o dirigente do Livre em Lisboa, que foi dominado pelas diferenças no que toca à redução de impostos, ao aumento dos salários, mas também pela questão da governabilidade

O PSD, que apresentou o programa eleitoral na sexta-feira, já fez saber que a redução dos impostos é a sua principal bandeira. No entanto, o cabeça de lista do Livre por Lisboa considerou, no debate deste sábado, que se trata de fruta a mais. "Não se deve pôr o carro à frente dos bois", alertou. 

Rui Rio quer baixar a carga fiscal e compensar essa perda de receita com o crescimento económico, explicando que "sempre que a economia cresce, o Estado tem mais receita". Sem fugir ao tema, aproveitou para criticar António Costa, porque não se pode aumentar a despesa pública "e ainda aumentar os impostos para ter mais receita, como o PS faz". 

O objetivo passa então por, ao longo da legislatura, utilizar essa riqueza - 17,3 mil milhões, de acordo com o programa do PSD - e aplicar "11,5% para descida de impostos, 23% para a redução do défice e 65,5% para o crescimento da despesa". Mas esta não é a fórmula em que Rui Tavares acredita e decidiu expressá-lo de forma irónica. 

"Rui Rio disse num debate recente que não era crente, mas o programa do PSD acredita em milagres". 

O fundador do Livre defende que o IVA deve, de facto, baixar, bem como "a taxa que paga uma família mediana", mas "não é possível fazer estas reduções de impostos e prometer algumas coisas que promete", argumentou. Rui Tavares alertou ainda que "não se podem fazer cortes de impostos em momentos que ainda são de incerteza". Mas Rio defendeu-se dizendo que "tudo isto só é possível numa situação de normalidade" e com a pandemia estabilizada. 

"Se eu tivesse ganho as eleições em 2019, com uma pandemia pelo meio também não tinha conseguido [descer impostos], vamos ser sérios”, acrescentou. 

O dilema do salário mínimo e o subsídio "surrealista"

A forma como deve ser aumentado o salário mínimo nacional tem sido um dos principais pontos de discórdia nos debates entre candidatos e este não foi exceção. O governo propõe aumentar o salário mínimo até 900 euros até 2026, o Livre quer 1.000 e o PSD quer fazê-lo mas sem "nivelar por baixo". Prefere fazê-lo com olho na inflação e com base no aumento da produtividade. 

Rui Rio não considera os 1.000 euros propostos pelo Livre como algo "irreal", mas é "um modelo de sociedade completamente diferente" daquele que defende. Prefere promover uma subida do salário médio, para que o salário mínimo aumente "por arrasto". 

"Se empresas tiverem de pagar esse salário mínimo nacional sem que a sua produção, os seus lucros, toda a sua atividade o justifique, aquilo que vai acontecer é que todos os demais salários não vão subir. E, portanto, nós estamos a nivelar por baixo", sustentou. 

Na mesma linha do que tem apresentado, Rui Tavares explicou quer aproximar o salário mínimo nacional ao que é praticado em Espanha, com um aumento de 6% ao ano, fazendo a conta a 12 meses.

"Nós tínhamos uma proporção do salário mínimo espanhol de cerca de 80%, agora vale 70%. Isto é um risco gravíssimo para a nossa economia (...) o que o Livre propõe é que façamos gradualmente, sempre com olho na inflação, um caminho de reaproximação dos 80% do salário mínimo espanhol", disse. 

Apesar de não ter considerado esta ambição do Livre como "irreal", houve uma outra medida que Rio classificou como "surrealista". O partido da papoila sugere que o subsídio de desemprego deve ser alargado, por exemplo, aos trabalhadores que se despeçam, mas em casos excecionais como: alguém que queira terminar o mestrado; uma família em que uma das pessoas recebe uma proposta de trabalho no interior do país e a outra se despede para acompanhar a mudança; ou mesmo em casos de violência doméstica em que a vítima tenha de refazer a vida numa outra região.

Mas o presidente do PSD não podia estar mais em desacordo. "Eu acho uma coisa absolutamente surrealista dar um subsídio de desemprego a quem se propõe ele próprio a ir para o desemprego". Assim como também considerou "surrealista" o facto de o Livre querer implementar "o rendimento básico incondicional" em que "todos os 10 milhões de portugueses têm, à partida, direito a um subsídio". 

A "encruzilhada" do voto no PSD

O dirigente do Livre rematou, no frente a frente com Rui Rio, que o voto no PSD poderá resultar numa "encruzilhada", uma vez que "não sabemos com quem pretende governar". Rio não partilha da mesma opinião e disse que o partido "foi muito claro" sobre quais são as opções de governabilidade que podem estar em cima da mesa depois de 30 de janeiro. 

"Quem foi muito claro foi sempre o PSD. O PS e o Livre são, de certa forma, partidos irmãos (...) eu ganhando as eleições, a preferência é dialogar com o CDS e IL, mas se esse diálogo não der maioria, não der os 116 [deputados], eu entendo que o PS deve estar democraticamente disponível ara negociar e viabilizar a governabilidade. Eu, em sentido contrário, tenho de ser honesto e fazer o mesmo", justificou.

Ainda assim, Rui Tavares continuou com as críticas ao adversário, lembrando que os entendimentos de Rui Rio com António Costa resultaram em menos debates parlamentares de escrutínio ao Governo.

Sobre cenários de governabilidade, afirmou que, em caso de vitória do PS, o "pacto social progressista" que tem proposto pode merecer "um apoio amplo à esquerda" ou - como disse ser possível segundo algumas sondagens - apenas com os votos do PS, Livre e PAN, numa solução que designou de "ecogeringonça", dizendo ser "indesejável" uma maioria absoluta dos socialistas.

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