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Meias-verdades, "balas de prata" e o vencedor que não venceu as eleições. Como foi o último debate entre Pedro Nuno e Montenegro

28 abr 2025, 07:30
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Um ano depois, Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro voltam a medir forças esta noite. O debate passado foi vincado pela pressão das ruas, com milhares de polícias em protesto à porta, e por trocas de acusação sobre saúde, habitação e pensões

Passou um ano, dois meses e cinco dias desde a última vez que Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro se defrontaram num debate durante a pré-campanha eleitoral para as legislativas. O confronto deu-se ao mesmo tempo que milhares de membros de forças de segurança cercavam o Capitólio, em Lisboa, num protesto sobre as discrepâncias na atribuição do subsídio de risco. 

Lá dentro, esse foi o primeiro tema em foco. Tanto Pedro Nuno Santos, que surgia como o herdeiro de António Costa à frente do PS, e Luís Montenegro, que viria a ser eleito primeiro-ministro, abriram porta a diálogos, mas foi o socialista que se mostrou mais crítico da desordem que ocorria lá fora. "Não se negoceia sob coação, sempre com respeito pela ordem". 

As manifestações das forças policiais viriam a marcar a agenda durante grande parte do ano passado, especialmente após a formação de grupos fora das esferas dos sindicatos que promoveram e incentivaram ações de protestos mais radicais. O tema viria a esfriar em julho quando a ministra da Administração Interna firmou um acordo com os polícias que implicou o aumento do suplemento de missão das forças de segurança - PSP e GNR - em cerca de 300 euros. 

Outro dos temas que promete uma reedição no debate deste ano é a habitação. Pedro Nuno trazia neste campo uma herança agridoce como antigo ministro das Infraestruturas e que tinha feito a promessa de que nos 50 anos do 25 de Abril não existiria ninguém sem casa digna. “Na habitação não há balas de prata”, justificou-se na altura. Desta vez, será Montenegro no centro das atenções da crise imobiliária. Em debates passados, especialmente contra Paulo Raimundo, o primeiro-ministro incumbente tem vindo a defender-se das críticas com a intenção de “construir 59 mil novas habitações públicas".

Já no que diz respeito ao tema da crise na saúde Pedro Nuno Santos defendia, na altura, que o Governo de António Costa “deveria ter feito mais para defender o SNS”, e que, caso fosse eleito, seria a altura para “apostar na prevenção, nos cuidados de saúde primários” e de “dotar os centros de saúde de meios complementares de diagnóstico e exames”, tal como “dar incentivos às administrações hospitalares e aos nossos médicos, e diminuir as listas de espera”.

Montenegro, por outro lado, assinalava com a proposta da AD para um plano de emergência para o SNS que começou a ser posto em prática durante o curto mandato, mas do qual os portugueses ainda não sentiram uma diferença abismal. Na verdade, a crise na saúde tem vindo a agudizar-se nos últimos meses com várias urgências encerradas durante os fins de semana e especialmente após a morte de onze pessoas alegadamente relacionadas com falhas no atendimento do 112 - e que foi alvo de inquérito por parte do IGAS. 

Quem ganhou o debate?

Há um ano, coube aos comentadores da CNN Portugal Rui Calafate e Luís Paixão Martins avaliarem os dois candidatos. Para ambos, foi o socialista que saiu vitorioso. 

“Pedro Nuno Santos saiu daqui como o primeiro-ministro da esquerda, marcou pontos na mobilização de eleitores relativamente ao seu projeto e também junto de eleitores moderados, dependentes de pensões”, afirmava Paixão Martins. Já Montenegro “ficou aquém das expectativas”. “Fala muito do passado, na tentativa de colar Pedro Nuno Santos ao passado, e fala pouco do futuro”. “Montenegro passou mais tempo a descredibilizar Pedro Nuno Santos do que a apresentar as suas ideias. Não criou sonho, não criou esperança, não falou do futuro”.

No final, Luís Paixão Martins deu nota 9/10 ao Secretário-Geral do PS e nota 7 ao presidente do PSD. 

Na mesma linha, Rui Calafate acabou por dar a Pedro Nuno nota 8 e a Montenegro nota 7. O comentador apontou que Luís Montenegro foi “muitas vezes encostado às cordas” e que “não conseguiu sequer meter a palavra mudança no seu léxico”. “Houve muito pouco futuro para que as pessoas fossem levadas a votar num projeto futuro”. Já sobre o líder do PS, destacava três problemas: “afirmar a sua persona, carregar o peso de António Costa, e lutar contra o destino”. “A história do PS mostra que, após um líder longo, costuma vir um breve”. “Pedro Nuno Santos está a lutar contra isso”.

Hospitais, pensões e verdades a meio

No habitual fact-check após o debate, a redação da CNN Portugal avaliou três frases ditas por Luís Montenegro e por Pedro Nuno Santos para determinar se eram factualmente corretas. A primeira, pelo social-democrata, é a de que o PSD inaugurou sete hospitais e o PS inaugurou zero.

Esta comparação é enganadora por duas razões. Primeiro, o número “sete” inclui unidades que, embora inauguradas sob um governo PSD, foram lançadas por executivos PS. É o caso do Hospital de Lamego, iniciado em 2009. Além disso, o chamado “Hospital da Guarda” não é uma nova unidade, mas sim um novo pavilhão. Contas feitas, o número real é mais próximo de seis inaugurações, muitas delas com origem anterior ao governo PSD, e não sete.

Segundo, o “zero” atribuído ao PS também não é exato. O Hospital Terras do Infante, inaugurado em 2022 pelo Governo PS, resultou da conversão e substituição de um hospital privado adquirido pelo Estado. Não sendo uma construção de raiz, é ainda assim uma nova unidade funcional de saúde pública. A afirmação de Montenegro foi, portanto, imprecisa e exagerada.

A segunda foi o facto de Montenegro ter acusado o Governo de José Sócrates de ter congelado pensões, incluindo as mínimas, antes da Troika. Esta afirmação é verdadeira: em 2010, o executivo do PS criou a Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), que afetava pensões acima de 5.000 euros, e suspendeu as atualizações regulares de pensões. 

Pedro Nuno Santos, por outro lado, afirmou que o PSD tentou cortar pensões a partir dos 600 euros, mas foi travado pelo Tribunal Constitucional. Também aqui, a afirmação é verdadeira. Em 2014, o Governo PSD/CDS propôs cortes de 10% a pensões a partir dos 600 euros, mas a medida foi chumbada pelo Tribunal Constitucional. O argumento de que o PSD foi “mais longe” que o PS nos cortes de pensões durante a crise é factualmente sustentado.

Ainda no tema das pensões, Montenegro referiu que António Costa cortou pensões em 2022. De facto, o Governo antecipou alterações ao modelo de atualização, o que implicava um aumento inferior em 2023. No entanto, essa perda foi compensada com o pagamento de meia pensão extra em outubro de 2022. Ou seja, os pensionistas não perderam rendimento — nem em 2022 nem em 2023. Montenegro omitiu este detalhe, tornando a sua afirmação enganadora.

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